Oi família,

Já tem alguns dias que eu estou preparando meu retorno para as conversas aqui. Confesso que nesse momento pandêmico e com todas as violências que atravessam nossas vidas vidas, não tem sido fácil – e talvez, nos próximos dias, eu escreva sobre isso. Precisamos trocar, refletir e organizar para agir. Nesse período, uma das coisas que eu mais queria fazer aqui era falar sobre a Reaja ou será [email protected], uma das principais organizações do movimento negro brasileiro que incansavelmente trabalha pelo direito à vida das pessoas negras e denunciando as ações de um Estado genocida.

A Reaja está, há décadas, onde ninguém quer estar, no foco do problema, ou onde as ações do racismo incide com mais violência sobre nosso povo. Está lá, mantendo ações de apoio às comunidades mais vulneráveis e de assistência às pessoas privadas de liberdade, ao mesmo tempo que mantém a Escola Winnie Mandela, para educação e fortalecimento de crianças negras, em Salvador. Um movimento urgente que, ainda, precisa continuar existindo.

Em um momento que a internet toda me pergunta como apoiar ações antirracistas, eu sugiro: Entre em contato com a Reaja, apoie financeiramente as ações da Reaja, pela vida de pessoas negras. Essa é uma organização que, por exemplo, se articula desde a garantia de educação e alimentação para crianças, à vakinhas para custear velórios das vítimas que o Estado brasileiro assassina, todos os dias, nesse cenário que mata mais que países, em guerra.

Infelizmente, nos últimos dias, a Reaja precisou interromper uma ação contra a COVID19 e o isolamento social de algumas de suas lideranças, para ir às ruas denunciar mais um episódio de violência brutal do Estado brasileiro, que covardemente, assassinou mais um jovem negro. O líder Hamilton Borges escreveu sobre no seu blog, na Medium e eu tomei a liberdade – com autorização – de reproduzir, na íntegra, aqui. Ao conversar com Hamilton, seu pedido foi para que a gente ecoasse esse grito do nordeste, que todos os dias, enterra crianças, jovens e homens pretos, vítimas da polícia. Desde o caso, a Reaja exige uma audiência com o Coronel Anselmo Brandão, do comando da polícia baiana.

Leia e reflita, com Hamilton Borges, e depois a gente continua a conversa.


Saber chorar nossos mortos e enfrentar o tempo que nos faz confusos

Divulgação: Reaja ou será [email protected]

Por Hamilton Borges, liderança da Reaja ou será [email protected]

Cinco da manhã. Noite difícil, aquela dor que não pára, aqueles pensamentos tumultuando o sono. Passei a noite em claro, como a militância aguerrida e disciplinada da Reaja. Eles passaram mais de vinte e quatro horas acordados numa missão de solidariedade que não vai ser noticiada no plantão COVID-19, tampouco vai ser assunto das lives dos influencers.

Eu preciso destacar o nome dessa turma que foi até a Ilha de Itaparica, atravessando a Bahia de todos os santos de Ferry Boat, contratando um caminhão baú e viajando como guerrilheiros clandestinos, comandado por um pelotão destacado de mulheres que chamamos de comando vital.

Eles e elas pegaram das mãos de Neto — militante do MST do assentamento Marighella, em Ipiaú, distante 361 Km de Salvador — mais de uma tonelada de alimentos plantados e colhidos, para serem distribuídos nos núcleos da Reaja. Esse pessoal da Reaja recebe agora minha distinção, meu respeito e admiração pelo esforço sobre-humano em cumprir um dos princípios que espalhamos pelo meio da militância negra: ação cultural comunitária combinada com solidariedade e compromisso, sem alardes, sem se afastar de nossa gente.

Gil, Liu e Taynara, Diogo e Chagas, Daniel e Ailton, Ingrid, Silvana. Às vezes dizer o sobrenome só te deixa no radar do inimigo, por isso cito minha irmandade com a intimidade que me permite.

Seis horas. A dor não me larga, eu já convivo com ela enquanto limpo a cozinha e olho o celular. As mensagens das redes da Reaja indicam que realmente essa turma não dormiu, virou a noite preparando a distribuição de alimentos.

Eles continuam fazendo os pacotes para serem distribuídos em vilas, favelas e cadeias, eles compram e buscam flores, banners, já contataram a família de Micael, organizaram nossa chegada na quebrada. Tem tensão, tem cansaço, tem birra porque somos família e estamos juntos.

Eu lembro quando começamos esse esforço de lutar contra o genocídio, eu ficava setenta e duas horas acordado e exposto, subia e descia as favelas, fazia cartaz, ia em gráfica, ia pra cozinha e articulava com o Brasil nossa proteção. Essa militância da Reaja, opera, pilota essa nave com destreza, eu posso seguir aqui tentando combater as minhas dores.

Divulgação: Reaja ou está [email protected]

Dez horas. Acho que dormi depois que a dor entrou nos vãos infames do cetoprofeno, temo por meu estômago, deixo o hidróxido de alumínio separado, máscaras, álcool em gel, tênis de rua, calça e camisas cumpridas, pego minha bandeira, um pouco de amendoim e uma bolsa estilosa da marca do poeta Cocão da Cooperifa.

Tenho tido medo da rua nesses tempos. Perdi meu cunhado e vi minha irmã chorar seu amor sem poder se despedir. Ela olhou o seu corpo preparado para voltar a à massa original de onde saímos e não pôde falar nenhuma palavra de despedida. Eu vi meu sobrinho despedaçado.

Tenho pensado na morte, tenho andado de mãos dadas com a morte por todo esse tempo, enterrando jovens e crianças ceifados por agentes do Estado, lutando, gritando nas ruas, desafiando o poder com palavras e pedras de fogo, provocando os inimigos enormes como monstros que me veem sorrir quando eles acham que vão me fazer chorar. Mas esses tempos mórbidos em que se contam os mortos em rede nacional me assusta, me faz pensar nos meus entes queridos que quero abraçar, nos meus netos que quero falar porque fiquei distante, de nos meus ancestrais que quero encontrar sorrindo com meus rituais fúnebres em dias e com os cantos sagrados que forem de meu merecimento.

Meio dia. Comemos uma lasanha deliciosa, eu não me enquadro, coloco ketchup e sou emendado pela família. Tudo preparado para o ato em memória a Micael, melhor corrermos, ele só tinha onze anos e uma guarnição da polícia militar o atingiu com um tiro de fuzil, parece que não aconteceu nada, o silêncio dos movimentos sociais e das autoridades que protegem direitos é mais assustador que essas balas de fuzil que Rui Costa, governador da Bahia, deixar voar pelos lugares onde habitam pessoas negras ceifando vidas produtivas de homens, mulheres e crianças.

Quatorze horas. Várias pessoas ligam, perguntando sobre o local exato da manifestação. Combinamos de sair e levar as doações do assentamento Carlos Marighella/Teia dos Povos, para a unidade campo-cidade sem conversinha, com prática, com amor entre nós.

Quatorze e trinta. Saímos da Escola Winnie Madikizela Mandela, vários ubers, seguimos destemidos, eu estou mais calado, olho a militância e penso que quando tomamos as ruas pela primeira vez eles eram crianças, moravam em toda sorte de bairro ocupado e controlado pela violência institucional e pela violência do álcool, das drogas, do ódio racial que nos quer neutralizados. Alguns deles tinham a idade de Micael, viveram a fome, a privação e estão aqui ao nosso lado dispostos a enfrentar a polícia para proteger uma comunidade inteira, começando com a família de Micael.

Quinze horas. Chegamos no Nordeste de Amaralina, arrumamos as coisas, flores, roupa de capoeira, uniforme da escola e carrinhos de brinquedo de Micael. Quem me entrega é a mãe dele, ela usa máscara, mas não esconde a tristeza, ninguém naquele grupo esconde a tristeza, mas todo mundo compenetrado. Ocupamos as ruas que nos pertence, alguns ocupam as páginas virtuais de brancos, famosos, brancos de consciência pesada e uma mirada no lucro que essa fantasia antirracista pode resultar. Muitos querem se representar pela presença do outro que tem a humanidade plena no Brasil, os que pedem a presença do outro branco não são nossos inimigos, mas se mantém afastados de nós porque nós proclamamos nossa existência plena, mesmo quando saímos para a guerra para enfrentar o fracasso que acompanha nosso povo todo dia.

Dezesseis horas. Na praça, final de linha do Vale das Pedrinhas, local onde executaram o menino que queria ser pastor, enquanto seguimos com os preparativos, jovens com máscaras no queixo enchem a cara de álcool, fumam desesperados, riem de nada, se aglomeram ao redor de carros com sons nas alturas, dançam, rebolam enquanto a vida passa atropelando eles. Viaturas chegam para nos intimidar, muitas viaturas, eles saem e mostram seus fuzis, suas armas brilham, seus olhos anunciam sua ligação com o deserto de vida.

Doutora Andreia puxa uma palavra de ordem:

“Contra o genocídio do povo negro!”
E o povo responde com punhos cerrados, já roucos e furiosos:
“Nenhum passo atrás!”

Os policiais começam a nos filmar e a nos fotografar, eles não temem a presença da imprensa, afinal aqui não é Alphaville. Os os moradores os tratam como lixo. Ali é um território preto desconsiderado que deveria se assumir quilombo e romper com a dependência de partidos, candidatos e cabos eleitorais que não deram a mínima para a morte desse menino.

Perguntamos a todos, militância e moradores:

“Tem alguém com medo aqui?” Por três vezes, dirigimos nossas palavras com força aos policiais covardes do governo da Bahia.

Ali não tinha ninguém com medo, a Reaja aprendeu a enfrentar o medo e outras táticas de luta preta comunitária, para essa guerra de alta intensidade conforme falamos desde 2005, leiam nossos documentos.

Dezesseis e quarenta. Alguém identifica o policial que efetuou o disparo contra Micael. Ele está numa das viaturas que circulam a praça nos intimidando. É um desses negros claros que nos odeia e acham que podem amar os brancos como seu Deus na terra. É a personagem d’O livro preto de Ariel, mas aqui a realidade é mais dura, nem a literatura pensou nessa tragédia envolvendo uma criança.

Nordeste de Amaralina é o cenário desse romance publicado pela Editora Reaja, eu sabia que nasci com a morte e tenho super poderes, como me desviar de balas enquanto corro com a mão na nuca, mas nunca as pretas de minha casa me falaram em profecia.

Dezessete horas. Saímos por último, enquanto as viaturas vão seguindo um por um os carros que nos apoiam nessa jornada, missão cumprida, agora é dar continuidade às articulações políticas que visam desbaratar os grupos de extermínio e os esquadrões da morte que atuam em Salvador, ter uma audiência com o comando da policia para que expliquem a natureza daquela operação, cuidar para que a família siga protegida e seguir sendo como somos.

Os militantes da Reaja se retiram quase em silêncio, com postura, sem risos e sem pedir aplausos, pois eles e elas estão exaustos: eu percebo nos seus olhos quebrados. Ainda assim, se mantém firmes, em atenção. Mas eu percebo que eles choram e mal percebem os mortos que nos acompanharam desde o início. Incluindo Micael, que sorri ainda sem entender.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

André Barros

Vetos genocidas do Bolsonaro

Boaventura de Sousa Santos

A universidade pós-pandêmica

Juan Manuel P. Domínguez

“O lugar do artista é na luta”. Diálogos de quarentena com Rael

Renata Souza

Stonewall Inn.: orgulhar-se é transgredir

Cleidiana Ramos

O dia em que meu nariz me definiu como negra - notas sobre o racismo à brasileira

Jandira Feghali

Diga-me o que vetas...

afrolatinas

Contato com meu “Eu”

SOM.VC

RAP BR: Murica canta com sede de dignidade em novo álbum produzido por MK

Márcio Santilli

Sociedade civil se levanta contra Bolsonaro mesmo sob isolamento e penúria

André Barros

Operações racistas nas favelas

Colunista NINJA

O vírus e as trabalhadoras sexuais na Guaicurus, em Belo Horizonte

Juan Manuel P. Domínguez

"O DJ é um dos elementos pilares da cultura Hip Hop". Diálogos de quarentena com DJ Erick Jay

Randolfe Rodrigues

O Brasil que queremos no pós-pandemia

Jussara Basso

A cultura na periferia em tempos sombrios

Juan Manuel P. Domínguez

O demônio branco esteve infiltrado nos protestos pela morte de George Floyd