Desde que a situação de pandemia do novo COVID 19 foi declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a ONU já alertava para um previsível aumento da violência doméstica, nesse período, o que foi confirmado, em poucos dias após instaurada a quarentena, em vários lugares do mundo. Por esse motivo, a Organização também recomendou que declarar abrigos para vítimas de violência de gênero como serviços essenciais, além de aumentar o investimento em serviços online e organizações da sociedade civil que atuem no assunto.

Por aqui, não seria diferente, tendo em vista que o país ocupa o 5º lugar no ranking de crimes contra mulheres.

No Brasil, os registros de denúncias pelo Ligue 180 cresceram 17%,  segundo as últimas previsões da ONU Mulheres, Ministérios da Mulher, Família e Direitos Humanos, e é sempre preocupante saber que as denúncias efetuadas não representam um terço da realidade violenta a que mulheres estão expostas. Todas essas dinâmicas de crimes são agravadas quando se observa as condições de mulheres negras.

O Atlas da Violência de 2019, por exemplo, denuncia que 13 mulheres são assassinadas por dia, e a maioria, é negra. Escancara o ódio racial como impulsionador e agravante desse atentados. Reflexo de uma sociedade fundamentada por ideais racistas e sexista, que produz relações de dominação e subordinação, a partir da desumanização de mulheres negras.

Um país que tem muito o que fazer, em relação a isso, mas, direciono minha pergunta a nós, homens negros, já que não devemos esperar respostas e soluções de quem gera todos os nossos problemas, o Estado.

Pergunto: qual o nosso papel nessa luta? O que temos feito para reduzir os números de violências contra mulheres negras, agentes essenciais da luta contra o racismo?

Tenho provocado que, para uma estrutura social elaborada pelo (e para) o patriarcado, homens negros são considerados ameaças – isso explica o fato de, constantemente o poder bélico do Estado estar voltado para nossos corpos, exterminando nossos jovens a cada 13 minutos. Entretanto, ainda que alvos marcados desse projeto, a imposição de uma forma de masculinidade hegemônica, condiciona muitos de nós à performance de masculino elaborada a partir da violência, que para alcançar uma brancura inatingível, vai desembocar na reprodução de uma série de violências de gêneros. Em nome da busca por um lugar inexistência na mesa do patriarcado, alguns de nós incidem violentamente contra mulheres negras, e isso precisa ser problematizado, dentro de nossas comunidades, a fim de compreender a raiz dessas ações, para assim, exterminá-las.

A luta contra o racismo se dá pela eliminação de toda expressão e ação de violência contra corpos pretos, logo deve se ater, também, à garantia de vida das mulheres negras, para que nenhum espaço social as violentem. Essa consciência é o que pode  tornar nossas casas e comunidades seguras, livres do machismo, misoginia e todas as outras violências elaboradas pelo ocidente, para sustentar o patriarcado, que nos mata.

Com isso, quero dizer que, também é parte da nossa reflexão compreender os lugares estabelecidos, para romper com as dinâmicas de reprodução de violências, como ação de responsabilidade comunitária.

Essa não é uma discussão nova, pois importantes líderes da nossa história já anunciavam, por outras elaborações que erradicar a cultura de opressão contra mulheres é um urgente caminho para nossa liberdade,

No discurso “A liberação da mulher, uma exigência para o futuro”, Thomas Sankara (1949 – 1987), um dos mais importantes líderes políticos africanos, pan-africanista e marxista, provocou: “… Por enquanto, devemos reconhecer que o comportamento masculino, tão carregado de vaidade, irresponsabilidade, arrogância e violência de todos os tipos em relação às mulheres, é incompatível com uma ação coordenada contra sua opressão. E as atitudes que denotam a estupidez, porque nada mais são que relevos de homens oprimidos que, com o tratamento brutal de sua esposa, tentam recuperar por si mesmos a humanidade que o sistema de exploração lhes nega…”.

Malcolm X, teve o importante apoio  de mulheres negras para forjar sua luta. Além de sua esposa, Doutora Betty Shabazz, mulheres como  escritora Maya Angelou e a cantora Abbey Lincoln, foram essenciais, em sua vida. Maya o apresentou  a grandes líderes panafricanistas, entre eles Kwame Nkrumah, enquanto Abbey trabalhou com Malcolm na Organização da Unidade Afro-Americana, como programadora cultural.  A educadora e estudiosa,Tati Nefertari, apresenta algumas dessas relações no prefácio do livro “Faça a coisa certa – falas e discursos de Malcolm X” (Editora Ananse, 2020).

Compreender-se homem preto consciente, em uma sociedade racista não pode estar dissociado da ideia de fortalecimento, não só da luta pelos direitos das mulheres, como também da atuação contra as violências que recaem sobre elas. Se toda elaboração do patriarcado não nos contempla – e sequer pode ser espelho para construção de nossas humanidades -, pelo contrário, é nosso papel trabalhar para sua destruição. Talvez, essa seja uma das formas mais eficientes de combater os terríveis números de violências domésticas, resultados de um projeto de masculinidade amparada na dominação e subordinação, produtora de ódio e antagônica a ideia saudável de amor para coexistência.

E dá para falar de amor, nessa conversa?

Aproveito para pensar caminhos de reflexão, porque penso que a reconstrução de nossas relações passa pela reelaboração de nossas subjetividades. Nesse sentido, gosto dos apontamentos necessários, sobre a construção da identidade masculina, feitos por bell hooks,  no livro “All about love” (2000). Destaco: “Masculinidade patriarcal requer de meninos e homens, não apenas que eles se vejam como mais poderosos e superiores às mulheres, mas também que eles façam o que for preciso para manter sua posição de controle”.  E, ainda nessa perspectiva,  pautando o afeto, diz: “Uma suposição comumente aceita numa cultura patriarcal é que o amor pode ser presente numa situação onde um grupo ou indivíduo domina o outro”. E neste campo, observa: “Todos os pensadores visionários masculinos que desafiam a dominação masculina insistem  que os homens podem retornar para o amor apenas repudiando a vontade de dominar”.

Esse é um diálogo para sobre as urgências de enfrentamento das violências, trazendo homens pretos com consciência para o debate de gênero. Nos convoca a fazê-lo através do afeto e lembra sempre da responsabilidade pelas transformações que precisamos fazer, em nossa comunidade, também para subverter a ordem que nos determina ódio e auto-ódio como regra.  Então, que façamos das relações mais fraternas, os cuidados coletivos, e potencializamos nossas existências. Não podemos mais perder tempo. As vidas das mulheres negras são prioridades para homens negros; a vida de homens negros devem ser para mulheres negras. Ser povo antirracista  é priorizarmos, como um todo, considerando todos os complexos atravessamentos de nossas relações, provocados pelo racismo anti-negro.

Nos mobilizemos!

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