Por Jéssica Marcelino

Nesse ano de 2025, a espera pelo famigerado tapete vermelho está tirando o sono de muitos brasileiros e elevando os ânimos a temperaturas elevadíssimas. Eis que a tão aguardada cerimônia do Oscar contará com a presença da atriz brasileira Fernanda Torres, que vem fazendo história com sua atuação no longa ‘Ainda Estou Aqui’, do diretor Walter Salles. As apostas são altas para o prêmio de Melhor Atriz e de Melhor Filme Estrangeiro. 

O filme tem ganhado visibilidade em vários países, inclusive nos Estados Unidos, que parecem abrir as portas para o cinema brasileiro –  a bilheteria já ultrapassa os 4 milhões de dólares por lá. Pelo menos, é a sensação que está se fazendo reverberar nessas almas, já com clima de Copa, prontas a comemorar um prêmio histórico no mundo do cinema e dos cinéfilos.

Já situados, falemos de cinema! E falemos do nosso cinema brasileiro. Às vésperas da cerimônia, e com ‘Ainda Estou Aqui’ em cartaz em diversas salas de cinema do Brasil e além, aconteceu uma sessão do filme ‘Feliz Ano Velho’, no Museu Lasar Segall. A sessão, seguida de debate, aconteceu em 1° de fevereiro e contou com a participação especial de seu diretor e produtor Roberto Gervitz, além da presença da cineasta Lina Chamie. O filme foi baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva que leva o mesmo título e contou com grandes nomes em seu elenco, como Marcos Breda, Eva Wilma, Marco Nanini e Malu Mader. 

Trata-se de uma autobiografia de Marcelo com narração de passagens do início de sua vida adulta com o ingresso na faculdade, seus amores e amizades, bem como do acidente que fez com que ele perdesse o movimento de seus braços e pernas. Marcelo bateu a cabeça numa pedra ao saltar em um lago raso, nas proximidades da Rodovia dos Bandeirantes. Na época, ele tinha vinte anos e estava no terceiro ano do curso de engenharia agrícola. 

O livro foi publicado na década de 1980 e fez bastante sucesso, em especial entre os jovens. Além do acidente, a narrativa traz importantes passagens relacionadas ao desaparecimento de seu pai, o deputado Rubens Beyrodt Paiva, assassinado durante a ditadura militar.

Os atores Carlos Loffler e Marcos Breda em cena do filme ‘Feliz Ano Velho’ (1987) / Foto: Divulgação

Seja através das telas de cinema, seja do ponto de vista literário, ‘Feliz Ano Velho’ consiste num desdobramento inverso da obra ‘Ainda Estou Aqui’, haja vista que a antecede em quase três décadas e permite avançar um pouco mais nas reflexões internas do personagem da vida real. O próprio autor Marcelo Paiva, que podemos chamar de filho da ditadura, pois, desde muito cedo, teve de conviver com os traumas provenientes de um regime antidemocrático.

É o que foi possível depreender, após a sessão de ‘Feliz Ano Velho’, por meio do debate com o diretor do filme, Roberto Gervitz, que compartilhou com o público sua experiência pessoal no desenrolar da direção de seu trabalho. Gervitz conta, inclusive, que, à época dos trabalhos, ele passava por uma experiência pessoal terapêutica. 

Tal roteiro nos permite traçar uma linha de reconstrução subjetiva do personagem Mário, que teve sua vida cindida após seu acidente que sucedeu o desaparecimento de seu pai, brutalmente assassinado pelos militares. Ali, assistimos às implicações de tais acontecimentos na vida do personagem Mário e os limites do possível de se fazer com o que lhe restou daquela vida que mal teve início: um amor perdido, o sonho da banda de rock e a convivência com os melhores amigos que agora só podem guiá-lo através de sua cadeira de rodas.

Afinal, como se já não bastasse a perda sofrida na infância, retratada em ‘Ainda Estou Aqui’ – que obrigou a família Paiva a se mudar do Rio de Janeiro para São Paulo, deixando para trás amigos e fortes lembranças paternas e familiares -, como administrar agora a perda de amigos, amores, hobbies, desejos profissionais e a perda de movimentos de seu próprio corpo?

No filme, podemos nos deparar com o processo interno de Mário a partir do que lhe é apresentado pelo amigo pintor e artista, personagem de Marco Nanini, cuja proposta é a de reconstruir suas lembranças e traçar um caminho a partir de um quadro em branco que ele coloca diante de sua cama.

Diante de acuradas pontuações técnicas e sociopolíticas da mediadora Lina Chamie e de Roberto Gervitz, podemos dizer que o filme ‘Feliz Ano Velho’ é uma viagem que logrou êxito em todos os sentidos pretendidos pelo diretor. Com muita delicadeza e perspicácia, mostrou, a partir da morte simbólica de um sujeito que não mais pode movimentar braços e pernas, como ele elabora trágicos acontecimentos. Sua cadeira de rodas e sua cama passam a ser seu habitat e, ao mesmo tempo, seu divã. Caminha, caminha, a partir de um espaço em branco, permanece em “movimento” até que se reconstitui na escrita: eis que não se chama mais Mário Paiva e sim Mário “Rodas”.

As obras de Marcelo Rubens Paiva 

Os brasileiros têm tomado conhecimento das obras de Marcelo Rubens Paiva mediante o glorioso sucesso que o filme ‘Ainda Estou Aqui’ tem recebido e merecido. As obras literárias ‘Ainda Estou aqui’ e ‘Feliz Ano Velho’, inclusive, ganharam novas edições e estão entre os mais vendidos. 

Obra de relevância histórica, ‘Ainda Estou Aqui’ tem sido incluída como indicação de leitura nas escolas brasileiras. Marcelo, além de escritor, é jornalista e dramaturgo. É autor de outros livros como: Blecaute (1986), Ua brari (1990), Bala na Agulha (1992), As Fêmeas (1994), Não És Tu, Brasil (1996), Malu de Bicicleta (2002), O Homem que Conhecia as Mulheres (2006), A Segunda Vez que Te Conheci (2008), Marcelo Rubens Paiva – Crônicas para Ler na Escola (2011), 1 drible, 2 dribles, 3 dribles: manual do pequeno craque cidadão (2014), Meninos em Fúria (2016), O Orangotango Marxista (2018), O Homem Ridículo (2019) e Do Começo ao Fim (2022). Sobre suas peças, são elas: 525 Linhas (1989), Da Boca pra Fora, E Aí, Comeu? (1998), Mais-que-Imperfeito (2001), Closet Show (2003), As Mentiras que os Homens Contam (2003), No Retrovisor (2003), Amo-te (2006), A Noite Mais Fria do Ano (2011), O Predador Entra na Sala (2012), C’est La Vie (2014) e Amores Urbanos (2016). São também de sua autoria os roteiros de cinema: Fiel (2012), E Aí… Comeu? (2012) – como colaborador, Malu de Bicicleta (2013), Depois de Tudo (2015), Mais Forte que o Mundo (2016) e Ainda Estou Aqui (2024) – como colaborador.

Algumas edições de Feliz Ano Velho, do autor Marcelo Rubens Paiva / Foto: Divulgação

Curiosidades: o Museu Lasar Segall e sua relação com o filme ‘Feliz Ano Velho’

Aqui, literatura e sétima arte parecem andar de mãos dadas. Os testes de elenco do filme ‘Feliz Ano Velho’ foram realizados no Museu Lasar Segall na década de 1980. A casa do artista Lasar Segall abriga hoje o Museu Lasar Segall, na Rua Berta, na Vila Mariana, na capital paulista. O museu conta com grande parte de seu acervo e com uma sala de cinema em funcionamento desde 1973. Além do mais, há uma curiosidade interessante: seu filho, Maurício Segall, e Fernando Torres, pai da atriz Fernanda Torres, foram sócios no Teatro São Pedro, o segundo mais antigo da capital, onde montaram a São Pedro Produções Artísticas. 

Em 1968, Maurício Segall, sua esposa, a atriz Beatriz Segall, e Fernando Torres arrendaram o teatro que foi palco de peças que se posicionaram contra a ditadura militar. Quase dois anos depois, Maurício foi preso e torturado por envolvimento com organizações de esquerda nas mesmas condições que o deputado Rubens Paiva. Em 1971, Fernando Torres encerra a parceria e se muda para o Rio de Janeiro com sua então esposa, Fernanda Montenegro, e filhos, Fernanda e Cláudio Torres. 

Lasar Segall foi pintor, gravador, escultor e desenhista. Nasceu em 1889, na cidade de Vilna, na Lituânia. Judeu e expatriado, foi obrigado a deixar sua terra natal em busca de melhores condições de vida. Radicou-se na Alemanha, em Dresden e em diversos lugares até se fixar definitivamente no Brasil e aderir à arte de vanguarda. Teve muitas de suas obras confiscadas pelo regime nazista, consideradas arte degenerada. O artista faleceu na cidade de São Paulo, em 1957, aos 68 anos, e se manteve fiel aos seus ideais estéticos até o final de sua vida, tendo sido reconhecido como um dos grandes nomes da arte moderna brasileira.

A cineasta Lina Chamie e o diretor e roteirista de Feliz Ano Velho, Roberto Gervitz em debate no Cine Segall / Foto: Jéssica Marcelino

Vemos aqui o entrelaçamento da sétima arte com a literatura: uma não existindo sem a outra. Está aí a importância do cinema brasileiro! São gerações assistindo à emocionante história de ‘Ainda Estou aqui’: história que é a história de muitos brasileiros, é a história de todos nós em tempos políticos tão difíceis. A cultura está presente nesse cenário caótico e tem o condão de tocar o coração de gerações. E assim o tem feito! O filme coloca nossa história na pauta do dia, eleva o cinema brasileiro à sua dignidade, pois, tão mais valioso do que conquistar um prêmio, é o reconhecimento de nossa história através da arte.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.