Março encerra o capítulo mais ardente e tempestuoso de toda a história dos verões cariocas. O período se destacou pelo recorde de sensação térmica, atingido no dia 17, de 62,3°C, registrada na estação meteorológica de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Foi a sensação térmica mais alta documentada desde 2014, ano em que se iniciaram as medições. Além do calor extremo, o Rio tem enfrentado temporais cada vez mais violentos, com um índice elevado de relâmpagos, no país campeão em incidência de raios. Esses fenômenos exigem tanto um olhar para o clima global, reagente à poluição e à destruição ambiental desenfreadas, e como para as suas consequências no âmbito local, com a compreensão de que os efeitos dos desastres se dão de modo bastante seletivo. Pessoas negras e pobres são as atingidas em maior número e mais gravemente pelo calor e pelas inundações,  deslizamentos de encostas e desabamentos. Trata-se dos trágicos impactos do racismo ambiental, cuja responsabilidade não deve ser creditada à natureza, mas à minoria humana que explora e vulnerabiliza a maioria em nome do lucro.

Neste março participamos, por sinal, da campanha dos “21 dias de ativismo contra o racismo”. Houve ciclos de debates e palestras, exposições e oficinas, com o engajamento de diferentes públicos da luta antirracista. A campanha coincidiu com um período em que o Rio se viu confrontado com casos emblemáticos do enraizamento social do racismo. Em especial, causou imensa revolta a recente absolvição, dez anos após o crime, dos seis policiais militares acusados de matar e arrastar o corpo da auxiliar de serviços gerais Cláudia Silva Ferreira, preso a uma viatura, por 300 metros, durante operação no Morro do Congonha, em Madureira, na Zona Norte. Mulher negra e mãe, Cláudia havia saído de casa para comprar pão. O desfecho do caso demonstra o quanto, apesar de haver conquistas a celebrar, ainda há muita luta pela frente para a derrota e a superação do racismo estrutural. Além de um chamamento à luta, esses 21 dias permitiram momentos de reflexão coletiva sobre estratégias de combate ao racismo nas suas diversas formas e sobre o compromisso da conquista de um Rio de Janeiro antirracista, inclusivo e acolhedor para todas as pessoas, onde haja justiça e igualdade de direitos.

A memória e o legado político de Marielle Franco foram celebrados no #14M. A data se tornou um marco de luto, mas também de luta das mulheres no Brasil e no mundo contra as opressões de raça, gênero, classe e território. Celebrar a coragem daqueles que lutam renova o nosso compromisso com a conquista de uma sociedade igualitária. Neste março, fez seis anos desde a execução da vereadora e do seu motorista Anderson, sem que os mandantes desse feminicídio político tenham sido até agora conhecidos e responsabilizados. Marielle continua, contudo, a inspirar e a guiar os nossos esforços na luta por uma sociedade na qual as vozes da população negra, das mulheres, das mães e da juventude sejam ouvidas e respeitadas. Marielle simboliza a luta contra a violência e a opressão e representa a esperança de um futuro onde a diversidade seja respeitada.

Este é mais um março encharcado com o suor, as lágrimas e o sangue dos nossos corpos negros, mas, também banhado de fé, afeto e esperança na nossa força coletiva para a conquista de dias melhores. A luta não pode parar, mas precisa ser nutrida pela solidariedade que fortalece a nossa resiliência e determinação em prosseguir nesse movimento coletivo rumo às transformações pelas quais tanto ansiamos. Que março nos deixe não apenas com reflexões, mas nos inspire a realizar as ações concretas que vão tornar realidade os nossos sonhos.

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