“A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago”. Esta é uma frase emblemática e escrita por uma das mais consagradas escritoras do nosso país. Foi Carolina Maria de Jesus, mulher negra, favelada, mãe, escritora, catadora, compositora e poetisa brasileira, nascida em Minas Gerais, que deixou as suas experiências de vida descritas em livros para termos contato com a realidade da época, mas também para nos sentirmos incomodados e assim lutarmos para que ninguém mais sinta “tontura de fome”.

Infelizmente, o nosso país neste ano de 2021 voltou ao mapa da fome num momento em que vivenciamos inúmeras consequências do agravamento da crise econômica em meio a uma pandemia. O ano ainda não terminou e já houve mais de 600 mil mortes pela Covid-19; o desemprego aumentou; a água do Rio de Janeiro foi privatizada; além de muitas outras violências, violações de direitos e desesperanças. A retirada de direitos impacta as mesmas famílias, populações negras, indígenas e pobres, as mesmas identificadas por por Carolina Maria de Jesus em sua época.

Neste exato momento, famílias e mais famílias sentem a dor do vazio no estômago, a tontura da fome. Dados do grupo de pesquisa “Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia”, com sede na Freie Universität Berlin, na Alemanha, apontam que 125,6 milhões de brasileiros sofreram com insegurança alimentar durante a pandemia. O número equivale a 59,3% da população do país e se baseia em pesquisa realizada entre agosto e dezembro de 2020.

Assim que a pandemia foi decretada, em março de 2020, as populações negras, indígenas e pobres já sabiam que seriam as mais afetadas. Afinal, são estes territórios que sobrevivem há mais de um século sem água, saneamento, direito à habitação e tantos outros problemas diários das populações mais vulnerabilizadas.

É uma demonstração de crueldade, num momento crítico como esse, cessar um programa como o Bolsa Família, programa de transferência de renda considerado modelo no mundo, em curso desde 2003, sem antes apontar, estruturalmente, o seu substituto. Bolsonaro promove um governo de morte: ou mata de Covid, ou de tiro ou de fome!

Precisamos mudar a realidade da fome. Carolina não deveria ter sentido a tontura da fome, as famílias negras e faveladas de hoje também não. Quem promove a fome não poderia determinar as regras e nem comandar as nossas vidas!

Na Alerj, presido a Comissão Especial de Enfrentamento à Miséria e a Pobreza Extrema, que articula dois eixos fundamentais de formulação: políticas emergenciais para combate à fome e políticas estruturantes de soberania alimentar. A soberania alimentar envolve mecanismos de produção e distribuição de alimentos nutritivos e sustentáveis com autonomia. Seguimos lutando por políticas públicas que tenham as populações negras, indígenas, pobres e faveladas como prioridade, como a nossa proposta de renda básica fluminense.

Carolina escreveu em um dos seus livros que “o maior espetáculo do pobre da atualidade é comer”. A maior tragédia que podemos vivenciar é justamente o direito à alimentação como espetáculo. Que as nossas famílias negras e pobres possam voltar a comer e que seja a comida o nosso maior direito, não mais um espetáculo da sociedade de mercado: queremos viver e temos pressa!

Fora Bolsonaro!

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