Melinda Gates. Foto: Divulgação

Como podemos convocar um momento de elevação para os seres humanos – e especialmente para as mulheres? Porque quando você eleva as mulheres, você eleva a humanidade.

E como podemos criar um momento de elevação nos corações humanos de modo que todos queiramos elevar as mulheres? Porque às vezes tudo o que é necessário para levantar as mulheres é parar de puxá-las para baixo”.

Tradução própria de The Moment of Lift: How Empowering Women

Changes the World, livro de Melinda Gates

Melinda e Bill Gates anunciaram recentemente o divórcio. Separações fazem parte da vida, mas até quando formadores de opinião, imprensa, influenciadores, produtores de conteúdo continuarão a perpetuar a máxima do “por trás de um grande homem existe uma grande mulher”? Até quando detalhes da vulnerabilidade feminina e de uma família desfeita, associada à partilha de 146 bilhões de dólares, a informações biográficas de exaltação masculina (desde aspectos relacionados à sexualidade e profissional) levam o mundo para a frente, em diversos sentidos? As distrações promovidas neste tipo de abordagem são propositais para desviar-nos de algo mais fundamental: até mesmo uma norte-americana branca, com carreiras acadêmica e empresarial brilhantes, sofrem ainda hoje as marcas do patriarcado. São séculos de exclusão deliberada de histórias de mulheres em tecnologia, biografias apagadas ou minimizadas.

Melinda French Gates foi mais que uma esposa, uma filantropa, mãe. Formada como Cientista da Computação e Economista na Duke University (onde também cursou MBA em Negócios), é a quinta mulher mais poderosa do mundo e a segunda nos EUA, atrás da vice-presidente Kamala Harris, de acordo com a Forbes (lista The World’s 100 Most Powerful Women). Em 2016, o presidente Obama condecorou-a com a Medalha da Liberdade, principal honraria civil dos Estados Unidos. Bill Gates abandonou a Universidade de Harvard para fundar a Microsoft nos anos 70.

Inconformada com a cobertura nacional e internacional, em função da importância para a história das mulheres em tecnologia de Melinda French Gates, a destacar possíveis detalhes sórdidos da vida pessoal do empresário e também filantropo (inclusive assédio moral e sexual de funcionárias na Microsoft), realizei uma busca sobre ela pela Web para analisar como ao longo dos anos tem sido apresentada ao público. A maioria dos vídeos que encontrei a associava ao marido, inclusive, com a temática: “o dia em que Melinda conheceu Bill”. Não! O dia em que Bill conheceu Melinda! Certamente, Melinda foi fundamental para a potência de hardware e software que a empresa se tornou no planeta. A partir do trabalho social de impacto mundial, de seu engajamento em torno da causa mulheres em tecnologia e do lançamento de seu livro, a executiva fez sua estrela brilhar e se destacar, enquanto a de seu marido parecia reduzida em virtude de uma eminente aposentadoria. Mas quem foi Melinda French Gates?

Nascida Melinda Anne French em 1964, cresceu no Texas. Seu pai foi um dos engenheiros espaciais que trabalhou na missão Apollo, enquanto sua mãe foi dona de casa. Aos 14 anos ganhou dos pais um Apple II, um dos primeiros computadores pessoais a serem lançados. Melinda iniciou estudos de programação computacional e de games. Anos depois ela se formou e realizou um mestrado em Ciência da Computação na Duke University.

Já formada, foi convidada para trabalhar na IBM – sonho de muitos cientistas da computação – e optou por ingressar em uma pequena empresa de software chamada Microsoft em 1987. A cientista foi a pessoa mais jovem na empresa a ser contratada e única mulher dos dez novos funcionários com formação em negócios. Como Gerente de Marketing e desenvolvedora de produtos tecnológicos assinou o lançamento de programas que você certamente já ouviu falar: Microsoft Cinemania, Publisher, Encarta, Word e Expedia.com. Promovida à Gerente Geral, deixou a posição em 1996, para focar nos três filhos, família construída com o marido Bill.

Uma viagem do casal Gates à África, em 1993, despertou o desejo de se tornarem filantropos e a Fundação Gates foi lançada. Em 1994 casaram, após 7 anos de namoro e permaneceram juntos por 27 anos. Em 2006, o investidor Warren Buffett concordou em doar 80% de sua fortuna de bilhões de dólares para a Fundação Gates. Na ocasião declarou à revista Fortune que Bill é “muito inteligente, obviamente … mas em termos de ver o quadro completo, Melinda é mais inteligente”.

Em palestra no Grace Hopper Celebration, principal evento sobre mulheres em tecnologia no mundo, em 2017, Melinda French Gates usou sua experiência em programação para abordar problemas de como as mulheres são atualmente conduzidas a uma carreira em tecnologia e como melhoras a inclusão feminina em TI. Traduzi e reproduzo parte do conteúdo deste discurso, publicado no site do CNBC.

“No momento, muitos esforços de diversidade se concentram em mulheres entrando no chamado ‘pipeline’, mas esse pipeline não está produzindo mais do que um gotejamento e existe um monte de condicionais embutidos, muitas declarações ‘se-então’”, disse Melinda French Gates. Ela enfatizou como as mulheres estão sujeitas a uma quantidade absurda de restrições que não lhes permitem entrar com sucesso no mundo da tecnologia. Comparou essas restrições a um termo da linguagem de programação JavaScript denominado “declarações condicionais”, que se parecem com isto quando codificadas:

Os exemplos que Melinda French Gates deu sobre as condições na vida das mulheres incluem:

  • Se você fizer com que as meninas tenham as aulas certas de ciência da computação e matemática no ensino médio, elas terão sucesso nas aulas de ciência da computação na faculdade.
  • Se passarem na introdução, começarão seus cursos do segundo ano no prazo e se formarão em quatro anos.
  • Se fizerem isso, podem conseguir seu emprego no Vale do Silício.

Contudo, a cientista apontou que “nem todo mundo vai atender a essas condições e muitos não querem e não há razão para isso em primeiro lugar.” Propôs que a sociedade, em vez disso, partisse da “premissa de que as pessoas se interessam pela computação de maneiras diferentes, em momentos diferentes de suas vidas e por razões muito diferentes”.

“Ou, em termos de codificação, por que não parar de tentar fazer com que as meninas atendam às condições necessárias para cada declaração ‘se-então’ predeterminada e por que não começar a escrever uma série de loops for”, disse Gates, introduzindo mais um JavaScript prazo.

Os loops for do JavaScript se repetem essencialmente através de um determinado bloco de código um determinado número de vezes. Aqui está o exemplo de linha de código que Gates compartilhou durante sua apresentação:

Estas são as quatro etapas que Gates disse que gostaria de ver implementadas com mulheres:

*Alcance-os cedo
Para as meninas que estão crescendo, deve-se criar muitos caminhos para explorar a tecnologia dentro e fora da sala de aula.

*Tecnologia como ferramenta
Para as mulheres que já estão na faculdade, vamos deixar claro que a tecnologia é uma ferramenta para resolver problemas do mundo real.

*Combine computação
Para as mulheres que já estão se formando em alguma outra área, vamos oferecer programas que combinem computação com o resto de seus cursos e levem a diplomas em coisas como bioinformática.

*Não apenas quatro anos
Para mulheres que descobrem sua paixão por tecnologia em momentos e lugares diferentes, devemos abrir mais caminhos para o campo.

Pretendo com este artigo dar visibilidade a um modelo feminino em TI, mundialmente famoso, como exemplo do quanto é necessário ainda lutarmos por empoderamento e inclusão de mulheres em tecnologia, apesar de tantas personalidades incríveis no segmento atuais e do passado. Estamos exaustas em pandemia, mas é nossa vida, estamos contando nossas histórias, ocupando espaços tomados com violência.

Para ler: O momento de voar, de Melinda Gates.

Recomendo que leia:

O momento de voar – Como o empoderamento feminino muda o mundo (Melinda Gates)

Recomendo que assista:

O Próximo convidado dispensa apresentações com David Letterman (Netflix, temporada 2, 2019, entrevista com Melinda Gates)

Fontes de apuração para esta matéria:

https://www.cnbc.com/2017/12/06/how-melinda-gates-used-computer-science-to-help-solve-this-tech-issue.html

https://www.businessinsider.com/life-of-melinda-gates-2016-3#shortly-after-graduation-gates-was-recruited-by-microsoft-just-after-the-company-went-public-and-its-stock-began-to-soar-during-her-time-at-the-company-she-served-as-project-manager-of-microsoft-bob-microsoft-encarta-and-expedia-7

https://www.womenshistory.org/education-resources/biographies/melinda-gates

https://www.forbes.com/profile/melinda-gates/?sh=66352a7a7c2b#7f8650a37c2b

 

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Márcio Santilli

Guerras e polarização política bloqueiam avanços na conferência do clima

Colunista NINJA

Vitória de Milei: é preciso compor uma nova canção

Márcio Santilli

Ponto de não retorno

Márcio Santilli

‘Caminho do meio’ para a demarcação de Terras Indígenas

Jade Beatriz

A luta pela revogação do novo ensino médio: Um compromisso com a educação de qualidade no Brasil

Dríade Aguiar

Coma chocolate e assista 'Wonka' da mesma forma: sem culpa

NINJA

Estudo revela ameaças climáticas nas favelas da Maré até 2050

Campanha em Defesa do Cerrado

Com aprovação do PL do Veneno, bancada ruralista acelera Eco-Genocídio do Cerrado e seus povos

Bancada Feminista do PSOL

Mulheres Negras e a privatização da SABESP

Renata Souza

Dia da Favela: comemorar a resistência

Mônica Francisco

A discussão sobre o racismo estrutural não pode ficar restrita a três meses

Márcio Santilli

Maduro ameaça Guiana e abre conflito na fronteira com o Brasil

Design Ativista

Imaginar futuros é um ato revolucionário

Colunista NINJA

Males do privatismo

Design Ativista

As urgências do mundo retratadas por mulheres na Bienal de São Paulo