Eu sou cria da cultura da pureza.

Violentam nossa mente com a mentira da pureza e depois abusam de nossos corpos usando sobre nós o poder da autoridade divina. Disseram que não poderíamos transar, não poderíamos nos masturbar, pediram para que escondêssemos nossos corpos  e nos enfiaram goela abaixo a história de uma virgem que deu a luz ao homem Deus. Colocaram nossos homens em altares e julgaram nosso caráter através dele. Qual mulher seria digna, como Maria, para receber o espírito santo de Deus? Nos colocaram umas contra as outras, numa competição desleal e colocaram medo em nós, mas depois, no silêncio, abusaram de nós, jogaram com a nossa pureza e ingenuidade, nos hipersexualizaram, nos importunaram e blasfemaram contra Deus em cima de nossos corpos sob a justificativa que somos servas do desejo masculino.

Vão nos vender a ideia da virgem Maria mas vão nos fazer descobrir a sexualidade violando nossos corpos – simbolicamente e literalmente. É assim que opera o cristianismo eurocêntrico que nos formou, estuprou a terra em que vivemos e que pauta as instituições religiosas de que fazemos parte.

Normalizaram todo o tipo de violência contra nós só não normalizaram uma mulher dona de seus desejos. Essa é demonizada, é sabido. As que empreendem fuga conhecemos como bruxas, que antes queimadas em fogueiras físicas, são jogadas, ainda no século XXI, em fogueiras simbólicas. São elas que têm denunciado as violações com seus corpos e com os corpos de suas irmãs, que tem criado emancipação e liberdade divina através do corpo que sangra, que sente, que deseja, que goza e que não se curva ao altar de vaginas intocáveis.

E isso é sobre o natal! Esse é o natal das mulheres.

Não apenas sobre o menino que nasceu, mas sobre um Deus que se fazendo humano, saiu da buceta de uma mulher jovem e virgem. Foi gestado no corpo de uma mulher, templo sagrado de morada do filho de Deus. Jesus veio ao mundo profanando, descumprindo a lei – uma mulher que engravidasse antes do casamento poderia ser levada à morte, segundo as leis que regiam aquele povo e por isso que, ainda, comemoro o natal:  porque as mulheres que antes foram privadas de ser imagem e semelhança de um Deus do imaginário masculino e tiveram que se tornar imagem e semelhança da virgem, cansaram da passividade da pureza e gozaram da alegria de servir a um Deus que também é mulher.

Eu não acredito na virgindade, sou uma ovelha desgarrada da cultura da pureza. Profano por aí pregando prazer, gozo e vida em abundância para minhas irmãs. E faço isso porque não acredito que meu Deus seria tão cruel com as mulheres assim.

A ideia da virgem é cruel porque ela só serve para algumas de nós – para o corpo feminino branco – enquanto outras corpas são violadas e levadas à morte. É cruel porque nos adoece e rifa parte importante da revolução que Cristo fez, priva de conhecermos a verdade sobre nós, e sobre as nossas – e consequentemente do “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” –  priva que o que está oculto seja descoberto e silencia a voz profética de Deus porque silencia corpos importantes para os caminhos de libertação – a narrativa bíblica é pautada por mulheres que insubmissas a ideia da pureza romperam o silêncio e abriram o caminho para que Jesus fosse possível.

Nesse Natal quero nos lembrar da virgem para que jamais nos curvemos a ela. Quero trazer à memória a mulher que crendo num Deus, que não viola corpos, deu a ela o poder de decidir receber o espírito em seu corpo, gestar, parir e criar Jesus e que provou que não precisamos das leis – da pureza, do casamento, da virgindade, da honra – para que carreguemos o espírito santo de Deus em nós. Lembrar que o Natal é sobre isso: a sacralidade poderosa de mulheres que decidem sobre seus corpos dão a luz ao que transforma o curso da história.

Não mais expostas a moral da virgem e submetidas a estupros simbólicos e literais, em nome de Deus. Isso não aceitaremos mais porque Deus não se fez carne a partir de um estupro.

O menino nasceu para quebrar o jugo, romper as cadeias e libertar os corpos. O Cristo se fez carne, para que as mulheres gozassem da mensagem insubmissa e sagrada da liberdade.

É Natal, o menino nasceu de um corpo profano que antes “virgem”, carregou e pariu o filho de Deus, prova viva  para que mais nenhuma mulher precisasse se curvar ao Deus hímen e pudesse deixar fluir dentro de si rios de água viva.

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