Lembro-me bem quando a Pra. Lusmarina Campos, na audiência pública do STF, disse a frase que intitula esse texto. Na ocasião estávamos em Brasília, no acampamento “Nem Presa, Nem Morta”, acompanhadas de muitas outras mulheres, e estava em pauta a ADPF 442 sobre a descriminalização do aborto.

Lusmarina foi quem representou as mulheres e grupos evangélicos que, sendo a favor do Estado laico, contra os fundamentalismo, e a favor da dignidade humana, são a favor da descriminalização e legalização do aborto.

Eu e algumas companheiras que constroem a Frente Evangélica Pela Legalização do Aborto estávamos lá e, até então, não imaginávamos que num futuro próximo, nosso levante e reivindicações, como mulheres jovens evangélicas, levariam nossa companheira Camila Mantovani ao exílio, nem imaginávamos que conheceríamos tantas outras mulheres evangélicas que tendo interrompido a gravidez foram duramente violentadas: primeiro pelo Estado que não as dava autonomia e as colocavam como criminosas, depois pela igreja que, chamando de amor, as violentava, punia e condenava como pecadoras. Tampouco saberíamos que num futuro próximo viveríamos sob um governo cristofascista e que nossas lutas seriam duramente atacadas – inclusive por uma ministra evangélica que se diz defensora da mulher, da família e dos direitos humanos.

Cá estamos nós, diante da barbárie da morte.

Logo o povo de uma fé que reivindica a existência de um Deus, que feito carne, venceu a morte para consumar toda a lei e libertar o povo, protagoniza um discurso de punição e morte. Um povo que, se utilizando da mensagem de vida e libertação, mas acreditando no projeto de poder religioso que se usa do estado para violar corpos, fazem orações e manifestações em frente a hospitais para que uma menina de 10 anos não interrompa uma gravidez forçada e a gritam: “ASSASSINA!”.

Do outro lado, estou aqui (não só, pois muitos irmãs e irmãos se colocam nessa luta também), com a voz embargada, ora com vergonha do que fazem em nome de Deus, ora com medo do que mais podem fazer essas pessoas, mas ainda sim me levantando, como parcela religiosa que insiste em reivindicar o discipulado de Jesus de Nazaré, para dizer mais uma vez o óbvio: A BÍBLIA NÃO CONDENA O ABORTO. Trazendo para o debate palavras de Lusmarina no fatídico dia da audiência pública, trago algumas informações importantes sobre essa afirmação:

“Há apenas dois textos no antigo testamento que mencionam o aborto: o primeiro em Êxodo 21, determina que se uma mulher por estar envolvida na briga de seu marido e outro homem, for ferida e abortar, o agressor deve pagar uma indenização para o marido, isso significa que a época o feto não era considerado um ser vivo, e por isso o agressor não era condenado a morte. Lembreme-nos que o que vigia era a lei de talião “olho por olho, dente por dente, vida por vida”. O segundo texto em Números 5 relata um aborto ritual praticado pelo sacerdote. Se o marido ficasse com ciúmes da sua esposa e não pudesse comprovar a infidelidade dela por meio de testemunhas, poderia praticar o ritual de ordália, que consistia em obrigar a mulher supostamente infiel a tomar águas amargas. A mulher era forçada a ingerir o que atualmente se denomina cadaverina, que é um elemento que se encontra em matéria organiza morta, se a mulher abortava depois de ingerir a água estava comprovado que ela tinha sido infiel e o marido podia puni-la inclusive com a morte por apedrejamento.(…) no novo testamento há apenas uma menção a palavra aborto que é em I Coríntios 15:8,, onde o apostolo Paulo refere-se a si mesmo de maneira metafórica como um aborto pois era o menor dos apóstolos. A primeira conclusão a que se chega é que o aborto não é condenado na Bíblia pois não é considerado nem pecado, nem crime no período neo testamentário ou dentro da lei mosaica.”

Não há na Bíblia, também, nada que diga quando uma vida se inicia. Na verdade, o que se sabe sobre os relatos bíblicos e do tempo histórico bíblico é o que a teóloga Elaine Gleci Neuenfeldt nos apresenta em seu artigo “Fertilidade e infertilidade na Bíblia: Suspeitas a partir da teologia feminista”:

“Nos tempos bíblicos, a vida começava não com a concepção, mas com o reconhecimento da criança, por parte do pai ou da mãe.

Cabia à parteira apresentar a criança ao pai. Este não participava do processo do parto, conforme se lê em Jeremias 20.15; Jó 3.3. O primeiro choro da criança sinalizaria um pedido de adoção e o pai responderia com um hino, um refrão de aceitação conforme Jó 3.7; Genesis 4.1; 21.6-7. Também a mãe entoava um hino de agradecimento pelo bom parto, já que a experiência podia significar uma luta entre a vida e a morte. Assim, temos as referências Genesis 30.11 e 13 em que Raquel exclama pelo nascimento de dois de seus Filhos.”

Então, irmãs e irmãos, o discurso que há vida desde a concepção e que portanto mulheres que interrompem uma gestação atentam à vida e por isso atentam ao próprio Deus é uma falácia da tradição patriarcal cristã que, sendo hegemônica há séculos, justificou que mulheres fossem queimadas em fogueiras e até hoje sejam jogadas em fogueiras simbólicas, TODOS OS DIAS. A falácia de um PROJETO de poder onde seus adeptos, seguidores de um Deus do imaginário masculino, cis, heteronormativo, branco, acreditam que só haja redenção para os que são imagem e semelhança desse Deus e, por isso, autorizam que outres corpos sejam duramente violentados e levados a morte. Ou não seria a mesma corja que se levantou contra uma peça publicitaria representar, e reconhecer, a paternidade na figura de um pai trans, a que ontem desejou que uma garota parisse um filho de um estuprador?

Não à toa, muitas mulheres feministas cristãs têm insistido na importância e na urgência de se pautar educação sexual e reprodutiva dentro das comunidades de fé e dos riscos que corremos quando privadas desse conhecimento; têm resistido as investidas da ministra pastora Damares Alves quando ela, e sua corja, tentam enfiar goela abaixo um programa moralista e castrador de abstinência sexual baseado em sua fé; tem questionado essa devoção ao Deus homem que nos submete a violências e silenciamentos e pensado gênero dentro da comunidade de fé; têm feito frente política para reivindicar um estado laico que não imponha as vontades de grupos religiosos como políticas que privam corpos de acessarem direitos básicos à dignidade humana – como é o caso do acesso ao aborto legal, seguro e gratuito.

Quando vejo as imagens da porta do hospital em Recife, sou levada a história da crucificação de Jesus. Lembro da imagem relatada no texto bíblico em quem Jesus caminha com a cruz em suas costas entre uma multidão que gritavam: “matem-no”, “Crucifica!” e que, humilhando Jesus, cegos por um fanatismo qualquer, não conseguiam enxergar a violência e atentado do império romano a um jovem que seria morto injustamente da morte mais cruel do seu tempo. Querer obrigar uma menina de 10 anos parir é, ou deveria ser, para nós uma das mortes mais cruéis do nosso tempo.

O que conforta, porém, é que, como na história de Jesus, nem mesmo as forças malignas – que no nosso tempo se revelam como fascistas – puderam impedir o poder da vida. TETELESTAI. Está consumado, a vida venceu a morte. Está feito e esse é um dia de vitória (mesmo que regado à uma angústia profunda do que virá no futuro). A menina de 10 anos, tendo seu direito garantido, sua autonomia respeitada e tendo acesso à um procedimento seguro e profissionais responsáveis consumou o seu direito. Venceu a morte e ao espírito de morte que tentaram lhe impor.

A luta agora é para que a verdadeira justiça seja feita: que o estuprador seja responsabilizado pelos danos físicos, morais e psíquicos que cometeu, que todas as pessoas irresponsáveis que tornaram desse dia o verdadeiro inferno sejam responsabilizadas tanto aqui, “no mundo dos homens”, quanto espiritualmente, pois, se é a palavra de Deus que serve à Sara Winter, e seus seguidores, gostaria de lembra-los: “Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar. Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é necessário que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” Palavras de Jesus.

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