Produção agroecológica de bioinsumos em Sergipe aponta caminhos para a justiça climática
Iniciativa liderada por famílias camponesas garante terra fértil preservação das sementes crioulas
Por Priscila Viana

Em terra fértil, a semente das boas ideias vira prática transformadora. Munidos dessa preciosa sabedoria, quatro jovens camponeses e camponesas no estado de Sergipe decidiram reinventar a relação e o cuidado com a terra e germinar a vida com as próprias mãos.
A história começou em 2017, durante o Seminário Nacional de Agrobiodiversidade e Sementes Crioulas, que se realizava em Aracaju, capital do estado. Entre os diálogos e debates sobre o modo agroecológico de produção e a riqueza das sementes crioulas, o grupo conheceu o Movimento Camponês Popular (MCP) e encontrou um caminho de resistência e transformação para seguir junto.
Criado em julho de 2008, o MCP se enraizou na região Centro-Oeste do Brasil com o objetivo de se contrapor ao agronegócio e suas estratégias destrutivas de ocupação das terras. E logo se ramificou pelo país, mobilizando famílias camponesas de diferentes lugares em defesa da produção agroecológica de alimentos.
Biofábrica Sal da Terra
Inspirados pelas trocas firmadas nos potentes encontros da agroecologia, os jovens camponeses e camponesas decidiram refutar o uso de insumos industriais, como os fertilizantes químicos e agrotóxicos, e construir outra forma de permanecer no território, de cuidar da terra e de si. Mobilizaram outras pessoas que partilhavam os mesmos sonhos e, em 2019, se banharam em outro divisor de águas.
“As oficinas do MCP, especialmente as de produção de insumos agroecológicos realizadas em 2019, em parceria com o Sebrae, acenderam uma nova luz no caminho. Foi quando entendemos que poderíamos mudar as fontes dos insumos da nossa produção”, lembra a agricultora sergipana, Ana Maria dos Santos Guimarães, que compõe o grupo e atualmente é uma das dirigentes nacionais do MCP.
Assim nasceu a Biofábrica Sal da Terra, no município sergipano de Itabaianinha, localizado às margens do rio Real, na região centro-sul do estado. A iniciativa, voltada à preservação da agrobiodiversidade, ao melhoramento genético participativo e à construção de alternativas ao modelo agroalimentar hegemônico, bebe do encontro de conhecimentos para construir um modelo saudável de fertilização da terra e de cuidado com as sementes.

A rotina no território seguiu o compasso da natureza e o grupo passou a organizar as atividades conforme o ciclo das roças. Entre os meses de março e maio, preparam a terra e plantam as sementes crioulas de milho, feijão, amendoim e também as de espécies usadas como adubos verdes (crotalaria juncea, feijão de porco e feijão guandu). Entre maio e julho, exercem o delicado e persistente trabalho de cuidado com as lavouras. Entre setembro e novembro, é hora da tão esperada colheita, quando a terra nos presenteia com o fruto do trabalho.
Antes de plantar, o grupo produz os próprios bioinsumos, que incluem Bokashi, E.M. (microorganismos eficientes), repelente de insetos à base de castanha de caju, biofertilizantes, calda bordalesa, compostagem, e levam de 15 a 60 dias para ficarem prontos. “Eles precisam estar disponíveis no momento certo para as plantas”, explica a agricultora sergipana.
A resistência floresce
Os insumos agroecológicos são usados nas roças das próprias comunidades da região, compartilhados com vizinhos e famílias agricultoras do MCP. Também são utilizados na produção de sementes crioulas de milho, que constituem a matéria-prima do flocão de milho crioulo livre de transgênicos. O famoso cuscuz agroecológico do MCP já foi saboreado por milhares de pessoas em todo o Brasil, especialmente nos cafés da manhã dos eventos agroecológicos. Ao todo, são produzidas e comercializadas cerca de 10 toneladas de flocão por ano.
Como o bom passarinho que espalha sementes sobre a terra ao voar pelo céu, as doações, partilhas e trocas de insumos proporcionam frutíferos encontros e aprendizados.
Nas oficinas de produção dos bioinsumos promovidas pelo MCP, a comunidade local participa, experimenta, troca receitas e também divide os desafios enfrentados, como as dificuldades de levantar recursos. Ainda assim, a resistência floresce, canta, dança e cria versos, sob a voz doce de Ana Maria, que também é conhecida por embalar os encontros agroecológicos com seu inseparável violão.
Em cada oficina, é realizado um mapeamento dos grupos de base do Movimento, que está presente em 10 municípios sergipanos – além de Itabaianinha, onde está localizada a fábrica de bioinsumos. Assim, a rede cresce, se adensa e se torna semente — espalhando a transição agroecológica por todo o território sergipano.

“Tudo é feito com recursos próprios, apoio da comunidade, organizações parceiras e do MCP. Mas é nesse esforço conjunto que a gente se reconhece como parte de algo maior — uma rede de camponeses que está fazendo a transição agroecológica no território”, afirma Ana Maria.
Inicialmente, o coletivo de jovens do MCP contou com o apoio do Fundo Casa Socioambiental, especialmente para a compra de alguns equipamentos e ferramentas de trabalho. Com o tempo, passou a captar recursos por meio de chamadas públicas lançadas pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e da União Européia.
Hoje, o grupo conta com o apoio do Núcleo de Estudos Agroecológicos (NEA) do Instituto Federal de Sergipe (IFS)/Campus São Cristóvão para realização das oficinas, estudos e testes sobre a eficácia dos bioinsumos. Uma convergência de diversos tipos de conhecimento que florescem no mesmo solo.
Entre as estiagens e as incertezas do clima, o que se colhe é mais do que alimento. É comida de verdade, preparada pelas mãos e pela sabedoria ancestral. É o tempo da terra sendo respeitado e cuidado, como a criança que sorri, caminha, fala e dança no seu momento mágico de firmar presença no mundo.
Série Agroecologia, Território e Justiça Climática
Essa série é uma realização da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), em parceria com o Agroecologia em Rede, a Xepa Ativismo e o Clímax.Now. Serão cinco matérias, publicadas nos meses de março e abril de 2026, que mostram como experiências de agroecologia estão enfrentando as mudanças climáticas em diferentes biomas do Brasil.
Leia as outras matérias da série aqui:
– Como a Agroecologia enfrenta as mudanças climáticas?
Mapeamento nacional
As iniciativas apresentadas na série “Agroecologia, Território e Justiça Climática”, como a criação da Biofábrica Sal da Terra, estão entre as 503 experiências identificadas em um mapeamento nacional inédito realizado pela ANA em 2025. Seja no âmbito da mitigação – que reduz as emissões de gases de efeito estufa – seja na dimensão da adaptação climática – que representa os ajustes necessários para conviver com as mudanças do clima – as iniciativas mapeadas comunicam uma série de estratégias coletivas de construção de sistemas alimentares baseados em valores como cooperação, solidariedade e complementaridade com a natureza.
As informações e reflexões sobre as soluções apresentadas pelas experiências podem ser acessadas na plataforma Agroecologia em Rede, onde já estão cadastradas mais de 6 mil práticas agroecológicas de todo o Brasil e da América Latina. Os principais resultados e análises do mapeamento também estão disponíveis na publicação “No Clima da Agroecologia”, elaborada em português, espanhol e inglês. O material foi apresentado no 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), na COP30, na Cúpula dos Povos e em outros espaços globais de diálogo e ação pela justiça climática.






