Uma pesquisa divulgada ontem (03) pela Ação da Cidadania, revelou que 32% dos entregadores de comida por aplicativo no Rio de Janeiro e em São Paulo vivem em situação de insegurança alimentar. O índice é alarmante, especialmente quando comparado à média nacional de 9,4%. Dentro desse grupo, 13,5% enfrentam restrição alimentar moderada ou grave, o que significa que muitos trabalhadores estão pulando refeições ou não conseguem garantir alimentos suficientes para suas necessidades diárias.

O estudo lança luz sobre a precarização das condições de trabalho desses profissionais, que não apenas lidam com a fome, mas também arcam com altos custos para exercer a atividade. 99% dos entregadores pagam do próprio bolso o plano de dados utilizado no aplicativo, enquanto 93,4% não possuem seguro para o celular, item essencial para a realização do trabalho. A vulnerabilidade se estende a outras áreas: 90,6% não têm seguro de vida e 90% não possuem plano de saúde, deixando-os expostos a riscos financeiros em caso de acidentes ou problemas de saúde.

A pesquisa também aponta que 67,6% dos entregadores não têm seguro para seus veículos, fator preocupante considerando o alto índice de acidentes na categoria. Segundo os dados levantados, 41% já sofreram algum tipo de acidente de trabalho, e 16% precisaram se afastar devido a lesões. Apesar dessa realidade, 72% dos entregadores não contribuem com a Previdência Social, o que significa que, caso fiquem impossibilitados de trabalhar, não terão nenhum amparo financeiro.

“Trabalhamos para comer”

Renato S. Cerqueira/Futura Press/Folhapress

Diante dos números, a pesquisa questiona a ideia de que o trabalho por aplicativo representa uma escolha voluntária e flexível. Para Rodrigo “Kiko” Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania, a realidade dos entregadores é de extrema precarização e ausência de direitos básicos.

“A maioria desses trabalhadores não está na rua porque quer, mas porque não tem alternativa. Além de não receberem salário fixo, precisam arcar com todos os custos da operação, sem qualquer respaldo das empresas. Muitos sequer conseguem garantir a própria alimentação e ainda dependem de auxílios governamentais para sobreviver, enquanto as plataformas acumulam lucros milionários”, afirma Afonso.

Um dos entregadores entrevistados para o estudo, que preferiu não se identificar, descreveu sua rotina exaustiva: “Trabalhamos para comer. Não tem outra forma de dizer. Se a gente não sai para fazer entrega, não tem dinheiro para pagar as contas. Mas mesmo trabalhando o dia inteiro, tem dia que falta comida em casa. E se o celular quebra ou a moto estraga, a gente fica sem nada”.

Perfil dos entregadores

O estudo também traçou o perfil sociodemográfico dos entregadores de aplicativo no Rio e em São Paulo. Os dados mostram que a maioria é formada por homens (93,9%), 67% são negros, e 60,2% têm entre 18 e 29 anos. Além disso, 76,4% possuem apenas ensino fundamental ou médio, e mais de 92% estão fora da universidade, o que limita suas oportunidades no mercado de trabalho.

A pesquisa foi realizada em 2024 com 1.700 entregadores, sendo 1.146 em São Paulo e 555 no Rio de Janeiro. Os dados completos podem ser acessados no site da Ação da Cidadania.