Num ano apocalíptico, lançamos o clipe de “Pedrinho” , da cantora Tulipa Ruiz, para despertar liberdade e resistência; YouTube impôs restrição de idade a algo que não tem nada de inapropriado e Instagram já censurou três vezes uma foto que contém nádegas e um teaser que não mostra nada. Nos despedimos de 2018 e entramos em 2019 com uma missão: não admitir censura à arte, ao amor e aos corpos.

Foi no fim de 2017 que Pedrinho começou a renascer e ganhar rosto. Aquele menino ingênuo cantado no álbum de estreia da Tulipa Ruiz (“Efêmera”), acordou um dia assustado: tinham censurado uma performance do Wagner Schwartz, no MAM-SP. Um vídeo em que uma criança – acompanhada de sua mãe – encostava em seu corpo nu ganhou as redes da direita conservadora, que foi à porta pedir sua extinção. E sua arte e seu corpo terminaram censurados. O mesmo movimento reacionário já tinha conseguido encerrar mais cedo outra exposição em Porto Alegre, o Queermuseu.

Os dois acontecimentos alertavam para o que veríamos mais à frente com a eleição de Bolsonaro: o Brasil dopado pela caretice e os bons costumes.

Chegamos ao fim de 2018 com um Natal marcado por diversas desavenças familiares. Não tinha como ser diferente. Pais, irmãos, tios, amigos, colegas de trabalho ignoraram os gritos de socorro de negros, mulheres, LGBTQs e deficientes em nome de um ódio alimentado por uma imprensa irresponsável e uma classe supostamente liberal que botou para fora os preconceitos desencorajados diante de uma sociedade que andava até então pra frente.

E lá virão eles outra vez armados de atraso, preconceito, intolerância – e agora com o posse de arma flexibilizado por aquele que acha que criança tem de aprender a usar armas desde os 5 anos de idade para se protegerem (?). Mas nós precisamos refutar tudo isso. Temos de nos despir dessas armaduras que estão querendo nos colocar outra vez. Essas camadas que os padrões estéticos e comportamentais (e Jesus na goiabeira) nos colocam é um dos piores males da sociedade.

Porque somos essencialmente diferentes. E precisamos aceitar isso. Oprimir seu corpo é a pior automutilação que podemos fazer. E eu sei bem o que é isso.

Durante muitos anos achei que meu 1,40m de altura e ser gay eram aberrações. Os dois juntos, então, não poderia. O preconceito foi talvez a primeira palavra que entrou no meu vocabulário quando ainda nem sabia falar. Os dedos apontados, as risadas, os apelidos. Aí vem as reuniões de família, a escola, as piadas com mulheres, negros, corpos diferentes e… gays. Corpos estranhos… Estranhos pra quem?

Pedrinho é sobre se libertar de tudo isso. É sobre se despir de cada peso que carregamos como um fardo porque um dia nos disseram que era inaceitável, feio, fora do padrão.

A liberdade é o bem mais precioso que temos. E só entendemos o que é liberdade quando de fato estamos nus, sem nenhuma dessas peles falsas que tentaram nos vender – e a gente um dia comprou.

Parar de erotizar o corpo do outro é um dos primeiros passos para encarar nossos próprios corpos com outro olhar. Também é sobre isso que falamos nesse vídeo, que meus parceiros e fotógrafos Fábio Lamounier e Rodrigo Ladeira (autores do maravilhoso projeto Chicos) entenderam muito bem. É deles a ideia do tecido de céu, que reflete exatamente essa outra mensagem.

Kelner Macêdo, nosso ator convidado para personificar esse artista libertador, é o agente que nos desamarra, mas não é ele que nos despe, somos nós mesmos. Pedrinho é sobre o outro e a gente.

A liberdade de ser e amar quem quisermos. Sobre existir na nossa matéria-prima básica: nus.

Encontrei Wagner Schwartz pela primeira vez no dia do lançamento do clipe. Ele soube que era nosso agente propulsor através de uma nota do Estadão que informava que o clipe de “Pedrinho” tinha sido inspirado em “La Bête”. Wagner postou em seu Instagram o registro e eu o chamei pro evento de lançamento. E ele foi. Encontrei um artista sensibilizado e claramente emocionado com nossa homenagem depois de tanto ter sido violentado. A presença dele levou nossas próprias presenças a outros lugares.

Aquela chama de liberdade de Wagner apagada covardemente, reacendeu no mesmo efeito dominó que propusemos no clipe. Foi uma noite inesquecível para todos nós Pedrinhos – um “estado de espírito”, como define Tulipa. Tememos censura, e ela de certa forma veio. O YouTube impôs restrição de publicidade e de idade para assistir ao clipe – num conteúdo que não tem absolutamente nada de inapropriado para menores (é sobre esse peso do nu que levamos desde criança que também tratamos no vídeo). Já o Instagram, que demonstra sucessivos equívocos em suas diretrizes, apagou imagens de bastidores publicadas por quase todos os envolvidos no clipe. Censurou três vezes uma foto com todos os Pedrinhos e Tulipa porque aparece pedaços de nádegas.

Mas sinto-lhes informar: continuaremos aqui, nus. Afirmando a beleza onde insistem em colocar maldade e endossando a liberdade onde insistem em colocar algemas e armaduras. O poema de Walt Whitman que abre nosso clipe não é à toa:

“Há quem duvide de que todo aquele que perverte o corpo esconde a si mesmo?
Há quem duvide de que aquele que profano os vivos seja tão perverso quanto quem profana os mortos?
E se o corpo não valer tanto quanto a alma?
E se o corpo não for a alma, o que será a alma?”

Afinal, se a gente não é o que a gente carrega, quem seremos diante daqueles que tentam nos dizer como ser, como agir, como amar? Se estamos aqui, em 2019, é porque sobrevivemos a um ano muito doido e muito doído. Estamos todxs muito felizes por sermos todos pedrinhos, independentemente de gênero, raça, cor, tamanho. Tem sido lindo o retorno das pessoas que entenderam e admiraram nossa arte-resistência. Lindo de ver como tocamos fundo algumas pessoas, seja pela sensibilidade, pelos corpos políticos, pela “poesia”, como definiu Lenine para nossa honra.

Mas a luta ainda não acabou. 2019 só começou e teremos muito tempo ainda de luta e resistência.

E é por isso que estamos todxs juntos, mais uma vez nesse making of, de peito aberto e bunda de fora, pra lembrar que seremos quem e como quisermos, sem esquecer da frase que mais nos marcou em 2018: ninguém solta a mão de ninguém. Despertemos-NUS o Pedrinho que existe em cada um. E vamos à luta. Nus, de preferência.

E desde 1 de janeiro, com aquele discurso de posse separatista lamentável, até 31 de dezembro de 2022: ele não, ele nunca, ele jamais (se é que ele chega até lá, né Queiroz?).

 

Assista o Clipe

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