Há 30 dias, o coronavírus era uma preocupação distante, que tratava de lugares distantes e atingia pessoas distantes. Há 1 mês atrás, o que a população em geral sabia sobre o coronavírus, era uma panacéia de informações imiscuídas, entre coisas de extrema importância e fake news desumanas. Há cerca de 4 semanas, andávamos nas ruas, dávamos beijos e abraços e não queríamos acreditar que essa pandemia chegaria até nós, eu e você. Esta é a vida como ela era.

No dia 26 de fevereiro foi divulgado nosso paciente zero e, neste curto período, são quase 3.000 casos confirmados no Brasil, diante de mais de 530.000 infectados no mundo todo.

Partindo do meu recorte, sou praticamente 60+ e tenho uma asma bem animada desde criança. Descontrolada, foi como chamou o médico na minha primeira consulta no ambulatório do Hospital das Clínicas de São Paulo (a asma, não eu).

Assim, sou grupo de risco dobrado e, por esta razão, e também porque pretendo chegar nos 120+ com qualidade de vida, reivindiquei o home office pouco depois do lockdown declarado na Itália, pedido que, no meu caso, foi logo atendido.

No dia 13 de março, quando os comunicados da saúde no Brasil começaram a reforçar a necessidade de isolar as pessoas para conter a propagação exponencial do vírus, assumi o isolamento social como uma nova forma de vida. Uma decisão que, também no meu caso, ainda que com alguma dificuldade, foi uma escolha possível de ser feita. Sou, sem dúvida, muito privilegiada.

No meu micro universo, estamos convivendo em 5 adultos, entre marido, filhos e enteados, numa casa confortável, com uma certa segurança, ainda que frágil, de 2 integrantes da família com trabalho fixo, o que garante a comida e algumas contas. Quais contas? Ah! Isso ainda temos que definir quais as que conseguiremos pagar. Mas, por enquanto, seguimos trabalhando a mente para não sofrer por antecipação.

Agora, saindo do meu umbigo, logo de cara, me senti em uma realidade distópica. Me senti como num filme pós apocalíptico onde, em alguns lugares, as pessoas podem ser presas se saírem às ruas, enquanto em outros, muitas das pessoas não tem a menor condição para poder permanecer em casa (muitos, nem casa tem); onde algumas pessoas viram-se totalmente sozinhas, enquanto outras estão amontoadas; mas todos, sem exceção, mesmo que em diferentes níveis de percepção, se depararam com uma realidade nunca antes experimentada. Esta é a vida como ela está.

O fato é que, em muito pouco tempo, a vida como a conhecíamos se transformou num completo desconhecido. Como muitos já disseram, vivemos um estado de guerra, contra um inimigo invisível, desconhecido e duro de matar. Fomos pegos de surpresa, mas aos poucos, o susto inicial que levou à escassez planetária de papéis higiênicos, além da falta grave de máscaras e álcool gel, deixa espaço para outros sentimentos com os quais, a maioria de nós, não tem conhecimento ou capacidade para lidar.

Estudos realizados sobre isolamento social mostram que ansiedade, medo e depressão, são alguns desses sentimentos que, inclusive, começam a aparecer com pouco tempo de afastamento.

Outras consequências podem incluir, aumento da pressão sanguínea e maior vulnerabilidade a infecções em função de descargas hormonais. Mas, como mostraram testes realizados em épocas diferentes, pelo geólogo francês Michel Siffre,1961, e o sociólogo italiano Maurizio Montalbini, 1993, os maiores efeitos acontecem no cérebro mesmo, alterando, por exemplo, a relação com o tempo e os ciclos de sono, além de afetar a concentração e o raciocínio lógico. Isso tudo, porque as situações de isolamento levam o nosso cérebro a criar realidades alternativas a partir das nossas subjetividades.

A boa notícia? A retomada do convívio social reverte a maioria dessas alterações. No fim do dia, somos seres sociais que precisam de contato humano para estabelecer trocas e experiências comuns que é o que nos mantém conectados com o que entendemos por realidade.

Nos últimos anos, a hiperatividade digital tem trazido uma experiência de um certo tipo de isolamento social. Mas, a imposição de um isolamento social compulsório, na vida real, tem feito com que, nos últimos dias, voltemos a pensar na nossa condição de seres interdependentes que, na sua origem, buscaram a vida em comunidade para sobreviver e evoluir.

Mesmo sabendo que meu olhar sempre escolhe um filtro otimista, o que tenho aprendido de tudo isso, é que este isolamento está nos despertando para a importância dos nossos relacionamentos, das nossas relações com o outro. Tenho acompanhado que a falta do convívio presencial vem trazendo um aprendizado rápido do uso das ferramentas digitais para reconstruir essas relações. Tenho visto que muita gente tem se “encontrado” virtualmente com mais frequência do que faziam presencialmente. E tenho testemunhado, em meio a tantas incertezas, tantas dúvidas, o desabrochar de atitudes solidárias mais escancaradas, em vários níveis.

Talvez, a falta do toque e da presença física esteja nos fazendo enxergar o que estava nublado com tantas camadas de impureza social impostas por necessidades, na maioria das vezes, tão desnecessárias. Uma falta que nos faz querer estar presentes de outras formas. Quem sabe, esta é a vida como ela pode ser.

Concluindo, acredito que mais do que uma guerra, estamos vivendo uma grande revolução que pode remodelar a sociedade que conhecemos. Onde os sobreviventes dessa hecatombe global podem, ao menos, imaginar um mundo mais comunitário, com menos fronteiras e com mais semelhanças do que diferenças sociais. E, depois de revisitar Nelson Rodrigues e John Lennon, faço minha a crença de Milton Nascimento: sei que nada será como antes, amanhã!

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