Para nós, pessoas com deficiência, até pular Carnaval é um ato de resistência
A cidade, historicamente, não foi pensada para todos os corpos. E isso não é responsabilidade de um bloco ou de uma festa específica. É resultado de escolhas públicas.
Por Fernando Campos
O Carnaval é frequentemente visto como a festa da liberdade. Todo mundo na rua, todo mundo igual, todo mundo feliz. Na prática, não é bem assim. Pelo menos não pra todo mundo.
Pra pessoas com deficiência, pular Carnaval nunca foi algo tão simples. Não é apenas ir. Antes da música, existe sempre aquela pergunta silenciosa: “será que eu vou caber ali?”. E não é caber só no espaço físico. É caber no clima, no olhar das pessoas, na expectativa do que se espera de um corpo em festa.
Quando a gente vai, não está fazendo nada de extraordinário. Não é superação. Não é exemplo. É só vontade de viver o que todo mundo vive. Dançar, encontrar amigos, rir alto, errar o passo, ficar cansado, ir embora mais cedo se quiser — ou mais tarde também.
Mas o simples fato de estar ali ainda carrega um peso político. Porque a cidade, historicamente, não foi pensada para todos os corpos. E isso não é responsabilidade de um bloco ou de uma festa específica. É resultado de escolhas públicas, de planejamento urbano que ignora a diversidade humana e joga nas pessoas a tarefa de se adaptar ao que nunca foi feito pra elas.
Além disso, ainda existe uma ideia muito presente de que pessoas com deficiência deveriam ocupar lugares mais silenciosos, mais discretos, quase sempre à margem. O famoso “fica ali no canto pra não incomodar”. Não o centro da rua, não o excesso, não a bagunça que o Carnaval pede.

Por isso, pular Carnaval também vira resistência. Não porque queremos provar algo, mas porque estar fora desse lugar imposto já é, por si só, um gesto político.
E tem uma parte importante dessa história que passa pelas pessoas que estão vivendo a festa junto. Inclusão não é só rampa e lei — embora políticas públicas sejam fundamentais. Inclusão também acontece quando nossa presença é tratada com naturalidade. Sem pena, sem aplauso exagerado, sem nos transformar em símbolo.
A gente pode querer estar bonito, se sentir bem, paquerar, curtir, exatamente como qualquer outra pessoa. O que a gente não está ali pra ser é referência moral, exemplo de vida ou aula ambulante. Carnaval não é palestra. É vivência.
Naturalizar a presença de pessoas com deficiência na festa talvez seja uma das formas mais concretas de inclusão. Dividir espaço, respeitar tempo, oferecer ajuda — e entender que ela pode ser aceita ou não — e seguir o baile.
Pessoas com deficiência não precisam ser incríveis para ocupar o Carnaval. Precisam apenas ter garantido o direito de estar ali, com dignidade, segurança e autonomia.
Enquanto algo tão básico quanto viver a alegria coletiva ainda exigir da gente mais esforço do que deveria, isso continuará sendo resistência. E tudo bem chamar as coisas pelo nome. A gente não está pedindo licença. A gente só está vivendo.



