Por Dani Zetum

Foto: Victor Jucá

O Agente Secreto tinha acabado de ter sua estreia mundial em Cannes quando nos sentamos para conversar. No ar havia uma atmosfera mais calma — embora eu estivesse profundamente emocionada por viver aquele momento histórico ao lado de um dos grandes diretores do nosso Brasil. Kleber Mendonça Filho falava com a serenidade que lhe é própria. E foi ali, naquele instante quase informal, que ele revelou algo que muita gente ainda não sabia.

“Esse foi o primeiro filme que eu escrevi pensando em alguém no papel principal.”

A frase ficou suspensa por um instante. Simples, direta  mas com um peso enorme para quem conhece o processo criativo de um diretor como Kleber.

Ele queria fazer um thriller ambientado nos anos 70, explicou. E desde o início sabia com quem queria contar essa história: Wagner Moura. Kleber e Wagner compartilham mais do que afinidade estética, compartilham uma visão de Brasil. A mesma recusa ao esquecimento. O mesmo olhar atento para aquilo que o país muitas vezes prefere chamar de passado, mas que ainda pulsa no presente. Quando Kleber decidiu que era hora de desenvolver essa história, o primeiro rosto que apareceu não foi o do personagem. Foi o de Wagner.

Muita gente imagina que algo parecido já tinha acontecido antes, em Aquarius. Mas Kleber esclarece: Sônia Braga entrou depois que o roteiro já existia. O Agente Secreto é diferente. É o filme em que o ator veio primeiro.

“Eu queria desenvolver um filme que eu pudesse fazer com Wagner.” — Kleber Mendonça Filho, Cannes 2025

Trecho da entrevista com Kleber Mendonça – youtube:@bondsfilmes

Essa escolha inédita na carreira de Kleber reverberou não apenas na escolha certeira para o papel principal, mas também na formação de um elenco magnífico.  Wagner Moura se tornou o primeiro ator brasileiro da história a ser indicado ao Oscar e chega a essa indicação já carregando uma trajetória marcante nesta temporada. O Agente Secreto venceu duas estatuetas no Globo de Ouro: Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama para Wagner — além da vitória no Critics Choice Awards como Melhor Filme Estrangeiro. Em Cannes, onde tudo começou, o filme foi premiado com Melhor Diretor para Kleber e Melhor Ator para Wagner, feito inédito para um ator brasileiro no festival.

Esse círculo que começou numa conversa sobre confiança e cumplicidade pode agora se fechar no palco mais visto do cinema mundial. Não seria apenas uma premiação. Seria também a confirmação de que algumas histórias só existem porque duas pessoas decidiram, juntas, que era hora de contá-las.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.