Vira-lata, não: o cinema brasileiro narra suas próprias histórias
O cinema contemporâneo e a virada de um país que cansou de se enxergar pelos olhos dos outros
Por Mirna Silveira

Existe algo muito especial no momento em que a luz cria uma imagem no cinema. O cinema não é apenas entretenimento, é uma forma de mostrar a realidade. Uma cena do pôr do sol não é apenas uma cena, é uma perspectiva. E no cinema, as perspectivas nunca são neutras.
Durante décadas, a visão que os estrangeiros tinham do Brasil era a que prevalecia. Hollywood não apenas exportava filmes, mas também um estilo de vida. Uma ideia de beleza, uma noção de quem era digno de ser o protagonista. O Brasil que aparecia nos filmes era uma caricatura: samba exagerado, floresta exótica, pobreza disfarçada e “malandragem”. O país era apenas um cenário, mas nunca o narrador. Crescer vendo essas representações têm um preço, e até mesmo um nome: complexo de vira-lata. Os brasileiros aprenderam a se ver pelos olhos dos estrangeiros e o que viam era sempre algo menor, periférico e atrasado.
O cinema brasileiro contemporâneo é uma resposta direta a isso. Não é um grito isolado, mas um movimento. Filme por filme, uma geração de cineastas está criando algo que vai além da boa arte, um nacionalismo crítico. Não é o nacionalismo ingênuo que ignora os problemas do país, mas o que os enfrenta de frente, os nomeia e insiste em permanecer por amor a essa cultura, a esse povo, a essa terra.
‘Ainda Estou Aqui’, de Walter Salles, virou um sucesso antes mesmo de chegar ao Oscar. A indicação ao prêmio máximo do cinema mundial não criou o interesse do público brasileiro, apenas confirmou o que já estava acontecendo nas salas. A história da resistência de Eunice Paiva (Fernanda Torres) diante do desaparecimento forçado de seu marido pela ditadura militar tocou em uma ferida mal cicatrizada de um país inteiro. O filme não explica a ditadura; ele a faz doer em quem o assiste. Tanto para quem viveu o período quanto para quem o conheceu apenas pelos livros de história porque o cinema entra pela emoção e não pela razão.

Na sequência, ‘O Agente Secreto’, de Kleber Mendonça Filho, colocou o Brasil no centro das conversas mais relevantes do cinema mundial e novamente a partir de uma história que só poderia ser contada de dentro pelo próprio povo brasileiro.
Não é coincidência que esses filmes lidem com memória, trauma e identidade. Há um saudosismo ativo nesse cinema. Não é nostálgico mas político. Quando um diretor mergulha em arquivos históricos, fotografias desbotadas e gravações caseiras, não está apenas evocando sentimentos mas recusando o esquecimento; Está dizendo que isso aconteceu, que isso importa, que isso nos fez quem somos. É esse gesto que transforma o cinema em instrumento da identidade coletiva: a diferença entre olhar de fora – estereotipa porque não conhece – e olhar de dentro – afeta porque pertence.
Ainda assim, há uma ferida que precisa ser nomeada. Sempre que um filme brasileiro ganha Cannes, o Globo de Ouro ou o Oscar, o país acorda para uma obra que muitas vezes já estava entre nós sem o apoio que merecia. O reconhecimento de fora vira gatilho de uma autoestima que não deveria precisar ser acionada de fora. É o complexo de vira-lata em sua expressão mais crua: precisamos do aval internacional para nos sentirmos autorizados a levar nosso próprio cinema a sério. A pergunta que fica é incômoda e necessária: por que o brasileiro só se permite orgulhar quando o mundo autoriza?

A resposta talvez esteja sendo construída nas próprias telas. O Brasil que aparece nesse cinema não é o do cartão postal nem o do caos que domina os noticiários. É o Brasil de gente que ama, luta, lembra e resiste. Um país que aos poucos reivindica e democratiza o direito de narrar a própria história sem pedir licença, sem esperar validação, sem se envergonhar da própria origem.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.