Por Lorena Fréitez Mendoza*

Diante do amplo rodeio que a precedeu, muito poucos acreditavam que uma agressão militar norte-americana seria possível, tampouco que seus efeitos seriam os que se produziram. Um mês após os acontecimentos de 3 de janeiro na Venezuela, atravessamos o que bem poderíamos chamar de um resete político. As peças do tabuleiro se moveram. Todas. O chavismo mutou: mudou o tom, os rostos, as decisões. A oposição radical, desconcertada após o desprezo de Trump pela liderança de María Corina Machado depois da captura de Maduro, manobra do exterior apelando a uma nova linguagem que introduz “o fator povo” como ferramenta para desestabilizar a ordem emergente que o chavismo produz e que os Estados Unidos, interessados na estabilidade dos negócios, valorizam.

Enquanto isso, as pequenas organizações que há meses clamavam sozinhas por direitos e garantias democráticas começam a ocupar espaços, a se articular melhor, a ser ouvidas. E a sociedade — esgotada politicamente, devastada economicamente —, sem se deter em debates ideológicos sobre a soberania, passa a projetar suas esperanças nas promessas de investimento petrolífero que chegam do norte. Com timidez, com cautela, as pessoas voltam a falar de política, mas a partir do concreto: melhorias nas condições de vida, soluções tangíveis e o regresso de seus filhos das prisões ou do exterior. Tudo isso revela que o resete deixou em aberto, sem definição clara, os sentidos que ordenam a vida coletiva.

Por isso, vive-se um momento radicalmente político. Um novo processo de reagrupamento social que deixou em luto e desconcerto os polos que, até um mês atrás, controlavam os termos do conflito. As bombas que caíram sobre pontos-chave de Caracas não apenas sacudiram o solo: fizeram explodir as certezas que sustentavam a lógica do conflito venezuelano.

O chavismo, ainda no controle do Estado, mas sem capacidade de defesa militar nem margem diante da ostentação de poder que os EUA exercem sobre o país, optou por começar a abrir o espaço político: reconhece — ainda que sem aprofundar — seus erros e produz gestos como a libertação de presos por razões políticas, a contenção do padrão de amedrontamento estatal, a criação de espaços para o diálogo plural e o anúncio de uma Lei de Anistia Geral. Não se trata de um novo momento especialmente econômico, mas de um novo momento intensamente político: novas possibilidades para articular uma mudança nas formas pelas quais se lutam os consensos que organizam a sociedade, dentro dos quais o sentido do governo econômico e o significado da soberania resultam os mais alterados.

Frente ao pessimismo impotente de uma esquerda que vê apenas tutela e catástrofe diante da doutrina Monroe, e ao desespero de uma direita que saliva por arrasar com o que resta do Estado que ainda sustenta a República, emerge uma corrente de fundo. Uma que, ao beber de múltiplos posicionamentos, articula-se sob uma estratégia de mínimos e busca construir condições para uma democratização sustentável que nos permita recobrar a soberania. Note-se que essa corrente renuncia às vias rápidas da tradicional lógica de ruptura, que fez do refundacionalismo estatal o traço característico da história política do país, para enfrentar a complexa tarefa de recolher os pedaços da porcelana quebrada que nos constitui e compor uma nova peça na qual possamos nos reconhecer.

Resta saber se as novas identidades hegemônicas que conduzirão a Venezuela serão capazes de renovar as premissas da ordem — não apenas a chavista, mas a ordem resultante do conjunto de produções políticas da longa democracia venezuelana, de 1958 até hoje — ou se, ao contrário, serão o resultado de uma nova grande ruptura radical com o passado, mecanismo habitual de produção de poder no país.

Diante da complexidade de resolver um conflito político de longa duração em meio à radicalização da condição colonial que o país arrasta desde que descobriu estar assentado sobre uma fortuna petrolífera, há razões para pensar que hoje — quando os extremismos acusam moderação após o colapso de suas estratégias — se abrem condições para construir menos a partir dos interesses de grupos e mais a partir do acervo democrático e institucional do país. Uma nova refundação do Estado liderada por qualquer extremismo que, como no passado, volte a excluir setores importantes das decisões sobre a vida coletiva nos condenaria a permanecer presos à história de vendettas que tanto debilitou a república — até que chegou o dia em que uma força estrangeira acreditou que podia profanar nosso solo soberano. E o fez.

*Lorena Fréitez Mendoza é analista política e militante de movimentos sociais