As tensões recentes entre Estados Unidos e Venezuela — incluindo sanções ampliadas, operações militares no Caribe e acusações criminais contra Nicolás Maduro — não podem ser lidas como fatos isolados. Elas se inserem em uma trajetória histórica de disputa por influência na América Latina, na qual petróleo, poder e soberania caminham lado a lado.

A Venezuela no centro da geopolítica energética

A estatal PDVSA já figurou entre as maiores empresas petrolíferas do mundo. Mesmo com a queda da produção nos últimos anos, a Venezuela permanece estratégica por um motivo decisivo: detém as maiores reservas provadas de petróleo do planeta. Durante décadas, empresas norte-americanas atuaram diretamente na exploração desse recurso. Com a chegada de Hugo Chávez ao poder, houve a nacionalização do setor e a ruptura de contratos internacionais.

Criou-se, então, um conflito estrutural. De um lado, a tentativa venezuelana de controlar sua própria renda energética; de outro, interesses privados e estratégicos dos Estados Unidos. O atrito não é apenas econômico. Envolve segurança energética global, influência geopolítica e o lugar da América Latina na ordem internacional.

O endurecimento sob governos conservadores nos EUA

Durante o primeiro mandato de Donald Trump, Washington adotou a linha mais dura em décadas contra Caracas. As medidas incluíram sanções financeiras generalizadas, o congelamento de ativos da PDVSA, o bloqueio de exportações e o reconhecimento de Juan Guaidó como “presidente legítimo”. Tudo isso foi acompanhado por uma retórica explícita de “derrotar o socialismo no hemisfério”.

Embora apresentadas como pressão política, as sanções atingiram sobretudo a população civil, impactando o acesso a medicamentos, a importações básicas e à própria capacidade de geração de renda do petróleo. Pesquisadores e organismos internacionais apontam que essas medidas agravaram a crise social — ainda que o governo Maduro também carregue responsabilidades internas.

A escalada de 2025 como continuidade histórica

Em 2025, a pressão subiu mais um degrau. O governo norte-americano ofereceu até US$ 50 milhões por informações que levassem à captura de Maduro, apreendeu petroleiros no Caribe e ampliou operações militares contra embarcações acusadas de ligação com o narcotráfico.

Nada disso surgiu do nada. Desde 1999, quando Chávez rompeu com a orientação pró-Washington e se aproximou de Rússia e China, a relação entrou em rota de colisão. A Venezuela passou a ser tratada não apenas como dissidente diplomática, mas como ameaça estratégica em um tabuleiro global.

América Latina: um continente em disputa

O caso venezuelano reativa uma história que o continente conhece bem. Golpes, intervenções indiretas e pressões econômicas marcaram episódios como Guatemala (1954), Chile (1973) e Nicarágua (anos 1980). A lógica foi quase sempre a mesma: impedir a emergência de governos autônomos em relação aos Estados Unidos, especialmente quando envolviam o controle de recursos naturais.

Esse padrão se insere em uma leitura crítica mais ampla sobre o lugar da América Latina no capitalismo mundial. A chamada Teoria da Dependência, formulada por intelectuais latino-americanos como Theotônio dos Santos, sustenta que a estrutura do sistema capitalista global produz relações assimétricas, nas quais países “centrais” prosperam às custas de economias “periféricas”, como as latino-americanas — e não o contrário.

Um olhar histórico mais profundo

O impacto dessa lógica imperial atravessa séculos. O uruguaio Eduardo Galeano, em As veias abertas da América Latina, sintetizou esse processo de exploração de maneira lapidar: “A comida da minoria é a fome da maioria.” Em sua obra, ele mostra como ouro, prata, açúcar, petróleo e outros recursos foram apropriados em benefício de potências externas, enquanto as populações locais permaneceram marcadas por pobreza e desigualdade.

Simón Bolívar, ainda no início do século XIX, já denunciava essa dinâmica de dominação ao afirmar, na Carta da Jamaica, que a América não poderia ser simplesmente arrastada às consequências dos conflitos europeus sem sofrer as injustiças de uma ordem internacional desigual. Esses pensamentos ecoam hoje na resistência a políticas percebidas como continuidade de formas de dominação — ainda que mais sofisticadas e institucionalizadas.

Esse legado histórico ajuda a explicar por que muitos intelectuais e movimentos sociais da região questionam narrativas que legitimam intervenções externas, lembrando que desigualdades e rupturas no caminho de um desenvolvimento autônomo têm raízes profundas no colonialismo e no neocolonialismo.

O Brasil dentro desse tabuleiro

O Brasil ocupa uma posição estratégica nesse cenário. Historicamente, sua diplomacia defendeu a não intervenção, a solução negociada de conflitos e a integração regional. No entanto, a política externa brasileira oscila conforme o governo.

Sob administrações progressistas, ganha força a defesa da soberania latino-americana e o fortalecimento de fóruns multilaterais regionais. Sob governos conservadores, tende a prevalecer o alinhamento com Washington e uma retórica anticomunista que aprofunda a polarização continental.

Assim, a crise venezuelana também funciona como espelho do próprio debate brasileiro sobre qual modelo de inserção internacional o país deseja assumir.

E os impactos para 2026 no Brasil?

O cenário eleitoral brasileiro tende a ser atravessado por três dimensões.

A primeira é simbólica. A Venezuela continuará sendo usada como referência ideológica. A direita deve reforçar narrativas de ameaça “socialista” e defesa do alinhamento aos Estados Unidos. A esquerda, por sua vez, tende a denunciar a ingerência externa e a criticar as sanções como violação de direitos humanos.

A segunda envolve o reposicionamento internacional. O próximo governo precisará decidir se o Brasil atuará como mediador regional autônomo ou se seguirá subordinado à agenda estratégica de Washington. Essa escolha repercute diretamente em comércio, energia, defesa e diplomacia.

A terceira diz respeito ao debate sobre democracia e soberania. A normalização de ações unilaterais contra governos estrangeiros abre um precedente perigoso: quem define a legitimidade de um governo? Qual é o limite da intervenção externa? Esse debate chega ao eleitorado brasileiro mediado por temas como segurança, medo e identidade política.

Muito além de Caracas x Washington

O confronto entre Estados Unidos e Venezuela simboliza algo maior: a disputa entre a autonomia latino-americana e a hegemonia geopolítica externa. A região segue desempenhando o papel de produtora de matérias-primas, mercado estratégico e reserva energética global, ao mesmo tempo em que busca formular seus próprios projetos, reduzir dependências e fortalecer instituições regionais.

Brasil e Venezuela, nesse contexto, são peças estruturais.

O conflito não se resume a Maduro, Trump ou ao petróleo. Ele revela a pergunta-chave do século XXI latino-americano: quem decide o destino da região — seus próprios povos ou interesses globais?

Inevitavelmente, essa pergunta também estará nas urnas brasileiras em 2026.