Valor Sentimental: a infância como um chão que pisamos uma vida inteira

Duas irmãs narram a complexidade presente na infância e como os traumas daquela época norteiam nossas escolhas.

Por Ana Victoria Almeida

Foto: RETRATO/DIVULGAÇÃO / OTEMPO

Sentimental Value encapsula todas as nuances da frase “a infância é um chão que pisamos a vida inteira”, da escritora Lya Luft.

Logo na abertura do filme, é possível vislumbrar o tema central da narrativa: a ruptura familiar. Somos introduzidos a uma casa.

Uma casa que atravessa gerações e que serve de morada para inúmeras memórias, mesclando o presente e o passado das irmãs Nora e Agnes.

Ao longo do filme, o espectador vai desvendando detalhes de suas lembranças mais pessoais e dolorosas, até culminar em uma cena emblemática.

As irmãs estão sentadas no chão, com as costas apoiadas na cama, após a leitura de um roteiro inspirado em eventos reais da família.

O texto foi escrito por Gustav Borg, pai das duas e um diretor renomado. No roteiro, ele descreve um suicídio cometido por sua esposa — uma tentativa que mais tarde seria repetida por sua filha mais velha, Nora.

Essa leitura funciona como um gatilho para uma reflexão profunda sobre a infância vivida pelas duas irmãs.

Uma única infância, sob o mesmo teto, mas absorvida de forma completamente distinta por Nora e Agnes.

“A gente não teve a mesma infância. Eu tive você”, diz Agnes à irmã mais velha.

Enquanto Nora encontrou dificuldades em manter relações duradouras, Agnes se casou e tornou-se mãe.

As duas foram criadas pelos mesmos pais e precisaram lidar com a ausência avassaladora das principais figuras de suas vidas.

Um roubo emocional em comum as unia: o pai estava sempre trabalhando, enquanto a mãe enfrentava questões de saúde mental.

Apesar dessa lacuna constante, a presença de Nora na vida de Agnes fez toda a diferença.

Graças à irmã mais velha, Agnes conseguiu escrever uma história alternativa para um destino que parecia já traçado.

A cena se encerra com as duas deitadas na cama — talvez o espaço mais íntimo de uma casa — abraçadas em uma espécie de colo maternal.

Ali, ambas renascem. E, desta vez, é Nora quem consegue imaginar um novo final para si mesma.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.