Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e… um orçamento modesto?

Filmes de baixo e médio orçamento vêm ganhando espaço na premiação, provando que criatividade e lucro podem andar juntos.

Por Thereza Christina

 Foto: Frederic J. Brown/AFP

Em 2024, Cord Jefferson ganhou o Academy Awards de Melhor Roteiro Adaptado por American Fiction e usou o momento para pedir que os grandes estúdios apostassem mais em filmes de menor orçamento. O discurso levantou uma série de debates sobre o espaço que produções menores recebem em Hollywood. Afinal, a maioria dos filmes de médio ou baixo custo que chegam a premiações como o Oscar costuma ser financiada por produtoras independentes, que se arriscam a apostar em novos talentos e em narrativas mais diversas.

Muito ainda pode ser discutido sobre o discurso de Jefferson. Suas palavras vão além de um simples convite à reflexão. Elas revelam uma tendência crescente no Oscar: filmes de baixo e médio orçamento vêm conquistando cada vez mais indicações e vitórias. Ainda assim, pesquisas indicam que esse fenômeno não é totalmente novo, mas sim uma evolução de um padrão que já vinha se desenhando há décadas.

De acordo com sites que reúnem dados da indústria cinematográfica, como The Numbers e IMDb, nos últimos 50 anos mais de 60% dos vencedores de Melhor Filme tiveram orçamento igual ou inferior a US$ 50 milhões. Isso não exclui grandes produções, mas evidencia uma transformação na indústria cinematográfica, no gosto do público e na valorização de histórias mais autorais e diversificadas.

Os critérios para classificar um filme como de baixo, médio ou alto orçamento podem variar dependendo da fonte. No entanto, com base nos valores divulgados pelas produções ao longo dos anos, as estimativas para cada categoria costumam ser:

  • Baixo orçamento: até US$ 20 milhões
  • Médio orçamento: entre US$ 20 milhões e US$ 100 milhões
  • Alto orçamento: acima de US$ 100 milhões

Levando em conta apenas as edições do Oscar entre 2020 e 2025, quatro dos cinco vencedores de Melhor Filme tiveram orçamento inferior a US$ 100 milhões. Em 2026, mais da metade dos indicados se enquadra nessa faixa, com O Agente Secreto sendo o de menor custo (US$ 5,36 milhões) e F1 o mais caro (US$ 300 milhões).

A tendência de premiar filmes menores também se reflete em outras categorias. Em 2024, o Oscar de Melhor Figurino foi para Poor Things, com orçamento de cerca de US$ 35 milhões. No mesmo ano, o prêmio de Melhores Efeitos Visuais foi para Godzilla Minus One, realizado com aproximadamente US$ 15 milhões.

Já a edição de 2025 foi uma das que mais se destacou pelo grande número de produções consideradas menores. Entre os destaques está Flow, animação letã com custo aproximado de US$ 4 milhões, que venceu como Melhor Animação e Melhor Filme Internacional. Outro exemplo é Anora, com orçamento de cerca de US$ 6 milhões, que se tornou o grande vencedor da noite com cinco prêmios, incluindo Melhor Filme, Melhor Montagem e Melhor Direção.

A presença recorrente de filmes menores entre indicados e vencedores sugere que há espaço para diferentes modelos de produção coexistirem — e que existe também um desejo do público por esse tipo de obra, algo que pode ser observado nas próprias bilheterias.

Por exemplo, segundo a jornalista Ashley Cullins, no artigo Hollywood’s Two-Tier Economy: A-List Pay, Mid-Budget Extinction & How to Fix It, o filme One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson, custou cerca de US$ 150 milhões e arrecadou pouco mais de US$ 200 milhões. O resultado representa um desempenho razoável para um filme classificado como +18, mas que não cobre totalmente os gastos quando se consideram também os custos de marketing e distribuição.

Já Marty Supreme, de Josh Safdie, teve um orçamento em torno de US$ 70 milhões e arrecadou mais de US$ 274 milhões, mais que o dobro do seu custo, tornando-se a maior bilheteria da produtora A24.

O mesmo pode ser dito de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, que, apesar do orçamento modesto, já arrecadou mais de US$ 17 milhões, superando com folga o valor investido.

Diante desse cenário, a fala de Cord Jefferson se mostra cada vez mais pertinente. O histórico do Academy Awards reforça sua visão de que há espaço para produções menores brilharem, conquistarem o público e, muitas vezes, gerarem retorno financeiro significativo.

Usando as próprias palavras de Jefferson, filmes de US$ 200 milhões são um risco — e nem sempre dão certo —, mas as grandes produtoras continuam dispostas a encará-lo. Talvez, então, em vez de apostar tudo em um único filme de US$ 200 milhões, seja hora de produzir 20 filmes de US$ 10 milhões cada.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.