Tigresa que mata um leão por dia
Das mais antigas da vida, o doce e amargo beijo da noite — levando a história da prostituição para a Sapucaí.
Uma homenagem merecida na maior festa do planeta: a Escola de Samba Unidos do Porto da Pedra vem para o Carnaval de 2026 com um enredo corajoso, político e necessário, que fala de uma categoria laboral muito presente na nossa sociedade há séculos, mas que nunca está no centro das narrativas: as trabalhadoras do prazer.
A escola de São Gonçalo escolheu contar essa trajetória através dos séculos — das cortes antigas às zonas portuárias, dos cabarés às esquinas digitais — e não de modo caricato, vitimista ou estereotipado, mas mostrando quem elas de fato são: parte da história, da economia e da cultura deste país.
Tigresa que mata um leão por dia — o samba fala de trabalho, sobrevivência e autonomia. Fala de mulheres que são chefes de família e seguram, com dignidade, o lugar que lhes coube por destino, necessidade e escolha. E que, mesmo assim, seguem sendo perseguidas, estigmatizadas e empurradas para o silêncio e a clandestinidade através dos séculos. Em 2026, o trabalho sexual está nos aplicativos, nos sites, nas esquinas, mas o estigma continua o mesmo.
Quando a bateria entrar, entrará levando um manifesto de memória e dignidade.
Carnaval também é disputa de narrativa. Trabalho, desejo, moral, hipocrisia e sobrevivência vão cruzar a Sapucaí este ano.
O samba-enredo diz tudo:
Dama do luar e cabaré
Quem ousa enfrentar a força da mulher?
Meu corpo, encruzilhada de mistérios
Na boca, minha língua, uma navalha
Caminho para o céu e o cemitério
Na esquina, o feitiço que gargalha
A ninfa, divindade do erudito
Libido que te leva ao infinito
Sou Geni que se libertou
Fiz um Porto da Pedra que você jogou
Eu vim de longe para lhe satisfazer
Meu ofício vem do vício que alimenta seu prazer
A preferida da realeza e do cais
Conheço o chão das promessas que o homem faz
Parceira no amor, transveste sedução
Musa do escritor, veneno e salvação
Também sou moça e de família
Mãe e filha, meu sustento vem da luta
Uma puta mulher, que sabe o que quer
Em casa, na cama, na rua
Dona de mim, vestida ou nua
O preço da vida quem sabe sou eu
Preserve seu corpo, meu bem, ao encontro do meu
Sou da chama a centelha na vermelha luz
Minha sina se assemelha à dor da Vera Cruz
Tenho a garra e a certeza
Sou o que eu queria
Tigresa que mata um leão por dia!