Por Laura Gomes

Foto: Reprodução/ National Film Board of Canada

Em um apartamento parisiense, um avô flagra sua neta tentando roubar uma pérola preciosa. Em vez de castigá-la, ele decide compartilhar seu segredo mais obscuro, transportando o espectador para as ruas frias de Montréal na virada do século 20. É com essa premissa que ‘The Girl Who Cried Pearls’ (2025), animação em stop-motion de 17 minutos dirigida por Chris Lavis e Maciek Szczerbowski, entrega uma das animações mais impressionantes deste ano, alcançando a cobiçada shortlist do Oscar 2026 e uma indicação ao Annie Awards.

A dupla canadense já é conhecida no circuito da animação independente por trabalhos autorais em stop-motion, frequentemente marcados por atmosferas melancólicas e experimentação visual. Em ‘The Girl Who Cried Pearls’ (2025), os diretores equilibram essa vocação artística com uma narrativa mais clássica, aproximando-se deliberadamente da estrutura das fábulas tradicionais.

Inspirando-se na atmosfera sombria dos contos de fadas de Hans Christian Andersen e na icônica fotografia surrealista “Lágrimas de Vidro” (1932), de Man Ray, o curta narra a história de um menino órfão que descobre uma garota solitária cujas lágrimas de tristeza se transformam em pérolas reais . Entretanto, a referência não é apenas estética. Na fotografia de Man Ray, o rosto feminino aparece coberto por lágrimas artificiais de vidro, cristalizando a dor em imagem e o filme transforma esse gesto surrealista em narrativa literal, fazendo da tristeza uma matéria preciosa.

Em entrevista à Variety, Szczerbowski confessou: “Brincamos que geralmente fazemos filmes experimentais e que o experimento desta vez era fazer algo tradicional”. Segundo ele, o desafio era “contar uma história muito específica e concisa”. O resultado é um conto de fadas sombrio sobre a fragilidade do amor e o peso das escolhas.

Coração artesanal do stop-motion

Para os apaixonados pela textura e pelo trabalho braçal do stop-motion, ‘The Girl Who Cried Pearls’ (2025) é um triunfo do fazer manual. O filme foi produzido com apoio do National Film Board of Canada, instituição pública responsável por algumas das animações mais premiadas da história do país e um dos principais polos mundiais de experimentação em técnicas artesanais.

Rompendo com práticas tradicionais da animação, a dupla de diretores recusou completamente o uso de storyboards. “Nós nunca fazemos storyboards”, afirmou Lavis ao site Deadline Hollywood. Em vez de planejar cada quadro no papel, os diretores gravaram atores reais encenando os movimentos de forma livre e instintiva para servir de base à animação.

“O momento em que trabalhamos com um ator é quando a cena realmente ganha vida e podemos brincar”, explicou Lavis à publicação. Szczerbowski complementou que essa etapa é essencial porque “a animação stop-motion é um processo tão rigoroso, tão inadequado para improvisação. A única espontaneidade e diversão que você terá é nesses momentos de trabalho com os atores”, também em entrevista ao Deadline.

O encantamento do filme está também em sua cenografia. A recriação da Montréal antiga foi feita a partir de sucatas como cerdas de aço caídas de caminhões de limpeza urbana que viraram suportes estruturais, frascos vazios de remédios e peças de casas de bonecas lotaram as prateleiras da loja de penhores, e sacos de lixo pintados foram usados para criar texturas envelhecidas e irregulares nas superfícies.

Legenda: A maquete original x o produto final Créditos: National Film Board of Canada

Mas a verdadeira mágica surgiu do que os diretores chamam de “acidentes felizes”. Quando a maquete de papelão da casa do protagonista foi esquecida na chuva e entortou, a equipe decidiu não descartá-la. O visual deformado acabou incorporado ao filme, conferindo uma melancolia inesperada ao cenário. No blog do National Film Board of Canada, os diretores explicaram a decisão: “Ficou muito melhor assim, então incorporamos as deformações ao modelo final”.

A falta de orçamento também levou a soluções criativas. Sem recursos para animar digitalmente as bocas por 17 minutos, os bonecos da linha do tempo do “passado” não movem os lábios e têm rostos pintados a óleo, lembrando santos católicos de madeira ou marionetes antigas. As emoções são transmitidas principalmente pela mímica e pela iluminação, enquanto armaduras de arame de alumínio permitem movimentos mais fluidos aos personagens.

Já os personagens do “presente” ganharam rostos de silicone com animação labial, criando um contraste visual entre a nostalgia do passado e a realidade atual.“Essa é a natureza do nosso trabalho. Pegar lixo, colar tudo, pintar com tintas baratas… e afirmar que é real. E nesse ponto, isso realmente se torna valioso”, resumiu Szczerbowski ao Cartoon Brew.

Legenda: Maquete artesanal de The Girl Who Cried Pearls Crédito: National Film Board of Canada

O preço do amor e a ilusão do valor

Todo esse capricho com os detalhes casa perfeitamente com o peso da história que o filme decide contar. No passado revelado pelo avô, ele próprio era um órfão que vagava pelo cais de Montréal no início do século 20, sobrevivendo entre prédios abandonados e restos esquecidos pela cidade.

É por uma fresta na parede de uma casa vizinha que ele passa a observar uma garota solitária, constantemente maltratada pela madrasta. À noite, quando o silêncio toma conta da casa, ela chora, e é então que o garoto descobre um milagre sombrio: suas lágrimas se transformam em pérolas.

O que começa como um segredo logo se transforma em uma tentação perigosa. Ao perceber que aquelas pequenas esferas podem tirá-lo da miséria, o menino passa a recolhê-las e vendê-las para um penhorista. Mas tudo muda quando ele se aproxima da garota e o sentimento entre os dois cresce.

Crédito: National Film Board of Canada

É aí que a história mostra sua face mais cruel. Quanto mais ele lucra com as lágrimas dela, mais difícil se torna escolher entre a riqueza e o amor. Como resumiu o diretor Chris Lavis ao Animation Scoop, a história é sobre “uma fortuna construída a partir de um crime e, talvez, a maioria das grandes fortunas seja assim”.

O desfecho dessa relação leva a uma reflexão sobre a criação de valor. Ao concluir sua história para a neta, o avô formula a ideia que define o coração da obra: “É sempre a história que dá valor a algo, apenas a história, nunca o objeto”.

Essa reflexão aparece também no próprio trabalho do stop-motion., Lavis descreveu o ofício dos animadores como a tentativa de criar vida a partir de matéria morta, uma ilusão paciente construída quadro a quadro.

“Acreditamos nisso porque precisamos acreditar em magia e amor romântico, pois a alternativa é horrível demais: um universo tão frio e insensível quanto o plástico”, disse o diretor ao Animation Scoop.

No fim, The Girl Who Cried Pearls transforma papelão, sucata e lágrimas em matéria de cinema, deixando claro que o valor das coisas está menos no objeto e mais na história que o sustenta.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.