Teyana Taylor em ‘Uma batalha após a outra’ e a complexidade da mulher negra
Teyana Taylor e Perfídia Beverly Hills abrem espaço para a representação das mulheres negras
Por Lorena Conceição

A primeira cena de One Battle After Another mostra o caminhar confiante de uma mulher, observando uma base militar. É nessa base que todas as ramificações começam a se desenhar: a obsessão de Coronel Steven J. Lockjaw, o desaparecimento de Perfídia, e o sequestro de sua filha Willa colocam Bob Ferguson em movimento para resgatá-la.
Mesmo desaparecendo visualmente da narrativa, Perfidia Beverly Hills, personagem interpretada por Teyana Taylor, continua presente ao longo de todo o filme. Sua ausência se transforma em uma narrativa à parte: as escolhas, memórias, ambições e consequências de sua trajetória conduz a história, e por vezes desperta ânsia de acessar Perfídia em sua complexidade.
O filme
‘Uma batalha após a outra’ fala sobre política, resistência, grupos revolucionários, racismo, família, escolhas e acima de tudo amor. Segundo entrevista publicada pela revista W Magazine, o diretor Paul Thomas nota as semelhanças entre a atriz e a personagem. Perfídia é descrita por ele como uma “corredora”, alguém que não consegue permanecer parada por muito tempo. Taylor compartilha esse mesmo movimento: uma artista constantemente em busca de novos desafios.
Anderson dirigiu filmes como Magnolia (1999) e Sangue negro (2007) e tem como eixo central a ideia de família: seja a família biológica ou aquela construída ao longo da vida.
Maternidade e sobrevivência
Além de atriz, Taylor, nascida no Harlem, em Nova York, é cantora e compositora há mais de duas décadas. Também é mãe de duas meninas: June, de 10 anos, e Rue, de 5.
Essa dimensão da maternidade aparece diretamente na construção de Perfídia. Seus instintos maternais complexos, que fogem do papel esperado de uma mãe, combinados com sua dedicação a convicções políticas e lutas revolucionárias, são parte do que torna a personagem marcante dentro da narrativa do filme.
Taylor descreve Perfídia como uma mulher forte e sem pedido de desculpas por quem é. Mesmo após viver uma vida marcada por ações de alto risco contra o sistema opressor, a personagem também luta para proteger seu bebê com toda a força.
A atriz relaciona essa dimensão sentimental tão complexada, retratada no filme, acerca da transição do indivíduo mulher para o ser mãe, ao peso social colocado sobre mulheres negras. Ao refletir sobre a personagem, ela aponta como muitas de suas decisões são atravessadas por sobrevivência, depressão pós-parto e pela expectativa constante de que mulheres negras sejam sempre fortes. Segundo Taylor, mulheres negras não recebem a mesma compaixão nem a mesma graça concedida a outras pessoas. Há uma expectativa social de que estejam sempre bem, mesmo quando enfrentam vulnerabilidade.

Carreira e trajetória artística
Assim como Perfídia, a artista Teyana Taylor se manifesta com uma confiança intensa. Ela é considerada uma das favoritas ao Oscar por sua atuação em One Battle After Another, estrelando ao lado de Leonardo DiCaprio, Sean Penn e Benicio del Toro.
Sua carreira começou cedo. Aos 15 anos, trabalhou como coreógrafa no videoclipe “Ring the Alarm” de Beyoncé, E logo assinou contrato com a Star Trak, selo de Pharrell Williams Ao longo de mais de uma década, lançou quatro álbuns de estúdio, mixtapes e diversos singles, incluindo “Gonna Love Me”, “Issues/Hold On” e “Bare Wit Me”. A cantora conta ainda com uma indicação ao Grammy na categoria de “Melhor álbum de R&B”
No cinema também acumulou experiências diversas. Atuou em A Thousand and One, filme que chamou atenção da crítica por sua atuação dramática; em Coming 2 America, interpretando Bopoto, filha do personagem de Wesley Snipes; e o recente filme “The Rip”, da Netflix, onde contracenou com Ben Affleck e Matt Damon.
Estereótipos da mulher negra na personagem Perfídia
Há uma série de críticas acerca das representações estereotipadas de Perfídia no filme. Entre elas a de que a Perfídia seria “muito sexual”.
Ao falar sobre isso, Taylor confronta essas leituras que frequentemente recaem sobre personagens femininas negras.
Em uma entrevista para a W Magazine, Taylor questiona essas interpretações lembrando de cenas onde Perfídia utilizou a descredibilidade e hipersexualização atribuída a ela como uma estratégia e não submissão. Como a cena em que ela aponta uma arma para a cabeça de um homem e ele a chama de “coisa fofa”.
O personagem Coronel Steven J. Lockjaw, interpretado por Sean Penn, acaba sendo manipulado por esse jogo de poder.
A visão da cantora também dialoga com a própria trajetória da atriz. Durante anos, Taylor foi frequentemente reduzida ao estereótipo da “garota negra gostosa”, uma imagem que priorizava aparência e sensualidade enquanto ignora outras dimensões de sua carreira.
Teyana Taylor e o discurso sobre mulheres negras
Durante a premiação do Globo de Ouro de 2025, Teyana ganhou o prêmio de Melhor atriz coadjuvante. Muito surpresa por ter ganhado, a atriz disse quase não ter escrito o discurso por não acreditar que levaria. No momento da entrega do prêmio, Taylor se dirigiu diretamente a mulheres negras presentes na premiação, reafirmando tudo que sua carreira expressou até aqui: ser a mulher que quer ser.
Ela afirmou:
“Para minhas irmãs e meninas negras indicadas esta noite: nossa delicadeza não é um problema. Nossa profundidade não é excessiva. Nossa luz não precisa de permissão para brilhar. Pertencemos a todos os lugares em que entramos. Nossos sonhos merecem espaço.”
‘Uma batalha após a outra‘ insere, de maneira sutil, representações complexas sobre mulheres negras e como essas imagens podem escapar de estereótipos, abrindo espaço para discussões sobre personagens mais densas, contraditórias e humanas.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.