Foto: Victor Jucá

Por Dani Lima

Há um slogan que segue a campanha de O Agente Secreto rumo ao Oscar que diz: Take a Stand, algo como “tome uma posição”, no português. Mais do que uma frase de marketing, o lema sintetiza algo que o próprio filme defende: o cinema não existe no vácuo. Ele nasce de contextos históricos, conflitos políticos e disputas simbólicas. E fingir neutralidade diante disso é, muitas vezes, apenas outra forma de escolher um lado.A escolha do slogan também dialoga com como foi desenvolvida a própria campanha. Em entrevistas, debates e eventos internacionais, o diretor Kleber Mendonça Filho e o ator Wagner Moura sempre reiteraram que o filme não é apenas um thriller político ambientado na ditadura brasileira, mas uma reflexão sobre memória, autoritarismo e o risco de esquecer a história.

Foto: Victor Jucá

Ambientado no Recife de 1977, o longa acompanha um professor perseguido pelo regime militar enquanto tenta sobreviver em um país marcado por vigilância e violência institucional.

A falsa neutralidade

Existe uma expectativa curiosa em torno da arte contemporânea: a de que ela seja universal, equilibrada, neutra. Que fale “dos dois lados”, que não se exponha ou incomode. Mas neutralidade, no campo da arte, muitas vezes é apenas uma forma elegante de evitar conflito.

A história do cinema mostra o contrário. Filmes como Zona de Interesse, Anatomia de uma Queda ou o documentário No Other Land mostram que o cinema contemporâneo continua disputando narrativas políticas, assim como antes fizeram obras como Faça a Coisa Certa ou Cidade de Deus, que ousaram confrontar estruturas de poder, sejam elas políticas, sociais, raciais ou de gênero, tendo êxito em bilheteria e análises especializadas. Não existe subversão sem crítica. E não existe crítica quando tudo é tratado com a mesma distância segura.

A arte não nasce da acomodação, mas do atrito e do pensar.

Uma campanha que também toma posição

A própria campanha de O Agente Secreto reforça essa ideia. Durante a corrida do Oscar, Kleber Mendonça e Wagner Moura mantiveram um discurso claro sobre o papel político do cinema e sobre como o filme dialoga com feridas ainda abertas na democracia brasileira.

Wagner, historicamente vocal em defesa da democracia e crítico de governos autoritários, já enfrentou ataques políticos e dificuldades institucionais em projetos anteriores por causa de suas posições públicas. Kleber também carrega um histórico de posicionamento político dentro e fora do cinema, incluindo protestos públicos e críticas a retrocessos democráticos no Brasil.

Assumir essa postura durante uma campanha internacional, que via de regra é marcada por discursos neutros e cuidadosamente calculados, é, por si só, uma escolha. Uma que ecoa, inclusive, o próprio slogan do filme.

Nesse sentido, a estratégia lembra o que aconteceu na temporada passada, quando Fernanda Torres também conduziu sua campanha internacional defendendo abertamente o papel político do cinema brasileiro e a importância de preservar a memória histórica.

Subversão não combina com silêncio

A arte não defende uma perspectiva para “doutrinar” quem a absorve, mas porque reconhece, dessa maneira, algo fundamental: toda narrativa parte de um ponto de vista. O problema não é se posicionar, mas sim, covardemente emoldurar sua obra como se ela não tivesse um ponto de partida e uma razão de ser.

A pretensa isenção muitas vezes funciona como um mecanismo de diluição. Um cinema que evita dizer algo de forma clara, que tenta agradar todos os lados, que transforma conflitos políticos em metáforas vazias, acaba produzindo exatamente o oposto do que a arte promete: repetição, conforto e manutenção do status quo. A subversão exige risco e este, exige sustentar uma escolha.

Take a stand

Foto: Divulgação/ Neon.

Talvez por isso o lema da campanha de O Agente Secreto seja tão preciso. “Take a stand” não é apenas um convite à escolha do votante, embora sirva brilhantemente como o “chacoalho” definitivo para motivá-los, mas soa também como um chamado ao próprio cinema, e a quem faz cinema.

Num momento em que muitas narrativas preferem o conforto da ambiguidade estratégica, assumir posição, embora possa parecer arriscado, paradoxalmente é exatamente o que mantém a arte viva.

Não há subversão na isenção. E um cinema que se importa, é aquele que entende que, diante do mundo, ficar em cima do muro é sim assumir uma posição; mas a mais conveniente, contraproducente e anti clímax possível.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.