Sorry, I don’t speak English: o que torna um filme internacional?
No Oscar, filmes internacionais não podem ser em inglês. Mas além da língua, o que os define?
Por Maria Eduarda Rodrigues

O Agente Secreto (Brasil), Valor Sentimental (Noruega), Foi Apenas um Acidente (França), Sirãt (Espanha) e A Voz de Hind Rajab (Tunísia) não compartilham muitas características, mas têm algo em comum que não passa batido: todos foram indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026, na esperança de levar a estatueta para casa.
O Oscar já é consagrado como uma das maiores premiações do cinema, funcionando não apenas como entretenimento, mas também como espaço de crítica e de definição de tendências, apesar das frequentes polêmicas sobre a forma como produções são indicadas e premiadas em determinadas categorias.
Dentre essas categorias está a já citada “Melhor Filme Internacional”, que atrai olhares curiosos para filmes que não são produzidos em sua totalidade na língua inglesa e que costumam trazer aspectos de outras culturas, escapando do cerco hollywoodiano e estadunidense. Para ser indicado nessa categoria, o filme precisa atender a alguns critérios: deve ser um longa-metragem de mais de 40 minutos, produzido fora dos Estados Unidos, com a maioria dos diálogos (mais de 50%) em língua não inglesa, e ter sido lançado comercialmente no país de origem por pelo menos sete dias consecutivos dentro do período de elegibilidade.
Mas, para além da língua, o que torna um filme internacional? Entende-se aqui que essa reflexão parte de uma perspectiva subjetiva: para o Oscar já existem critérios delimitados — que, inclusive, devem permanecer em constante observação e atualização. Ainda assim, é possível observar que um filme, para além de seus diálogos (quando há diálogos), pode demonstrar seu distanciamento de uma “americanização” por meio de elementos como direção de arte e figurino.
Mesmo que esses aspectos não sejam, necessariamente, critérios que levem um filme de língua não inglesa a ser cotado para a categoria de Filme Internacional.
O sociólogo John B. Thompson observa a cultura como um conjunto de práticas, conhecimentos, crenças, valores, tradições e artefatos que caracterizam uma sociedade ou grupo social. Sendo assim, entendemos que a língua é, sem dúvida alguma, um signo importante para o entendimento de uma cultura, mas que, em sua composição, há também artefatos e tradições que não apenas coexistem com ela, como também a complementam.
Com isso, apresentamos a seguir algumas características dos filmes considerados “internacionais” pelo Oscar que, além da língua, expõem seus “estrangeirismos” por meio de diversos outros artifícios.
O Agente Secreto: a menção à lenda urbana da “perna cabeluda”, conhecida no folclore popular brasileiro, insere no filme um elemento do imaginário local. A referência aproxima a narrativa de tradições orais e da cultura popular.
Valor Sentimental: a estética minimalista, com iluminação natural e cenários domésticos sóbrios, reflete a tradição do drama escandinavo. O figurino discreto reforça a intimidade das relações familiares.
Foi Apenas um Acidente: o figurino cotidiano, aliado a cabelos e barbas comuns entre os homens da região, reforça a ambientação local.
Sirãt: carrega costumes e trejeitos na movimentação de seus personagens, que demonstram uma construção cultural, mesmo que personagens caminhem por locais distantes de sua origem.
The Voice of Hind Rajab: o uso de vestimentas tradicionais árabes e do hijab marca imediatamente a identidade cultural das personagens.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.