‘Sinners’, vampiros e embranquecimento cultural: quem suga a cultura negra?

Como o filme de Ryan Coogler usa o terror para denunciar o sistema que consome a cultura negra, mas não o negro

Por Luana Araújo

Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Durante décadas, o vampiro habitou castelos europeus e imaginários aristocráticos, como nas páginas góticas de Drácula ou nas telas expressionistas de Nosferatu. Em Sinners, porém, essa criatura clássica do terror atravessa um Atlântico simbólico e encontra o sul dos Estados Unidos, um território marcado pela história da população negra e pelas raízes do Blues.

Foto: Divulgação/ Warner Bros. Pictures

Mais do que uma simples ambientação histórica, o longa dirigido por Ryan Coogler coloca o gênero no centro da narrativa. Ao aproximar vampiros desse universo musical, o filme abre espaço para uma leitura simbólica: a de sistemas que, historicamente, se alimentaram da criatividade e da cultura negra, transformando expressões culturais em mercadoria.

Sinners estabelece sua premissa por meio da figura do griô, guardião de uma sabedoria ancestral. Na tradição da África Ocidental, o músico-narrador carrega um talento que beira o sobrenatural — uma arte capaz de curar a comunidade, mas que, justamente por sua luz, acaba atraindo a escuridão.

Aqui, o enredo realiza uma inversão fundamental: o mal não reside na música, muito menos no “pacto na encruzilhada”, tão recorrente nos mitos do blues. Ele vem de fora.

Essa mudança de foco transforma o vampirismo em metáfora para as armadilhas reais historicamente armadas contra os corpos negros. O talento do músico torna-se a energia vital que o sistema deseja extrair, enquanto despreza sistematicamente a humanidade de quem a produz.

Uma das passagens mais potentes do filme, protagonizado por Michael B. Jordan, sintetiza essa tensão. Ao avistarem prisioneiros negros submetidos a trabalhos forçados — imagem que denuncia a persistência das correntes da escravidão no sistema carcerário — ouvimos o relato de músicos encarcerados sob falsos pretextos apenas para entreter convidados brancos.

Essa é a síntese do vampirismo cultural: a elite busca o êxtase do ritmo para preencher o vazio de sua própria esterilidade criativa, mas mantém os criadores sob rédea curta — acorrentados ou invisibilizados. Como o personagem Slim bem pontua: “Os brancos gostam de blues. Eles só não gostam de quem o faz”.

Ao conectar o sobrenatural ao contexto do Sul segregado, Coogler revela que essas “feras” não habitam apenas castelos. Assim, Sinners desloca o debate sobre apropriação cultural do campo estético para o terreno da sobrevivência — uma questão de vida ou morte.

Essa “mordida” inicial no blues serviu de laboratório para o que viria a seguir na história da música. O surgimento do rock and roll é talvez o exemplo mais nítido dessa transfusão: um gênero que pulsava com o sangue de pioneiros como Sister Rosetta Tharpe e Chuck Berry, mas que só encontrou aceitação global quando passou a ganhar o rosto de artistas brancos.

Fotos: Reprodução/Antelope e Reprodução/Facebook

Esse processo de branqueamento e extrativismo não parou no século passado; ele se modernizou e se expandiu para outras expressões. Vemos o mesmo vampirismo na moda, que desfila símbolos ancestrais como “tendência”, nas coreografias que viralizam sem dar crédito aos criadores das periferias e no mercado que lucra bilhões com a estética do Hip Hop enquanto ignora as políticas de morte que cercam os corpos que originaram o movimento.

Se o sistema é o vampiro, o público muitas vezes atua como o cúmplice que assiste ao espetáculo do embranquecimento cultural enquanto ignora o esvaziamento político e social que fundamentam aquela arte. 

Sinners nos lembra que o verdadeiro horror não reside na imortalidade de um monstro, mas na persistência de uma estrutura que insiste em se alimentar de quem, há séculos, dá ritmo, alma e cor ao mundo, enquanto tenta apagá-los da própria história.

No fim, a pergunta que o filme nos obriga a encarar é mais assustadora que qualquer criatura sobrenatural: em que medida o nosso consumo cultural também está ajudando a afiar esses dentes?

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.