Se o terror revela os medos da sociedade, por que o Oscar ainda tem medo do gênero?
Mesmo potente para refletir traumas e crises sociais, o terror ainda luta por reconhecimento no Oscar
Por Bárbara Aragão
Mesmo sendo um dos gêneros mais potentes para refletir traumas coletivos, crises sociais e ansiedades culturais, o terror historicamente ocupa um espaço marginal na maior premiação do cinema.
O terror é sem dúvida um dos gêneros cinematográficos mais populares e emblemáticos entre as produções atuais, trazendo narrativas viscerais e um recorte brutal da realidade, porém é recorrente nas grandes premiações a ideia de que as obras são menores, sendo um discurso contraditório quando lembramos que os longas são justamente os que melhor representam e traduzem os medos de uma sociedade. Monstros, possessões ou fantasmas raramente falam apenas do sobrenatural, quase sempre são metáforas para problemas maiores e reais: temas como traumas, violências, questões de gênero e desigualdade estão cada vez mais presentes, deixando de ser algo exclusivo de criaturas assustadoras e sustos vazios, de modo que o gênero horror passa a tratar de pautas reais, recorrentes e invisibilizadas pela sociedade.
Diferentemente de muitos dramas tradicionais, o terror não busca conforto; ele confronta o público com aquilo que a sociedade prefere não encarar, o que é evitado a todo custo. Violência, morte, medos e traumas são retratados de forma simbólica e muitas vezes viscerais. Em outras palavras, ele expõe as sombras do nosso tempo, e talvez seja justamente por isso que ele ainda encontre dificuldade para ocupar o espaço de prestígio que merece. O Oscar possui um histórico que ignora o horror em suas diversas edições, algo que perdura até os dias atuais, não valorizando a potência e a simbologia desse tipo de produção. Não é como se não existissem obras dignas das grandes premiações, mas o preconceito e o medo de encarar certas situações espelhadas na realidade permanecem ano após ano entre a elite e os votantes.

Historicamente, a Academia vem privilegiando filmes considerados ”prestigiados”, como relatos biográficos ou dramas históricos e etc. O terror, por outro lado, ficou associado a entretenimento sem profundidade, um rótulo que acabou criando uma barreira simbólica dentro da indústria, onde muitas vezes é taxado como “menos sério”, mesmo quando apresenta grande sofisticação estética, narrativa e técnica.
Ao longo das décadas, o reconhecimento do gênero na maior premiação do cinema, o Oscar, foi quase nulo. Casos como “O Exorcista” (1973) e “O silêncio dos Inocentes” (1991) figuram como exceções dentro de um histórico de pouca presença nas principais categorias, raramente levando o prêmio de melhor filme, mas conquistando melhor atuação, melhor roteiro adaptado ou caracterização.
Neste contexto, produções que geram grande impacto cultural, nem sempre são devidamente valorizadas, como aconteceu na edição do Oscar de 2025 com “A Substância” (2024), body horror da Diretora Coralie Fargeat, que retrata de forma intensa o etarismo vivido na indústria do entretenimento. Indicado em todas as principais categorias da noite, obteve o prêmio de melhor maquiagem e cabelo.

Outro exemplo é “Corra” (2017) de Jordan Peele, conquistando a modalidade de Melhor Roteiro Original. O horror é usado para expor tensões raciais, neoescravidão e exploração do povo negro. Peele nos presenteia em sua filmografia com longas repletos de representatividade e reviravoltas inesperadas, sendo atualmente um dos nomes mais populares e consagrados do gênero, reconhecido por produzir cenas fortes e monólogos memoráveis. Mesmo assim, suas produções ficam constantemente de fora dos tapetes vermelhos e de premiações ao redor do mundo, mostrando mais uma vez que não existe lugar ao sol para os amantes do terror.
O paradoxo se faz presente nessas situações, quando muitas das obras cinematográficas estão entre as obras mais politicamente e socialmente incisivas do cinema contemporâneo. Portanto, o horror não apenas assusta, mas interpreta o mundo e suas maiores problemáticas, gerando incômodo e um enfrentamento de temas difíceis sem escrúpulos. Mas a dúvida permanece: se o terror revela tão claramente os medos da sociedade, será que o Oscar evita premiá-lo porque também prefere não olhar para esses medos de frente?
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.