Red Pill: a fábrica digital de homens que odeiam mulheres
O crescimento do movimento red pill nas redes expõe a naturalização da misoginia em um país que já convive com índices alarmantes de feminicídio e violência de gênero.
O Brasil enfrenta hoje uma ameaça profundamente perigosa: a organização da misoginia nas redes sociais.
O chamado movimento red pill, que se espalha em plataformas digitais por meio de vídeos, grupos e comunidades, não é apenas um conjunto de opiniões machistas. Trata-se de uma ideologia que transforma o ódio contra mulheres em identidade política e cultural, mobilizando jovens para uma visão de mundo baseada na dominação masculina, no desprezo pelas mulheres e na naturalização da violência.
Essa radicalização digital cresce no mesmo momento em que os números da violência contra mulheres seguem alarmantes no Brasil.
Em 2025, o país registrou cerca de 1.568 feminicídios, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública — um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Isso significa que quase quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil simplesmente por serem mulheres.
Os dados revelam também que a maioria desses crimes acontece dentro de casa e que mais de 97% dos feminicídios são cometidos por homens, frequentemente companheiros ou ex-companheiros das vítimas.
A violência sexual também permanece em níveis assustadores. O Brasil registrou 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável em 2024, o maior número da série histórica. Isso representa uma vítima de violência sexual a cada seis minutos no país.
E esses números ainda estão longe de revelar toda a dimensão do problema. Especialistas alertam que a subnotificação é enorme, o que significa que a violência real pode ser muito maior.
O Brasil continua sendo um dos países mais perigosos do mundo para mulheres e meninas.
Quando analisamos o ambiente digital, encontramos um elemento cada vez mais presente nesse cenário: a normalização da misoginia.
Em comunidades red pill, jovens são ensinados que mulheres são manipuladoras por natureza, que o feminismo é um inimigo a ser combatido e que a violência masculina pode ser uma resposta legítima à autonomia feminina.
Em muitos desses espaços, a recusa de uma mulher — o simples direito de dizer “não” — é transformada em motivo de humilhação, perseguição ou vingança.
A misoginia deixa de ser apenas preconceito e passa a funcionar como um sistema de radicalização masculina.
Essas comunidades operam como verdadeiros laboratórios de violência simbólica, onde o ódio é incentivado, normalizado e até celebrado. É nesse ambiente que muitos jovens passam a consumir conteúdos que relativizam o estupro, enaltecem agressores e incentivam o assédio contra mulheres.
Não podemos tratar isso como apenas “debate na internet”.
O que está em jogo é a formação de uma cultura que legitima a violência contra mulheres.
Nenhum crime nasce do nada. Antes da agressão física, antes do feminicídio, existe sempre um terreno simbólico onde a violência foi naturalizada. A misoginia digital cumpre exatamente esse papel.
Por isso, precisamos ter coragem de dizer o óbvio: a misoginia organizada também precisa ser enfrentada como um problema de segurança pública e de direitos humanos.
Assim como o Brasil avançou na criminalização do racismo e da homofobia, é urgente discutir a responsabilização e a criminalização da misoginia e dos discursos de ódio contra mulheres — especialmente quando promovidos de forma organizada nas redes sociais.
A liberdade de expressão não pode servir de escudo para quem incentiva a violência.
Defender a responsabilização dessas redes de ódio é defender a vida das mulheres.
Como deputada federal, tenho defendido que o enfrentamento à violência de gênero precisa avançar para além das políticas de proteção às vítimas. É necessário enfrentar também as estruturas culturais que alimentam essa violência — e hoje parte dessas estruturas está sendo construída dentro da internet.
Proteger meninas e mulheres brasileiras significa impedir que novas gerações sejam recrutadas por ideologias que transformam o ódio em identidade.
A pergunta que o país precisa responder é simples:
vamos continuar tratando a misoginia como piada enquanto mulheres seguem sendo assassinadas?
A misoginia mata.
E enfrentar o discurso de ódio contra mulheres é uma tarefa urgente para quem acredita em democracia, igualdade e justiça.
Porque quando uma mulher diz não, é não.
E nenhuma sociedade democrática pode permitir que essa palavra seja respondida com violência.