Recife no Oscar: capital pernambucana vira personagem em O Agente Secreto
Recife ganha papel central em O Agente Secreto e transforma ruas, pontes e prédios históricos em personagens da narrativa.
Por Isabela Alencar

Carnaval com muito frevo, perna cabeluda, camisa do Santa Cruz, cinema São Luiz e um vocabulário singularmente cheio de “pirraça”e “raparigagem”. No thriller político O Agente Secreto, dirigido pelo cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, Recife não aparece apenas como cenário. A cidade assume papel dramático na narrativa, com suas ruas históricas, pontes e edifícios transformados em peças fundamentais de uma trama ambientada em 1977, durante a ditadura militar. Mais do que pano de fundo, a capital pernambucana se impõe como personagem vivo, influenciando o ritmo, a linguagem, o clima e a tensão da história protagonizada por Wagner Moura.
Ao longo do filme, a paisagem urbana se integra à narrativa de forma orgânica. Ruas do Centro, construções históricas e avenidas movimentadas ajudam a construir uma atmosfera de vigilância e suspense.Recife participa da trama: observa, esconde e revela. Essa presença da cidade ganha força justamente pela escolha de locações reais e figurantes locais que ajudam a reconstruir o ambiente urbano da década de 1970 e aproximam o público da geografia afetiva do Recife. É possível ver, ouvir e sentir a cidade nos pequenos detalhes.
Locações e identidade recifense ganham papel na narrativa
Grande parte da força visual do filme vem da escolha de cenários espalhados pela cidade, que funcionam para recriar o Recife da década de 70 e trazer elementos narrativos que reforçam o clima urbano da história através da utilização de espaços simbólicos da capital pernambucana.
O histórico Cinema São Luiz, no bairro da Boa Vista, aparece em momentos marcantes da narrativa. Inaugurado em 1952, o cinema é um dos mais tradicionais do país e representa a forte relação da cidade e de Kleber Mendonça Filho com a cultura cinematográfica.
Outro ponto emblemático é o Beco do Fotógrafo, corredor comercial conhecido no centro da cidade. O espaço aparece como área de circulação do personagem interpretado por Gabriel Leone em uma cena de tensão e perseguição, contribuindo para retratar o cotidiano urbano do Recife.
A paisagem histórica também é reforçada pela presença das pontes Duarte Coelho e 6 de Março, duas tradicionais travessias do Recife. Ligando áreas centrais da cidade, elas evidenciam a relação histórica da capital com seus rios e com o fluxo constante de pessoas que atravessam diariamente esses caminhos urbanos.
Outro espaço que aparece na narrativa é a Praça Chora Menino, localizada no bairro da Boa Vista. A praça, conhecida por sua atmosfera típica do centro recifense, é citada de forma direta e afetuosa pelo personagem interpretado por Wagner Moura, provocando um imediato reconhecimento do público local e um sentimento de pertencimento entre os recifenses na sala de cinema.
Entre os edifícios que aparecem no filme está o Edifício Trianon, localizado na Avenida Guararapes. A arquitetura modernista do prédio ajuda a compor a estética urbana que marca a narrativa. Já o Edifício Ofir, número 68, no bairro do Espinheiro, na Zona Norte do Recife, foi escolhido por Kleber Mendonça Filho para representar a nova casa do protagonista em seu retorno à cidade.
Outro cenário marcante é o Parque 13 de Maio. Em uma das cenas mais comentadas do filme, o espaço público serve de ambientação para uma referência à famosa lenda urbana pernambucana da Perna Cabeluda, história popular que circulou por décadas no imaginário recifense. A sequência reforça o diálogo do filme com a cultura local e com o universo de narrativas que fazem parte da memória coletiva da cidade.
A produção também utilizou espaços da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), incluindo áreas do Centro de Ciências da Saúde e do Centro de Artes e Comunicação, ampliando o retrato da cidade para além do Centro Histórico.
Recife em cena: locações reais que ganham papel na narrativa
Além das paisagens urbanas, O Agente Secreto também incorpora elementos da identidade cultural do Recife por meio da linguagem e do figurino dos personagens. O vocabulário típico da cidade, com expressões e sotaques característicos, ajuda a construir um ambiente autêntico e aproxima o público da atmosfera cotidiana da capital pernambucana com a simples, irreverente e icônica frase: “raparigou ou não raparigou?”.
Essa presença cultural também se manifesta nas roupas usadas ao longo do filme. Em algumas cenas, figurinos remetem diretamente ao imaginário popular da cidade, como camisas de times locais, entre elas a do Santa Cruz Futebol Clube, e referências ao carnaval tradicional do Recife, com a tradicional camisa amarela do bloco Pitombeira dos Quatro Cantos.
Os detalhes funcionam como marcas visuais e simbólicas do cotidiano recifense. Mais do que simples elementos de cena, essas referências reforçam a ambientação da história e contribuem para transformar Recife em um espaço vivo dentro da narrativa, onde cultura, memória e identidade local atravessam cada quadro do filme.
A cidade no cinema de Kleber Mendonça Filho
A presença de Recife como personagem não é novidade na obra de Kleber Mendonça Filho. Ao longo de sua filmografia, o diretor trouxe uma relação profunda entre narrativa e espaço urbano, transformando a capital pernambucana em elemento central de suas histórias.
Em O Som ao Redor (2012), ambientado em uma rua de classe média da Zona Sul, o cotidiano aparentemente banal do bairro revela tensões sociais, desigualdades e conflitos silenciosos que atravessam a vida urbana.
Já em Aquarius (2016), o edifício onde vive a protagonista se torna símbolo da disputa entre memória e especulação imobiliária, refletindo as transformações aceleradas da cidade.
Mais recentemente, no documentário Retratos Fantasmas (2023), o diretor voltou seu olhar para o centro histórico do Recife e para a memória afetiva dos antigos cinemas de rua, explorando como os espaços urbanos guardam histórias pessoais e coletivas. Nesse percurso, Recife aparece não apenas como paisagem, mas como território de memória, conflito e identidade. Em O Agente Secreto, essa relação se intensifica: entre pontes, ruas e edifícios históricos, a cidade se transforma em testemunha silenciosa de uma trama marcada pela vigilância, pelo medo e pelas tensões políticas do Brasil dos anos 1970.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.