Foto: A24/Divulgação

Por Laura Gomes

O cinema tem explorado cada vez mais o esgotamento feminino em suas produções, indo da famosa female rage à não tão comentada exaustão materna, tema que agora é abraçado em ‘Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria’ (2025). Com uma indicação ao Oscar 2026, o filme captura a asfixia emocional da maternidade atípica de forma brutal e a transforma em uma descida conceitual ao caos.

Acompanhamos Linda (Rose Byrne), uma psicóloga à beira do colapso nervoso, enquanto ela é forçada a morar provisoriamente em um motel barato após o teto de seu apartamento desmoronar. Ela também vive uma maternidade atípica e cuida sozinha de uma filha com uma doença grave, que se alimenta por meio de uma sonda. No filme, o marido de Linda é apenas uma voz ausente ao telefone que está sempre viajando a trabalho. Além disso, ela divide a rotina desses dias com os pacientes de seu consultório de psicologia.

A diretora Mary Bronstein baseou seu segundo longa-metragem em um profundo trauma pessoal. Ela viveu meses em um motel enquanto sua filha fazia um longo tratamento de saúde em Nova Iorque. “A semente da ideia começou de uma experiência real que tive com minha filha há cerca de oito anos, quando ela tinha sete anos”, revelou Mary durante coletiva virtual para votantes do Globo de Ouro. A obra nasceu dessa angústia muito real e transformadora.

Esteticamente, o filme é construído para sufocar e angustiar o espectador. Usando a técnica narrativa in media res, onde o público é inserido diretamente na história de Linda e sua filha durante uma sessão com um terapeuta hostil. Outro elemento que chama atenção ao longo de toda a obra é que a câmera praticamente não desgruda do rosto de Linda durante quase toda a projeção. A escolha cria uma experiência visual totalmente claustrofóbica e tensa, fazendo o telespectador sentir o peso do mundo esmagando a protagonista a cada segundo.

Outra decisão radical da direção é nunca revelar o rosto da criança doente. Bronstein explicou que a empatia do público migra imediatamente para o sofrimento infantil. Ao esconder a menina, ela obriga o público a focar na dor da mãe. 

“Eu precisava que o público se identificasse com Linda, senão eu o perderia muito rápido. Precisava eliminar essa possibilidade para que o público fosse forçado a lidar apenas com Linda”, observou ela em entrevista ao Next Best Picture.

A performance de Rose Byrne é o pilar que sustenta a narrativa. Vencedora do prêmio de Melhor Atriz em Filme de Comédia no Globo de Ouro 2026, sua atuação é visceral e crua, abraçando o lado mais sombrio de Linda. Ela transita perfeitamente entre o humor ácido e o desespero absoluto, criando um fluxo interpretativo que não teme mergulhar nas emoções negativas que a personagem sente em relação à maternidade.

“As pessoas ficam desconfortáveis com mães que não são típicas ou que estão descontentes. Se uma mulher não é amável, ela não é palatável”, afirma Rose Byrne em entrevista à Harper’s Bazaar. “Os homens, por sua vez, podem fazer o que quiserem na tela e isso é ok; frequentemente ganham prêmios por isso.”

Diferentemente do que o cinema costuma apresentar — uma maternidade romantizada e idealizada — ‘Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria’ (2025) e a atuação de Byrne rompem com essa tradição ao oferecer uma reflexão crua sobre essa experiência.

O tom do filme é de uma inquietação triste, enraizada em um terror existencial inevitável, pois vem de dentro. O longa é uma das poucas experiências visuais que capturam a sensação de uma crise psicológica, recriando um sentimento quase impossível de descrever. O resultado é um filme misterioso e surreal, com momentos marcantes de humor ácido que permeiam sua atmosfera de pavor.

‘Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria’ (2025) é um exame comovente do trabalho feminino e do luto que acompanha essa transição, quando a vida pessoal passa a ser secundária em prol dos cuidados com o outro. Alguns dos momentos mais decisivos e substanciais do filme se concentram na profunda solidão de Linda e em suas tentativas desesperadas de ser honesta.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.