Quando o Oscar transforma o cinema em espetáculo midiático
A premiação que não trata apenas de cinema, mas também de mídia, cultura e teoria
Por Isabelli Gelinski Plantico

Neste domingo (15) que se aproxima, o público volta a vidrar os olhares para a maior premiação cinematográfica do mundo. Em sua 98° edição, Academy Awards reúne críticos, fãs, cinéfilos, atrizes e diretores que fazem o cinema acontecer. Todavia, ao decorrer dos anos a premiação também passou a despertar questionamentos: Será que ainda se premiam as obras por seu valor artístico ou a data se transformou apenas em um grande espetáculo midiático, a fim de gerar lucro e visibilidade?
A reflexão dialoga com as ideias apresentadas no livro ‘A Sociedade do Espetáculo’, publicado em 1967 por Guy Debord. Mesmo depois de quase seis décadas após seu lançamento, a obra continua sendo mencionada em artigos de jornais, palestras e comentários culturais. No livro, Debord crítica o capitalismo moderno; onde a vida real é substituída por representações visuais e imagens, transformando relações sociais em mercadorias e fazendo com que a aparência seja mais importante do que o próprio ser.
Oscar como evento midiático global
Antes mesmo da cerimônia, o Academy Awards já mobiliza, conquista e prende a atenção de um grande público por meio da mídia, instigado pela pergunta que se repete a cada nova edição: quem será indicado e quem ficará de fora?
Durante o anúncio dos indicados, previsões da crítica, campanha dos estúdios e debate nas redes sociais passam a alimentar expectativas sobre os possíveis vencedores. Já no dia da premiação, a cobertura se intensifica: transmissões ao vivo, comentaristas em tempo real e recortes que rapidamente circulam por toda internet, transformando a cerimônia em uma espécie de reality, acompanhado muito antes de sua realização final.
O Oscar como fenômeno de geração conteúdo
Como dito acima, transmissões ao vivo, comentaristas em tempo real e diversos recortes que rapidamente circulam por toda internet transformam a cerimônia em um grande momento midiático. O mundo inteiro passa a ter fácil acesso ao evento para acompanhá-lo em tempo real. O que reflete na lógica do espetáculo, discutida por Guy Debord: acontecimentos culturais passam a ser transformados em conteúdo, reproduzidos e consumidos continuamente pelo público.
Um caso emblemático aconteceu durante o Oscar 2025, onde o apresentador Conan O’Brien em tom de sátira, proferiu piadas ao longa brasileiro, vencedor da categoria Melhor Filme Internacional de 2025:
“O filme ‘Ainda estou aqui’ fala de uma mulher que tem que viver sozinha depois do marido desaparecer. Minha esposa falou que adorou a história e queria que acontecesse com ela”, disse o comediante. A fala polêmica rapidamente repercutiu nas redes sociais, e gerou debates entre espectadores e críticos, sobretudo vale relembrar que o filme aborda o apagamento de histórias de pessoas que viveram sob a ditadura militar brasileira.

Mas afinal, arte ou espetáculo?
Diante desse cenário, surge uma questão recorrente: o Oscar celebra a arte cinematográfica ou o espetáculo da indústria cultural?
A teoria da sociedade do espetáculo, proposta por Guy Debord, sugere que em sociedades mediadas pela comunicação e pela imagem, os eventos culturais tendem a ser transformados em grandes experiências de consumo coletivo. Nesse sentido, o Oscar se apresenta como um exemplo emblemático de como arte, indústria e mídia se entrelaçam na construção de narrativas públicas sobre o sucesso, prestígio e reconhecimento.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.