Por que quase todo cinema nasce nas capitais? O desafio de produzir audiovisual no interior

A produção audiovisual ainda se concentra nas capitais. No interior, fazer cinema exige resistência.

Por Chris Zelglia

Foto: Adoro cinema

O cinema do Brasil tem ganhado cada vez mais espaço no cenário mundial. Nossos filmes são exibidos em festivais, disponibilizados em plataformas de streaming e, por vezes, recebem prêmios importantes. Contudo, por trás dessa ascensão, existe uma desigualdade que ainda afeta profundamente a área audiovisual no país: o acúmulo da produção nas metrópoles e grandes centros urbanos.

No Brasil, a maior parte das empresas de produção, escolas de capacitação, editais e recursos técnicos se concentra em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Essa concentração faz com que produzir filmes fora desses centros demande enfrentar dificuldades adicionais que vão além da própria criação artística.

O acúmulo do audiovisual nas metrópoles é fruto de um processo que vem de longa data. Os grandes centros urbanos passaram a concentrar empresas de produção, estúdios, equipamentos técnicos, profissionais especializados e canais de distribuição.

Essa estrutura consolidou um ciclo difícil de ser quebrado: onde há mais recursos, há mais produções; onde há mais produções, há mais profissionais e chances de formação.

Enquanto isso, diversas cidades do interior permanecem com pouca infraestrutura cultural para sustentar uma cadeia produtiva do audiovisual.

Outro fator crucial nessa desigualdade é a forma como os recursos de financiamento são distribuídos. Mesmo existindo políticas públicas voltadas para o audiovisual, grande parte dos projetos escolhidos ainda se concentra em regiões que já possuem empresas de produção estruturadas e equipes profissionais estabelecidas.

Isso acontece porque participar de editais exige uma série de requisitos: experiência técnica, estrutura de produção, contatos profissionais e capacidade de elaborar projetos complexos.

Produtores culturais do interior frequentemente enfrentam uma dificuldade dupla: além de criar seus projetos, precisam praticamente construir do zero as condições para que esses projetos sejam realizados.

Para muitos realizadores fora das metrópoles, concorrer a editais públicos ou programas de financiamento pode se tornar um processo injusto.

Entre as dificuldades mais comuns estão:

– falta de formação técnica em audiovisual;

– dificuldade de acesso a contatos profissionais da área;

– falta de empresas de produção estruturadas na região;

– pouco acesso à informação sobre políticas culturais;

Sem um apoio institucional consistente, muitos realizadores acabam produzindo de forma independente, com orçamentos baixos e equipes reduzidas.

Produzir cinema no interior passa a exigir não apenas talento artístico, mas também capacidade de articulação e resistência cultural.

Apesar dessas dificuldades, uma parcela importante da produção audiovisual fora das metrópoles tem surgido por meio de iniciativas coletivas.

Coletivos culturais, grupos comunitários e produtores independentes têm criado redes locais de colaboração para viabilizar projetos, organizar mostras de cinema e promover capacitação audiovisual em diversos territórios. Essas iniciativas ajudam a construir novos caminhos para o cinema brasileiro, ampliando as vozes que participam da produção cultural.

Em muitos casos, esses grupos funcionam como verdadeiros laboratórios criativos, formando profissionais e fortalecendo uma relação direta entre cinema e território.

Uma das contribuições mais importantes da produção audiovisual no interior está na diversidade de histórias que ela possibilita revelar.

As obras cinematográficas que emergem fora dos grandes polos urbanos oferecem visões singulares da nossa nação. Cenas campestres, cantos regionais, costumes e tensões da vida local ganham destaque nas histórias contadas.

Esse fenômeno enriquece a diversidade cultural do cinema nacional e quebra o padrão de retratar o Brasil unicamente sob a ótica de alguns grandes centros.

Promover a descentralização cultural é sinônimo de democratizar o cinema.

Impulsionar o setor audiovisual no interior transcende o âmbito regional; significa ampliar o acesso à criação cultural e assegurar que distintos locais narrem seus próprios relatos.

Em um país onde as disparidades regionais são marcantes, direcionar políticas culturais para fora dos centros tradicionais implica democratizar também a elaboração das narrativas exibidas no cinema.

Afinal, se a produção de imagens se concentra em poucos lugares, corre-se o risco de uma parcela considerável do país permanecer obscurecida nas representações audiovisuais.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.