Para Além do Eixo: O Cinema Brasileiro que pode ser impulsionado pelas indicações do Oscar
Cinema brasileiro no Oscar: a força de Recife e Juiz de Fora prova que o olhar soberano e universal é descentralizado.
Por Laura Coutinho Felz

Falta menos de uma semana para que o Dolby Theatre, em Los Angeles, receba a 98ª cerimônia do Academy Awards. Mas, para o cinema brasileiro, o tapete vermelho já foi estendido — e o caminho até ele passou longe do eixo Rio–São Paulo.
Com quatro indicações históricas de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e a presença de Adolpho Veloso disputando a categoria de Melhor Fotografia, o Brasil chega à maior vitrine da indústria não mais como convidado exótico, mas como potência audiovisual.
O “clima de Copa do Mundo” em torno do momento histórico — somado à indicação inédita de Wagner Moura a Melhor Ator — não representa apenas a consagração de uma atuação excepcional. É também a confirmação do esgotamento de uma Hollywood que, por décadas, enxergou o Brasil apenas através das lentes da chamada “pornografia da pobreza”.
Agora, o cinema brasileiro chega representado por um thriller político tenso, urbano, genuinamente nordestino — e, justamente por isso, universal.
Esse deslocamento da potência audiovisual para o Nordeste, no entanto, não aconteceu de forma repentina. Para Juliano Domingues, professor e pesquisador da pós-graduação em Indústrias Criativas da Universidade Católica de Pernambuco, o sucesso de O Agente Secreto é o ápice de uma longa trajetória de articulação cultural e políticas públicas.
Ele destaca que mecanismos criados sob o guarda-chuva da Agência Nacional do Cinema — com destaque para o Fundo Setorial do Audiovisual e para os editais de regionalização — funcionam como engrenagens fundamentais para deslocar a exclusividade da produção do eixo Sudeste do país.
Mas o dinheiro, por si só, não faz cinema. A injeção de recursos encontrou em Recife um terreno já fértil.
“Recife tem uma tradição de produção audiovisual e um pioneirismo no Brasil”, destaca Juliano, lembrando do Movimento Super-8 e da efervescência dos cineclubes e cinemas de rua. Essa cultura forjou, ao longo de gerações, não apenas realizadores, mas também um público qualificado e crítico.
Do marco histórico de O Baile Perfumado até a projeção global de cineastas como Gabriel Mascaro e o próprio Kleber Mendonça Filho, formou-se uma massa crítica capaz de produzir obras guiadas pelo mérito narrativo — e não pela urgência do retorno comercial.
No entanto, a grande provocação que o Oscar de 2026 impõe vai além da economia. Ela toca diretamente na soberania da nossa identidade cultural.
Quando questionado sobre a possibilidade de furar a bolha internacional sem perder a essência regional, Juliano Domingues reflete sobre o próprio conceito de “regionalismo”, revelando mecanismos de colonialidade que ainda determinam o que é — ou não — considerado universal.
O professor toma emprestada uma reflexão de Kleber Mendonça Filho para escancarar a hipocrisia geográfica da indústria: “Quando a gente assiste a um filme do Woody Allen, que se passa em Nova York, ele é extremamente provinciano e regional”.
E, no entanto, New York City é lida como “o mundo”, enquanto Recife ainda é tratado como “margem”.
“É aquela coisa do entendimento de que Chico Science & Nação Zumbi é música regional”, compara Juliano. “Não, não é música regional — é música brasileira.”
A assimetria do olhar se repete no cinema. O pesquisador questiona, de forma direta: “Por que Walter Salles não é lido como regional, mas Kleber Mendonça é?”
Essa percepção distorcida — que insiste em colocar o Nordeste na prateleira do “exótico”, enquanto o eixo Rio–São Paulo é tratado como o padrão — é justamente o que O Agente Secreto desafia ao disputar prêmios como o BAFTA Awards e o Oscar.
A indicação não é apenas um troféu. É a afirmação de que o Brasil também tem o direito de ser visto como universal.

Se a jornada pernambucana serve de bússola para a descolonização da tela, o eco desse sucesso atinge em cheio cidades que, embora próximas geograficamente dos grandes centros, lutam para não serem engolidas por eles.
Em Juiz de Fora, a cerca de 160 km do Rio de Janeiro, a proximidade com a capital fluminense deixa de ser apenas uma rota de fuga e passa a ser um lembrete da própria potência. Escrever a partir da Zona da Mata mineira em 2026 é compreender que a nossa verdadeira “estatueta” foi conquistada antes mesmo do tapete vermelho: na insistência de que o interior do Brasil pare de apenas consumir imagens e passe também a produzi-las.
O Primeiro Plano – Festival de Cinema de Juiz de Fora, há mais de duas décadas, funciona como um chão de fábrica e primeira tela para diversos realizadores que enfrentam o dilema histórico da migração compulsória. O sucesso de um thriller nordestino no Academy Awards valida a tese que o festival defende desde a sua fundação: a de que o sotaque regional não é um limite, mas justamente aquilo que torna as produções autênticas e, consequentemente, universais.
A recente injeção de recursos por meio de leis de fomento, como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), deu fôlego para que a produção juiz-forana saísse do papel. Ainda assim, os desafios permanecem.
O exemplo de Recife, citado pelo professor Juliano Domingues, mostra que o fomento e o apoio precisam ser contínuos para que se forme uma indústria sólida. Em Juiz de Fora, o festival atua justamente nessa brecha, impedindo que talentos locais sejam invisibilizados pela sombra das metrópoles vizinhas. Ao fazê-lo, prova que as narrativas não precisam de tradução para serem compreendidas em qualquer lugar do mundo.
No próximo dia 15, quando os envelopes forem abertos no Dolby Theatre, os resultados envolvendo Wagner Moura, Adolpho Veloso ou O Agente Secreto terão um peso político maior que o próprio prêmio.
Uma nova vitória brasileira em 2026 representaria o reconhecimento definitivo de que o Sul Global possui um cinema que o Norte já não consegue ignorar.
Seja nas ruas de Recife ou sob a neblina insistente de Juiz de Fora, a lição desta 98ª cerimônia é clara: a nossa verdadeira estatueta de ouro é o direito de contar nossas próprias histórias — com as nossas próprias regras.
O Oscar pode ser uma vitrine. Mas o olhar soberano, descentralizado e dono de si, é inteiramente brasileiro.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.