Por Dríade Aguiar

Divulgação Oscar

Pra começar: essa é minha coluna, logo, minha opinião — e somente ela importa.

Então, eis aqui o meu balanço dos filmes que concorrem à categoria de Melhor Filme do Oscar deste ano. Nada foi escrito a partir de um olhar técnico, e sim a partir de um olhar socioafetivo, como todas as colunas que escrevi até então. Pra piorar, a maior parte dessas “críticas” foi escrita ao longo do ano, conforme fui assistindo, então também foi o momento do auto-revisionismo.

Agora, com certa distância, ficou claro que a paternidade foi o grande tema do ano. Em Uma Batalha Após a Outra, um pai obstinado muda sua vida para salvar a filha; em Pecadores, a relação paternal dos gêmeos com Sammie também é um ponto importante da rota; em Sonhos de Trem, o luto do pai é o coração da trama; e em O Agente Secreto vemos Waguinho querer tanto ser pai que está disposto a colocar sua vida em risco. Em Frankenstein, homens finalmente entendem o que é se tornar um pai; em Valor Sentimental, o pai acha que está fazendo uma grande mousse; em Marty Supreme, a paternidade é usada como prêmio de consolação; F1 é o típico filme de pai; e com certeza em Bugônia os personagens masculinos tiveram péssimos pais.

Ah! Pra coroar tudo, em Hamnet a mãe se prova melhor que o pai.

Ou seja, o resultado final é a máxima:
pai, quando é ausente é trauma; quando tá presente é traumatismo.

Faz sentido, já que aparentemente os EUA podem até ter se tornado Great Again, mas certamente não viraram uma MÃE. Nos últimos meses, Los Angeles e, na verdade, todo o país, debateram imigração, fronteiras e identidade nacional, enquanto assistiam (e protestavam) contra o ICE, que continua sendo usado para desmontar famílias. Neste passo, não me surpreende que os filmes mais interessantes da corrida venham justamente de fora dos Estados Unidos, em mais uma simbólica travessia de fronteira sem precisar de visto. E lá, recebem uma recepção à la americana, já que o esforço recente da Academia para ampliar a presença internacional entre os indicados parece muito mais simbólico do que estrutural. Do Brasil, por exemplo, eles querem engajamento. É tipo um pai aparecendo pra tirar foto pras redes sociais.

Em tempos em que o Irã se retira da Copa por conta dos conflitos internacionais protagonizados pelos Estados Unidos, o cinema continua sendo um dos poucos espaços onde esse imaginário ainda é disputado, mas sem cair no papinho de pai ausente. Nesse quesito, O Agente Secreto dá aulas com catiguria: de entrevista em entrevista, a equipe se posiciona em prol da democracia, pula o frevo, faz propaganda da culinária local e continua, indiscutivelmente, brasileiro.

Posto isso, vamos começar pelo que ninguém perguntou:

Meu Top 10  – Melhor filme

01. ‘O Agente Secreto’ (Neon) BR

02. ‘Pecadores’ (Warner Bros.) US

03. ‘Hamnet’ (Searchlight) GB

04. ‘Sonhos de Trem’ (Netflix) US

05. ‘Marty Supreme’ (A24) US

06. ‘Valor Sentimental’ (Neon) NO

07. ‘Frankenstein’ (Netflix) US

08. ‘Bugonia’ (Searchlight) US

09. ‘Uma Batalha Após a Outra’ (Warner Bros.) US

10. F1’ (Apple) US

Reviews por filme:

 Uma Batalha Após a Outra

Assistido: 07/01/2026 | Nota 3,5 / 5

“Ela tinha que ter a porra de um celular” – minha review imediata lembra que adolescentes estão sempre piorando tudo. Me ative a isso porque eu não tava acreditando que aquela salada de pautas não explicadas estava mesmo sendo considerada como um dos melhores filmes do ano. Passado um tempo entendi que é o máximo que a esquerda americana consegue articular sobre imigração e paternidade. 

 Pecadores

Assistido: 04/-07/2025 | Nota: 4 / 5

“As partes em que eu estava de olhos abertos foram ótimas”, sim, foi isso que escrevi assim que assisti o filme. Eu não sou afeita a filmes de terror, e quanto digo isso quero dizer que sou cagona. Como o filme foi vendido como terror no primeiro momento, eu passei ele todo esperando o pior. E talvez por isso saí com a sensação estranha de não ter entendido o hype. Dois meses depois me acertou em cheio. 

Hamnet

Assistido: 09/01/2026 | Nota: 4 / 5

Em uma temporada onde a paternidade está aflorada nos temas dos filmes indicados, ter um centrado na maternidade e nos poderes ancestrais das mulheres é transbordador. Me fez chorar, entender melhor meu pai e perdoar a minha mãe. Jessy merece o mundo.

O Agente Secreto

ASsistido: 18/05/2025 | Nota: 4 / 5

“Terror, fantasia, humor e burocracia se misturam para contar a história de um homem que tenta escapar do seu passado e que se depara com uma família de refugiados disfuncional. E uma perna” – foi o que escrevi em maio na estreia mundial em Cannes, além de uma resenha mais extensa sobre a ocupação brasileira na cidade francesa. Sem clubismo, é o meu top 01 do ano.

Marty Supreme

Assistido: 08/01/2026 | Nota: 3 / 5

Se o zé carioca fosse americano, ele seria marty supreme. Me senti assistindo um episódio de 2h30 de the bear, mas ao invés de comida, o que tá sendo servido é o saque. Sexo na grama, bolinhas laranjas, bunda do Timóteo, grávidas no fogo cruzado, EUA x Japão, tem tanto elemento nesse filme e mesmo assim, ele termina num encontro com a paternidade. Bom filme pra quem gosta de homens brancos metidos a besta. Não é o meu caso. 

Valor Sentimental

Assistido: 06/01/2026 | Nota 3,5 / 4

Sempre que houver um pai fazendo o mínimo, estarei lá para observar. E ficarei contra ele”, essa foi a minha review automática assim que terminei o filme. Continuo nessa linha – de todos os internacionais, é o plot que menos me comove, mas não é o pior dos 5 na categoria (Sirat, estou olhando pra você). Entendo porque gostar, mas não é pra mim. Que bom que a arte é subjetiva. 

 Sonhos de Trem

Assistido: 23/01/2026 | Nota 4 /5

O espetáculo da tristeza.”às vezes parece que vou ser consumido pela tristeza, às vezes parece que aconteceu com outra pessoa”. Como alguém que também está passando por um processo de luto, me tocou profundamente. Finalmente um pai (meio) decente nessa lista. 

Fotografia melancolicamente transportadora, lindo ver feat do Adolpho com a AnaVitória. 

Frankenstein

Assistido: 11/01/2026 | Nota 3,5 /5

Caso onde achei que não ia gostar, mas me surpreendi. Guillermo sabe construir mundos como ninguém e as histórias escolhidas sempre me levam pro encantamento de uma criança. Curou feridas infantis e abriu novas. Me fez ver Jacob com outros olhos. Até lembrar dele em Ventos Uivantes. 

F1

Assistido: 18/06/2025 | Nota 3 /5

Surpreendentemente bom.” – disse eu no passado, mas só porque eu esperava que fosse bem ruim.  O Filme me fez sentir como se “I’m just a boy” no bom sentido. Tudo bem existir um filme com carros velozes e com aquela única “frase feminista”. Mas não era filme pra tá aqui nessa lista não. 

Bugonia

Assistido: 12/01/2026 | Nota 3 / 5

Apesar do plot twist não ser realmente um twist, é interessante ver o que cada diretor pensa sobre os males contemporâneos e como os homens são o conduíte do fim do mundo. Para alguém como eu, que morre de medo de ETs, a anatomia no final foi definitivamente uma surpresa. Tirando isso, é mais um exemplo de uma leve derrapada na tentativa de retratar um assunto que seja minimamente não conservador.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.