Os ecos de Gaza no Oscar: ‘Você não pode bloquear uma voz’
O Oscar 2026 destaca narrativas palestinas, mas indicados ainda enfrentam barreiras injustas.
Por Giovanna Freisinger

A cerimônia do Oscar reúne, um domingo ao ano, a atenção de milhões de pessoas ao redor do mundo em um único palco. Corajosos são os que levam à maior noite do Cinema histórias para as quais o resto do mundo prefere fechar os olhos, e que o forçam a encarar o inaceitável. Em 2026, a Academia celebra produções que retratam a luta palestina contra o genocídio, mas os artistas indicados ainda enfrentam intimidações de quem não poupa armas para manter os horrores da realidade longe dos holofotes.
No ano passado, poucas semanas após No Other Land vencer o Oscar de Melhor Documentário com seu retrato da destruição da Cisjordânia ocupada, o co-diretor do filme, Hamdan Ballal foi atacado por colonos israelenses e levado a uma base militar, onde passou a noite sob agressões antes de ser libertado ferido. Este ano, o quadro pouco mudou. Um dos protagonistas do indicado a Melhor Filme Internacional, A Voz de Hind Rajab, foi impedido de comparecer à premiação neste domingo, 15, devido a proibição da entrada de pessoas palestinas nos Estados Unidos
O ator Motaz Malhees revelou a informação nesta quinta-feira, 12, em uma publicação em seu perfil no Instagram. “Dói, mas essa é a verdade: você pode bloquear um passaporte, mas não bloquear uma voz”. No pronunciamento, ele reafirmou o orgulho pela participação no filme e deixou uma mensagem de esperança. “Nossa história é maior do que qualquer barreira, e será ouvida”, disse.

Representando a Tunísia na corrida pela categoria internacional do Oscar, A Voz De Hind Rajab reconstitui as reais e devastadoras últimas horas de Hind Rajab, uma menina palestina de seis anos, assassinada pelas Forças de Defesa de Israel (FDI) na Faixa de Gaza, em 2024. A cineasta Kaouther Ben Hania incorpora gravações originais da ligação entre a criança e o departamento humanitário do Crescente Vermelho Palestino. Na chamada, pode-se ouvir os pedidos de socorro de Hind, nesse momento sozinha, presa em um carro sob fogo cruzado e cercada pelos corpos de seus parentes.
A diretora opta por manter a narrativa restrita ao ambiente único da central telefônica do Crescente Vermelho. O longa acompanha os esforços dos voluntários, a apenas 80 km de distância da voz infantil na outra linha, mas de mãos atadas. Durante três horas, a equipe manteve contato com a menina enquanto tentava, de todas as formas, enviar um resgate pelos caminhos bloqueados de Gaza sob ataque.
“O tanque está perto de mim. Está se movendo.”
“Por favor não me deixe, eu tenho medo do escuro”.
“Por favor, venham até mim, por favor, venham. Estou com medo.”
A voz real da pequena Hind confronta o espectador com sua própria impotência, espelhada na agonia dos personagens que correm contra o tempo para salvar alguém que o resto do mundo parece ter abandonado. O público acompanha, sem ter o que fazer, o desenrolar de uma tragédia anunciada, de desfecho tão previsível quanto injustificável.

A 98ª edição do Oscar também prestigia dois curta-metragens que chamam a atenção para a dura Questão Palestina. Indicado a Melhor Documentário em Curta-Metragem, Children No More: We’re and We Were Gone, de Hilla Medalia, acompanha o protesto organizado por mulheres que levam a uma praça pública em Tel Aviv fotos de crianças mortas em Gaza. O filme registra o crescimento do grupo (e, consequentemente, do número de imagens de crianças vitimizadas), seguido da reação incômoda de cidadãos israelenses, que as veem como traidoras.
Em Butcher’s Stain, de Meyer Levinson-Blount, indicado à Melhor Live-Action em Curta-Metragem, Samir, um açougueiro árabe, é acusado injustamente de rasgar cartazes de reféns israelenses expostos no supermercado em que trabalha, em Tel Aviv. O protagonista luta para provar sua inocência e manter o emprego frente a um preconceito cotidiano e avassalador, que parece determinado a torná-lo culpado.
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Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.