Os discursos políticos de Kleber, Panahi e Paul na corrida para o Oscar 2026

Enquanto há diretores trazendo discursos de seus filmes para a realidade, outros decidem ignorar o contexto de suas obras.

Por Felipe Lopes Basilichi

Foto: Folha de São Paulo

Durante a temporada de premiações do Oscar 2026, uma frase de Paul Thomas Anderson chamou atenção após sua vitória no BAFTA 2026: “Não sou político, sou cineasta”. A declaração repercutiu negativamente nas redes sociais, sobretudo por surgir em um momento de crise na política dos Estados Unidos e por ter vindo do diretor de “Uma Batalha Após a Outra”, filme que ficou conhecido por seu teor político.

Legenda: Paul Thomas Anderson e Leonardo DiCaprio durante as gravações de “Uma Batalha Após a Outra”

A fala de Paul Thomas Anderson surge em um momento em que diversos diretores parecem recuar quando o assunto é política. O Festival Internacional de Cinema de Berlim ilustra bem esse movimento: logo no início do evento, o diretor Wim Wenders declarou que os cineastas “devem fazer o trabalho das pessoas, não o dos políticos”, comentário que gerou debates durante o festival.

Wenders não foi o único a evitar o tema em Berlim. Outros nomes presentes no evento, como Michelle Yeoh, Neil Patrick Harris e Ethan Hawke, também preferiram se esquivar de discussões políticas em entrevistas e aparições públicas.

Uma das respostas mais críticas à fala de Wenders veio do diretor brasileiro Kleber Mendonça Filho, que rebateu: “A política faz parte de nossas vidas… Se você fala de sociedade, você fala de política”. Ao longo de toda a temporada de premiações, Kleber retomou em diferentes discursos temas ligados à memória e à política, reforçando a dimensão histórica e social presente em seu cinema.

Legenda: Jafar Panahi com a Palma de Ouro após a vitória em Cannes

Em O Agente Secreto é fácil perceber por que esses temas aparecem com tanta força nos discursos de Kleber Mendonça Filho. O filme se passa durante a ditadura militar brasileira e acompanha a história de Armando, que vive escondido porque sua vida está em risco. Ao mesmo tempo, a narrativa destaca a importância dos arquivos e da preservação da memória para compreender a história de um país.

Outro diretor que se tornou um exemplo emblemático dessa relação entre cinema e política é o iraniano Jafar Panahi. Autor de Foi Apenas Um Acidente, Panahi tem se consolidado como um símbolo de resistência no cinema mundial. Sua trajetória voltou ao centro do debate após sua vitória no Festival de Cannes, quando, pouco depois da premiação, foi condenado pela Justiça do Irã em razão de seu trabalho cinematográfico.

Legenda: Jafar Panahi com a Palma de Ouro após a vitória em Cannes

“Foi Apenas um Acidente” é um filme sobre um homem que, ao acreditar ter reencontrado seu antigo torturador, decide planejar uma vingança — mas os acontecimentos acabam indo além do que ele imaginava. Mesmo trabalhando de forma clandestina, Panahi insiste, ao longo de mais de 30 anos de carreira, em dirigir filmes que tocam nas feridas sociais e políticas de seu país.

Os discursos de Kleber e de Panahi lembram uma frase escrita por Wim Wenders em outros tempos: “Todo filme é político. Os mais políticos são aqueles que fingem não ser”.

Ignorar as questões políticas do mundo ao redor — ou fingir que elas não existem — também é uma forma de tomar decisões políticas. Em tempos de crises, reafirmar aquilo que um filme defende torna-se ainda mais necessário.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.