O que ‘Valor Sentimental’ e ‘Frankenstein’ ensinam sobre a complexidade das relações familiares
Indicados ao Oscar 2026, os longas discutem temáticas como abandono, trauma e os impactos da ausência paterna

Por Luana Brusiano
O cinema e a literatura com frequência desconstroem a ideia de família perfeita e o conceito deturpado de tradicional. Nos longas “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, e “Frankenstein”, de Guillermo del Toro, ambos indicados ao Oscar 2026, os laços familiares são abordados a partir de uma ótica nua e crua e apresentados como construções frágeis.
Os conflitos familiares atravessam séculos de narrativas, e nos longas fica evidente que família nem sempre é um espaço seguro. Pais também erram, abandonam e provocam sequelas emocionais duradouras que acabam por influenciar as demais relações das pessoas afetadas.
Nessas duas produções, a figura paterna assume um papel central nas tensões vivenciadas. Em “Frankenstein”, o cientista Victor Frankenstein cria a vida, mas rejeita sua própria criação. A criatura nasce sem orientação, afeto e pertencimento. Esse abandono inicial molda toda a sua trajetória e conduta.
Já ao longo da trama de “Valor Sentimental”, o drama familiar é esmiuçado através de uma perspectiva realista e cotidiana. As tensões entre pai e filhas são percebidas a partir de memórias, ressentimentos e expectativas nunca correspondidas. O passado familiar tem grande peso sobre as personagens e influencia diretamente suas escolhas no presente e na maneira de se relacionar.
Daddy issues e abandono paterno
Daddy issues, expressão em inglês que pode ser traduzida como “problemas com o pai”, é usada para descrever traços emocionais que são herdados de relações paternas conflituosas. O termo ganhou popularidade nas redes sociais para explicar comportamentos associados à ausência ou à presença disfuncional da figura paterna.
No filme “Frankenstein” essa dinâmica é evidenciada em quase todos os momentos. Victor Frankenstein concretiza seu maior desejo ao criar vida e desafiar a morte. A forma como Victor trata a criatura reflete a maneira como ele mesmo foi educado pelo pai, de forma rígida e cruel. Ao tentar ensiná-la, o criador reage com agressividade quando a criatura não corresponde às suas expectativas. Em determinado momento, chega até mesmo a tentar destruir sua criação, que consegue sobreviver, mas passa a viver isolada e em constante busca de pertencimento.

Já em “Valor Sentimental”, o abandono paterno aparece em um contexto mais íntimo, especialmente representado pela linha tênue entre a memória e a realidade de um lar marcado por lembranças. O sentimento de rejeição atravessa a vida das personagens Nora e Agnes, influencia suas relações pessoais e molda suas identidades, mas de maneira distinta.
O pai, que ia e vinha enquanto as filhas eram criadas pela mãe, desaparece por alguns anos e quando as filhas perdem a figura materna, retorna de forma instável, na tentativa de retomar seu espaço, mas evidenciando o ciclo de frustração já vivido e conhecido.
A autora e ativista Bell Hooks discute essa dinâmica a partir da filosofia da parentalidade, base primordial para a formação emocional do indivíduo. Segundo ela, as primeiras experiências familiares são fundamentais para a compreensão do que é amor e afeto e influencia diretamente na maneira de agir e de perceber as relações humanas.
No livro “Tudo Sobre o Amor: Novas Visões”, Hooks apresenta o amor como criador das condições de nutrição para o crescimento de outra pessoa. Ele envolve o cuidado e o compromisso de criar espaços seguros para que outra pessoa seja capaz de se desenvolver. Quando essa segurança é negligenciada, as consequências podem atravessar toda a vida adulta. Assim sendo, as duas obras cinematográficas mostram como relações familiares marcadas pela ausência ou pela negligência deixam marcas profundas na formação da identidade.
Responsabilidade de quem cria
O ato de criar vida levanta uma discussão central sobre responsabilidade em “Frankenstein”. Victor Frankenstein dá origem à criatura, mas se recusa a assumir o papel de cuidador. A obra mostra que gerar uma vida não significa, necessariamente, estar preparado para lidar com as consequências dessa criação.

A mesma reflexão é suscitada em “Valor Sentimental”. A tentativa tardia do pai de se reaproximar das filhas é vista com desconfiança e levanta discussões sobre responsabilidade emocional. Os dois longas ressaltam que a parentalidade não se limita ao vínculo biológico.
O trauma familiar e seus efeitos colaterais
Relações familiares instáveis deixam marcas que vão além do ambiente doméstico. As experiências vividas na infância definem, mesmo que de maneira inconsciente, a forma como os indivíduos constroem suas relações afetivas ao longo da vida. Ao abordar o trauma familiar em sua forma mais pura, “Frankenstein” e “Valor Sentimental” desconstroem a ideia de relações familiares como um modelo idealizado. As duas narrativas mostram que a família pode representar conflito e frustração, e não somente segurança.
No núcleo dessas tensões, os filmes reforçam a importância da presença e do afeto na construção de vínculos familiares saudáveis e consistentes. Mais do que histórias sobre pais e filhos, as obras discutem como experiências de abandono moldam identidades e influenciam a forma como cada pessoa se permite (ou não) relacionar com o mundo.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.