O que o interior do Rio de Janeiro revela sobre cultura, pertencimento e Carnaval
O Carnaval no interior expõe pertencimento cultural e desigualdade de investimento.
Por Chris Zelglia
Geralmente, ao falarmos do Carnaval do Rio de Janeiro, nossa imaginação se fixa na capital: na famosa avenida, nas transmissões televisivas e na projeção internacional do espetáculo. No entanto, para além desse foco, o interior do estado preserva outras formas de viver e produzir o Carnaval — menos visíveis, mas fundamentais para a identidade cultural local.
No interior, o Carnaval acontece sobretudo em comunidade. Blocos de rua, bandas da região e eventos culturais são organizados por pessoas próximas: moradores, associações e grupos informais. A festa não se apresenta apenas como evento pontual, mas como parte da vida cotidiana, reunindo memórias, narrativas compartilhadas e o sentimento de pertencimento ao território.
Isso revela algo central: o Carnaval no interior depende menos das grandes estruturas da indústria cultural e mais da participação coletiva. Muitas vezes, é difícil distinguir quem organiza e quem apenas assiste. Essa mistura fortalece vínculos sociais e a sensação de união, mas também evidencia limites concretos, como a escassez de recursos, a dificuldade de acesso a políticas públicas e o reconhecimento instável.
Há uma hierarquia cultural que interfere diretamente em quem recebe financiamento, visibilidade e valorização simbólica. Municípios menores enfrentam a concentração de investimentos nas capitais, entraves burocráticos e a ausência de políticas continuadas. Ainda assim, seguem produzindo cultura com autonomia, inventividade e enraizamento local.
Essa produção não deve ser lida como resistência romântica ou resignada, mas como afirmação de existência cultural. Sustentar tradições carnavalescas em contextos de pouca infraestrutura é também reivindicar lugar na narrativa cultural do estado.
O pertencimento, nesse processo, é decisivo. Participar do Carnaval local não é apenas celebrar, mas ocupar as ruas, fortalecer relações entre gerações e reativar memórias coletivas. A festa funciona como gesto de reconhecimento do território: quem participa afirma que aquele espaço importa.
O interior, contudo, também expõe questões fundamentais:
Quem decide quais manifestações recebem apoio?
Quais territórios são priorizados pelas políticas culturais?
Quais histórias ganham destaque e quais permanecem à margem?
Observar o Carnaval fora da capital evidencia que a cultura não é neutra nem apenas entretenimento: ela atravessa desigualdades regionais, disputas políticas e diferentes formas de organização social.
Talvez a principal lição do interior do Rio de Janeiro seja esta: o Carnaval não é homogêneo. Ele se molda às condições sociais, econômicas e políticas de cada localidade. Reconhecer essa diversidade é condição para políticas culturais mais equitativas e para narrativas menos centralizadas nas grandes cidades.
O interior não é um espaço periférico da cultura.
É onde identidade, memória e pertencimento são produzidos ativamente — ainda que nem sempre recebam o reconhecimento que merecem.