O que ‘O Agente Secreto’ pode dizer sobre a ditadura?

O convite de Kleber Mendonça Filho a entender a História e a ditadura como complexas e incompletas

Por Cultura de Lamparina

Foto: Rolling Stone

Premiado em Cannes, no Globo de Ouro e candidato a quatro categorias do Oscar, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, é um convite a compreender a História — e a ditadura civil-militar brasileira (1964–1985) — como processos complexos e incompletos para quem tenta estudá-los.

Neste artigo, vamos falar das inspirações reais do filme e, afinal, do que ele pode revelar sobre a ditadura.

A história do filme

Dividido em duas épocas diferentes, o longa acompanha simultaneamente a trajetória de um homem que se vê envolvido em uma teia de conspirações e perseguições durante a ditadura militar e a de uma jovem que investiga o passado para entender o que aconteceu com ele.

Primeiro conhecemos Marcelo, a identidade falsa de Armando, vivido por Wagner Moura, sem sabermos nada sobre sua origem nem se existe alguma relação direta com o título do filme: O Agente Secreto.

Será que ele era um agente secreto da Central Intelligence Agency? Afinal, o Brasil já teve agentes estrangeiros infiltrados no país. Ou seria um agente duplo que trabalhava tanto para a resistência armada quanto para o Exército, como ocorreu com Cabo Anselmo? Todas essas dúvidas pairam durante a primeira metade do longa.

Em meio a isso tudo, acompanhamos também o estranho caso de uma perna encontrada dentro da barriga de um tubarão — um episódio que a polícia tenta fazer desaparecer a qualquer custo, inclusive recorrendo ao imaginário popular e ao folclore da Perna Cabeluda.

Sem que percebamos de imediato, o diretor e roteirista do filme vai espalhando pistas e indícios de que existe algo maior por trás dessa história.

As inspirações reais

Foto: Tok de História

É importante deixar claro: a história de Armando e de Fátima (Alice Carvalho), que o investiga, é fictícia. Mas poderia não ser, já que pessoas com codinomes falsos realmente existiram durante a ditadura e, até hoje, pesquisadores investigam seus rastros em busca de respostas sobre esse período traumático da nossa história.

A perna encontrada na barriga de um tubarão condensa três elementos importantes: a alta concentração de tubarões em Recife, onde se passa a história; a prática de ocultação de cadáveres utilizada pelo regime civil-militar; e a manipulação dos fatos promovida pela repressão e pela censura da época. E, claro, o folclore da Perna Cabeluda realmente existe e é bastante conhecido pela população da região.

O pistoleiro que persegue Armando também tem inspiração em um assassino real. Tanto que Kaiony Venâncio, intérprete de Vilmar no filme, contou em entrevista ao podcast Os Nordestinos pelo Mundo que o diretor Kleber Mendonça Filho lhe mostrou uma reportagem do Globo Repórter sobre o chamado “pistoleiro de Serra Talhada”, também chamado Vilmar, e pediu que ele imitasse até o jeito de andar do assassino.

Mas talvez a maior inspiração de Mendonça Filho — e o verdadeiro tema central do filme — seja aquilo que ele define logo na abertura da obra: a pirraça.

A pirraça

Carlo Ginzburg, historiador italiano e um dos pioneiros do método de análise conhecido como micro-história, escreveu em seu ensaio Sinais: raízes de um paradigma indiciário duas ideias que ajudam a entender o que — e principalmente como — Kleber Mendonça Filho fala sobre a ditadura. São elas: complexidade e paradigma indiciário.

À primeira vista, essas palavras podem parecer difíceis, mas não são tanto assim. Podemos pensar a complexidade como um tecido que, visto de longe, parece ser apenas uma coisa: um tecido. Mas, dependendo de como olhamos, percebemos que ele é formado por várias linhas entrelaçadas, cada uma seguindo uma direção diferente.

Já o paradigma indiciário se relaciona com a análise por indícios. Indícios podem ser comparados a provas de um crime, sintomas de uma doença ou até detalhes aparentemente pequenos em uma pintura. O problema que Ginzburg identifica é que, na História, raramente conseguimos reunir todos os elementos de um acontecimento. O que encontramos são vestígios. A História seria, então, a ciência que reúne esses sinais dispersos e tenta costurá-los para dar sentido a um fato.

Mas a História é viva — e convive com um problema permanente: o luto. Nunca teremos todos os indícios. E, quando se trata de um período traumático, marcado por apagamentos e acobertamentos como a ditadura, o que muitas vezes encontramos é a ausência dentro da própria presença.

O Agente Secreto funciona exatamente nessa perspectiva. Não é por acaso que a narrativa se divide em dois tempos: a época da ditadura, marcada pela perseguição sofrida por Armando, e o presente, em que Fátima pesquisa sua trajetória. Essa divisão explicita a distância temporal entre o historiador e o acontecimento histórico.

Fátima não consegue reunir todos os fatos da história de Armando. Ainda assim, descobre algo que o governo tentou esconder sobre o passado dele — e, ao fazer isso, passa a enxergar algo maior, mais complexo.

É justamente a incompletude do final do filme que revela mais sobre o nosso passado do que obras como Zuzu Angel ou Ainda Estou Aqui, que mostram a tortura e a repressão de forma explícita. Nosso passado é incompleto, cheio de vestígios e indícios muitas vezes vagos. Ainda assim, tanto o cinema quanto a História oferecem a possibilidade de uma leitura que, mesmo marcada por lacunas, permite enxergar algo maior — e talvez mais inspirador: que a história do Brasil também é feita de resistência, de pirraça.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.