O que acontece com a vida psíquica quando o lucro se torna a medida de tudo?
O sofrimento vira regra num sistema que põe o lucro acima das pessoas e aprimora controle, vigilância e violência.
Quais são os impactos psicológicos de viver em um sistema no qual o valor é estritamente medido pelo lucro? Essa pergunta, que por muito tempo pôde permanecer amortecida por promessas de progresso e estabilidade, hoje se impõe com uma força quase insuportável. Muitas pessoas parecem experimentar, talvez pela primeira vez, a percepção de que certas ilusões — a neutralidade das instituições, a racionalidade moral do Ocidente, a separação entre economia, política e vida cotidiana — sempre foram ilusões, embora não fossem reconhecidas como tal.
Essa ruptura não ocorre no vazio. Ela se dá diante do que governos realizam em nosso nome, frequentemente com recursos públicos, e diante do papel desempenhado por corporações multinacionais e por uma mídia que, em muitos casos, administra o sofrimento alheio como dano colateral aceitável. Quando a cumplicidade se torna impossível de negar, a questão que emerge não é apenas política ou moral, mas profundamente psíquica e existencial: como continuar vivendo neste mundo?
Omar El Akkad formula essa pergunta de modo brutal ao expor o paradoxo central daquilo que ainda chamamos de “mundo civilizado”. Para que seus valores sejam preservados, afirma ele, torna-se aceitável incendiar bibliotecas, explodir mesquitas, arrancar oliveiras, destruir universidades, saquear casas, humilhar corpos, prender e matar crianças. A violência não aparece como desvio, mas como requisito. Tudo é feito — paradoxalmente — em nome da civilização, da ordem, da segurança, do progresso. Caso contrário, sugere a lógica dominante, “o mundo incivilizado pode vencer”.
Do ponto de vista psicológico, essa inversão produz efeitos devastadores. Quando a barbárie é apresentada como necessidade moral, o sujeito é convocado a recalcar sua própria capacidade de sentir. A empatia passa a ser tratada como fraqueza, ameaça ou erro cognitivo. Hoje, demonstrar solidariedade aos palestinos pode significar perder o emprego, ser silenciado, banido de espaços públicos ou profissionais. Não se trata apenas de repressão política, mas de uma pedagogia afetiva que ensina quais vidas merecem luto e quais podem ser descartadas sem escândalo.
Crédito: Filipe Castilhos/Sul21.com.br
O que acontece com uma sociedade que aprende a desconfiar da empatia? Que custo psíquico tem viver em um mundo onde sentir com o outro se torna perigoso? A resposta não se limita ao sofrimento das vítimas diretas da violência. Todos adoecem. A normalização da crueldade produz cinismo, dissociação, apatia moral, culpa difusa e um sentimento persistente de impotência. A vida psíquica se empobrece quando o laço social é corroído e quando a ética é substituída por cálculos de eficiência.
Naomi Klein, em sua palestra Let Them Drown: The Violence of Othering in a Warming World, aprofunda essa análise ao mostrar como a lógica da desumanização se intensifica em um mundo marcado por crises climáticas e colapsos ecológicos. À medida que os recursos se tornam escassos, o sistema responde não com solidariedade, mas com fronteiras mais rígidas, políticas de exclusão e a produção ativa de “outros” descartáveis. “Deixem-nos afogar” não é apenas uma metáfora: é uma política que define quem deve viver e quem pode morrer para que a ordem econômica permaneça intacta.
Nesse cenário, o capitalismo tardio revela sua dimensão necropolítica: algumas vidas são protegidas a qualquer custo; outras são administradas como excesso, risco ou obstáculo. Palestinos hoje, migrantes climáticos amanhã. O sofrimento deixa de ser um acidente e se torna parte estrutural de um sistema que coloca o lucro acima das pessoas, refinando continuamente suas tecnologias de controle, vigilância e violência.
Viver sob essa lógica tem consequências psíquicas profundas. Quando aprendemos que certos corpos podem ser humilhados, torturados ou exterminados sem que isso abale a ordem moral do mundo, algo essencial se rompe na experiência humana compartilhada. A sensação de pertencimento se fragiliza, a confiança no outro se dissolve, e a própria ideia de futuro se torna ameaçada. O trauma deixa de ser apenas individual e passa a ser coletivo.
Diante disso, a pergunta de El Akkad — como devemos continuar vivendo neste mundo? — não admite respostas fáceis. O que se desenha, no entanto, tanto em sua escrita quanto nas reflexões de Naomi Klein, é a possibilidade de uma ética que não pode ser reconhecida pelo império: uma ética fundada no vínculo, na memória, na recusa da desumanização. Um amor entre povos que não se orienta pelo lucro, mas pela dignidade compartilhada.
Talvez o caminho para alguma forma de cura — individual e coletiva — comece justamente aí: na recusa em aceitar a violência como norma, na insistência em preservar a empatia como força política e psíquica, e no reconhecimento de que pessoas comuns, em seus gestos cotidianos, também participam da manutenção ou da ruptura dessas estruturas. Em um mundo que mede tudo em termos de lucro, sustentar a humanidade do outro não é ingenuidade. É resistência.
Rima Awada Zahra é libanesa-brasileira, psicóloga, escritora e coordenadora da pós-graduação do curso de Psicologia e Migração da PUC MG. Organizou e traduziu o livro Sumud em tempos de genocídio, da psiquiatra palestina Samah Jabr, e traduziu Diários de Gaza, ambos pela editora Tabla.