Foto: The Academy

Por Chris Zelglia

Desde sua origem, o prêmio da Academia firmou-se como a maior celebração do cinema no planeta. A cada ano, uma audiência global acompanha a cerimônia, enquanto o mundo do cinema observa atentamente as nomeações e os vencedores. Contudo, quase um século depois, uma questão permanece estimulando discussões entre críticos, cineastas e acadêmicos: o Oscar ainda simboliza o que é considerado “cinema de qualidade”?

A resposta não é óbvia.

O Oscar é organizado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, organização que reúne milhares de profissionais do ramo cinematográfico. Uma indicação ou vitória pode mudar para sempre a vida de um filme. O prêmio geralmente aumenta a visibilidade das obras, impulsiona a receita de bilheteria e desenvolve as carreiras de diretores, atores e equipes técnicas. Em termos comerciais, o efeito é considerável. Os filmes vencedores costumam retornar aos cinemas, ampliar sua distribuição global e atrair novos espectadores. Nesse sentido, o Oscar continua sendo uma ferramenta influente de validação no setor audiovisual.

Mas, nem sempre os melhores filmes ganharam o Oscar. Apesar do prestígio, a história do cinema mostra que a premiação nem sempre honrou obras que mais tarde se tornaram pontos de referência artísticos. Vários filmes agora vistos como clássicos não foram premiados ou sequer nomeados em seu tempo. Isso demonstra algo essencial: o Oscar também mostra os critérios, discussões e sensibilidades de um certo período histórico. Ou seja, não funciona como um veredito final sobre a qualidade cinematográfica.

Outro aspecto frequentemente considerado é a relevância das campanhas promocionais no processo de premiação. Os estúdios investem grandes somas em publicidade, exibições privadas, eventos e estratégias de comunicação para os eleitores da Academia. Essas campanhas são parte integrante da dinâmica do setor e revelam que o Oscar não é apenas um reconhecimento artístico, está também inserido em um sistema de disputas econômicas e simbólicas.

O cenário audiovisual também mudou radicalmente nas últimas décadas. Hoje existe uma produção cinematográfica ativa em várias regiões do globo. Festivais globais como Festival de Cannes, Festival Internacional de Cinema de Berlim e Festival Internacional de Cinema de Veneza tornaram-se palcos importantes de reconhecimento para obras autorais e cinemas diversos.

Além disso, as plataformas digitais aumentaram o acesso a filmes produzidos em vários países, permitindo que o público descubra trabalhos que antes teriam uma distribuição restrita. Nesse contexto, o Oscar passou a ser uma referência relevante, mas não a única, no mundo do cinema.

Talvez uma das mudanças mais importantes do cinema atual seja precisamente a sua diversidade. Produções independentes, cinemas nacionais, filmes experimentais e novas linguagens coexistem agora com grandes produções comerciais. Essa pluralidade torna cada vez mais difícil definir um único padrão universal de “cinema de qualidade”.

O que comove um público pode não emocionar outro. O que se destaca nos festivais pode não alcançar grandes bilheterias. E filmes inicialmente ignorados pela indústria são muitas vezes redescobertos anos depois.

O Oscar segue como um dos eventos de maior destaque no mundo do cinema. Ele expõe as direções que a indústria está tomando, dá visibilidade a filmes importantes e gera conversas apaixonadas sobre a sétima arte. Contudo, é possível que sua utilidade mais relevante atualmente seja outra: fomentar reflexões a respeito das narrativas que consideramos importantes e dos parâmetros que empregamos para julgar um filme. Afinal, o universo do cinema é muito extenso para ser abraçado por uma única cerimônia de premiação. E talvez seja essa variedade que garante que a arte do cinema continue vibrante e relevante.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.