O luto como protagonista: como os filmes do Oscar transformam a perda em narrativa
Análise mostra como filmes da temporada do Oscar exploram diferentes formas de elaborar o luto.
Por Pedro Porte
Quando falamos em luto, quase sempre pensamos na morte de alguém próximo. Mas a experiência da perda vai muito além disso. Nos filmes da temporada do Oscar de 2026, diferentes narrativas exploram justamente essas outras formas de ausência e mostram como o processo de enlutamento pode assumir múltiplas faces.
Bom, em primeiro lugar, é preciso explicar o que significa a elaboração do luto.
Em poucas palavras, esse processo diz respeito ao processamento de alguma perda, seja ela material ou imaterial. Vale lembrar também que, como dito antes, essa perda pode ser, ou não, de uma pessoa. É o momento em que o indivíduo sente dor, angústia, desesperança e, acima de tudo, falta. Os mecanismos que o inconsciente de cada um desenvolve são múltiplos, o que torna a elaboração do luto uma das máximas mais individuais do ser humano.
Isso porque não fomos preparados para perder. É o apego que gera a falta daquilo que se foi. E, quando a dor vem, não importa se a perda é recente ou não, se é referente a um objeto ou a uma pessoa, etc. O que importa é que você a sente e é somente sentindo que é possível compreender e, por fim, elaborar o luto.
As narrativas criadas em alguns dos filmes indicados ao Oscar de 2026 deixam justamente isso explícito. O luto não é único e muito menos universal. Ele é múltiplo. Tão múltiplo que não somente se diferencia entre uma pessoa e outra, mas também entre momentos diferentes da vida de uma mesma pessoa.

O primeiro filme a ser analisado é Valor Sentimental (2025), do norueguês Joachim Trier. Na trama, acompanhamos Nora Bord (Renate Reinsve), uma atriz de teatro que vive um dos piores momentos da sua vida profissional e pessoal. Após anos de ressentimento com o pai ausente, Gustav Borg (Stellan Skarsgård), ela precisa achar um jeito de se reencontrar não somente com ele, mas também com o brilho da própria vida mais uma vez. Durante esse processo, ela conta com o apoio da irmã, Agnes Borg (Inga Ibsdotter), que enfrenta as mesmas questões.
Um artefato interessante usado no filme é o da personificação de objetos inanimados. Aqui, a casa ganha vida e vira um personagem para dar lugar a toda essa dor guardada e é justamente lá o lugar onde ela é superada.
O luto retratado aqui é aquele que surge a partir daquilo que não foi vivido. Ele é muito mais marcado pela ausência do que nunca existiu do que necessariamente pela ausência de algo que aconteceu. É sobre frustração e idealização. Relembrar todo esse ressentimento é muito mais do que um exercício de memória, uma vez que também impede que a elaboração do luto seja mais rápida.

Já em Hamnet (2025), filme dirigido pela chinesa Chloé Zhao, a abordagem do processo de enlutamento é muito mais voraz e abrupta. Se em Valor Sentimental (2025) a saudade decorre de coisas nunca vividas, aqui ela é justificada pela rotina que já não é mais a mesma — e nunca vai ser.
Acompanhamos a história de Agnes Shakespeare (Jessie Buckley) e William Shakespeare (Paul Mescal) e a formação da família na Inglaterra do século XVI. Juntos, eles tiveram três filhos: Hamnet (Jacobi Jupe), Judith (Olivia Lynes) e Susanna (Bodhi Rae Breathnach). Mas, quando a Peste Bubônica chega à região, toda a trajetória de vida da família é transformada à força.
Hamnet, que acaba sendo vítima da doença, tem uma morte precoce, o que catalisa a trama emocional a partir daí. Nesse momento, o dia a dia se transforma e a ausência começa a ocupar o espaço que antes pertencia a alguém. É interessante observar também que aqui o luto é ainda mais específico, pois ele não é retratado como um luto “puro”. Sim, somos orientados, por natureza, à perda. Mas é muito mais fácil processar a ideia de perder os nossos pais do que um filho, não acham?
E, em meio a esse desespero, a arte surge como sintoma da compreensão e aceitação do luto. William Shakespeare cria a peça Hamlet e, com ela, dispõe de um mecanismo de apaziguamento da saudade. De modo parecido, Agnes Shakespeare também utiliza a peça como meio de compreensão, mas não só isso. É através dela que consegue também dizer adeus.

Agora, em Sonhos de Trem (2025), de Clint Bentley, a elaboração do luto retratada é aquela que acontece a longo prazo. Na história, o ponto central é Robert Grainier (Joel Edgerton), que leva uma vida monótona e solitária.
Após perder a esposa e a filha em um trágico acidente, o homem é obrigado a enfrentar um grau ainda maior de solidão, agora de forma literal. Um ponto interessante de se pensar é que, mesmo antes da terrível perda, Robert já havia presenciado diferentes mortes, que o assombram durante toda a narrativa.
Toda essa sequência de fatos serve para ilustrar o luto a partir da perspectiva do diretor: ele não para, ele persiste. Vive na rotina, no silêncio, na repetição e no modo automático em que vivemos. Às vezes até soa um pouco egoísta, mas a vida continua e você precisa continuar a vivê-la. Daí surge a metáfora do trem: ele segue em movimento, não deixando que nada o interrompa…
O tempo passa e a intensidade vai se modificando. Diminui, mas aumenta de novo e vice-versa. Elaborar o luto, então, é o modo de aprender a viver com a perda.
Trazer essas narrativas para a arte evoca a necessidade de processarmos os nossos próprios sentimentos. Muitas vezes, é através de obras como essas que alguns indivíduos vão entender aquilo que é doloroso só de pensar.
Talvez seja exatamente isso que reforça o papel da arte na nossa sociedade: sensibilizar e dar voz aos sentimentos que, muitas vezes, estão abafados no nosso peito.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.