O longo caminho para desmontar injustiças históricas
A história nos ensina que avanços importantes podem ser conquistados, mas o desmantelamento completo das injustiças exige esforço contínuo.
Desmantelar estruturas históricas de opressão não acontece da noite para o dia. Mesmo quando leis injustas caem ou regimes autoritários são derrubados, os efeitos da dominação continuam presentes na sociedade, na cultura e na vida cotidiana das pessoas.
O colonialismo e suas marcas culturais também são difíceis de desfazer. Mesmo após a independência política, estereótipos, sistemas educacionais e a própria linguagem podem perpetuar padrões de dominação. Edward Said, em Orientalismo (1978), mostra como representações culturais, acadêmicas e midiáticas podem reforçar relações de poder mesmo depois da independência formal de países colonizados. Ele demonstra que o colonialismo não se limita à ocupação física: deixa marcas profundas na maneira como o mundo vê e compreende culturas, histórias e identidades.
A descolonização do território é apenas o primeiro passo. A descolonização da mente, das instituições e das práticas sociais é um processo muito mais lento e resistente, que exige revisão crítica da educação, da produção de conhecimento, das narrativas históricas dominantes e do próprio colonizador, que enxerga sua cultura como superior, naturalizando a dominação.
Said nos alerta que, sem esse trabalho contínuo de conscientização e reconstrução cultural, velhos padrões de dominação podem persistir, transformando a independência formal em liberdade apenas simbólica, enquanto estruturas de poder e estereótipos continuam moldando comportamentos, políticas e relações internacionais.
Georges Didi-Huberman lembra que o testemunho e a imagem funcionam como atos de resistência — maneiras de manter viva a experiência daqueles que sofreram, mesmo que de forma imperfeita, e de transmitir essas lições às gerações futuras. Para ele, a memória é central nesse processo: registrar a violência histórica, dar voz aos sobreviventes e preservar a lembrança constitui uma forma de resistência e uma tentativa de impedir que o passado se repita. No entanto, essa preservação não é instantânea; exige esforço contínuo, atenção constante e compromisso coletivo, mostrando que a reparação e a transformação social são processos graduais, construídos ao longo do tempo.
A história nos ensina que avanços importantes podem ser conquistados, mas o desmantelamento completo das injustiças exige esforço contínuo, muitas vezes invisível, que ultrapassa os limites de uma vida.
Talvez nossa missão hoje seja carregar essa responsabilidade com consciência crítica, preservando a memória e os ensinamentos das lutas passadas. Hannah Arendt analisa como regimes totalitários e sistemas de opressão deixam legados que persistem mesmo após a queda política. Em Origens do Totalitarismo, ela destaca que a memória histórica é fundamental para impedir a repetição de injustiças, pois, sem recordar o passado, a sociedade se torna vulnerável à retomada da violência e da opressão.
Ao passar a tocha às próximas gerações, como propõe Fanon ao refletir sobre a descolonização, não se trata apenas de transferir poder ou conhecimento, mas de incutir consciência crítica e coragem para que elas continuem a jornada pela igualdade e pela dignidade de todos.
Essa transmissão não é automática nem neutra: exige cuidado, reflexão e compromisso, reconhecendo que cada geração constrói sobre os esforços de quem veio antes, perpetuando uma luta que é, ao mesmo tempo, histórica e contínua.