Por João Pedro Mello

Foto: Cecília Comin

Em 2025, o Brasil ganhou seu primeiro Oscar de Melhor Filme Internacional com “Ainda Estou Aqui” — e em Curitiba, cerca de 5 mil pessoas assistiram ao anúncio juntas, na rua, na frente do Cine Passeio. Pessoas que nunca tinham chorado em público choraram. Em 2026, o cinema repete a experiência: no domingo, dia 15/03, a fachada do Cine Passeio volta a ser tela para a cerimônia do Oscar, desta vez com mais estrutura e a torcida por “Agente Secreto”, indicado em 4 categorias.

Por trás desse evento está Juliana Flores, gestora do Cine Passeio e produtora cultural que quase nasceu numa sala de cinema — seus pais assistiam a “Cria Cuervos” (1976) no Cine Plaza quando sua mãe teve as primeiras contrações. Cresceu frequentando a Cinelândia de Curitiba, polo cultural que reunia cinemas de rua como o Cine Plaza, Cine Avenida, Cine Ópera, Cine Palácio e Cine Odeon, e nunca se afastou muito disso.

Juliana Flores, curitibana, gestora do Cine Passeio e amante de cinema. Foto: Acervo pessoal de Juliana Flores

O que é o Cine Passeio

Inaugurado em março de 2019, na esquina das ruas Riachuelo e Carlos Cavalcanti, no centro histórico de Curitiba, o Cine Passeio é o principal cinema de rua da cidade. Seu prédio foi construído em 1930 e passou por reformas para abrigar toda a rotina cultural.

 Cine Passeio, cinema de rua localizado na Rua Riachuelo em Curitiba. Foto: Reprodução

Além de funcionar normalmente como um cinema, o local resgata obras de grandes cineastas antigos, oferece oficinas, encontros com artistas do cinema nacional e promove eventos como exibições e festivais.

Flores defende que esses espaços sejam mais do que um amontoado de salas para exibição — que funcionem como lugares de aprendizado que estimulem a reflexão e o conhecimento cultural, histórico e técnico do audiovisual.

“É importante trazer essa produção local e nacional e fazer as pessoas pensarem sobre essa produção. Eu acho que é aí que está a nossa diferença de um simples consumo de entretenimento”, reconhece a agente cultural.

Cometa Halley: a exibição do Oscar 2025

A exibição do Oscar 2025 na fachada do Cine Passeio, na época do carnaval, em um ano em que o Brasil saiu vencedor, é o tipo de acontecimento que Flores considera tão exclusivo quanto o Cometa Halley, que passa na órbita terrestre a cada 80 anos. O evento lotou os quarteirões do centro histórico com cerca de 5 mil pessoas.

multidão ocupando a Rua Riachuelo para assistir à cerimônia do Oscar. Foto: Cecília Comin

O calor, a multidão e o clima de festa misturado à folia do carnaval criaram uma atmosfera que Flores considera única — especialmente no momento em que “Ainda Estou Aqui” foi premiado na categoria de Melhor Filme Internacional.

“Quando foi anunciado o prêmio, pessoas que eu nunca vi chorar, choraram. Pessoas que eu sei que lutam pelo cinema nacional a vida inteira”, explicou Flores.

Comemoração da vitória de “Ainda Estou Aqui” no Oscar 2025. Foto: Cecília Comin

O evento nasceu da necessidade de comemorar o cinema nacional junto. Ao ver o sucesso de bilheteria de “Ainda Estou Aqui” e a força do filme nas grandes premiações, Flores e sua equipe tiveram a iniciativa de exibir o Globo de Ouro 2025 na fachada do cinema. Com o sucesso do experimento, a ideia de exibir o Oscar se tornou real. A expectativa era de um público próximo a 300 pessoas — no final, o evento demonstrou que o cinema é mais forte em Curitiba do que Flores pensava.

Essa potência levou vídeos da comemoração ao mundo todo. Flores conta que o Brasil criou um laço especial com a Letônia, já que na premiação de 2025 os dois países venceram uma estatueta pela primeira vez na história. Segundo ela, as gravações daquela noite em Curitiba emolduraram o sentimento brasileiro sobre a vitória em alguns lugares do mundo.

Curitiba como polo do cinema nacional

Flores argumenta que Curitiba tem tudo para ser um polo para o cinema nacional: cursos de graduação e pós-graduação, espaços além do Cine Passeio que oferecem sessões gratuitas ou com preço moderado — como Cinemateca, Cine Guarani e Cine Teatro da Vila —, atividades culturais relacionadas à produção audiovisual e um histórico renomado em dramaturgia.

A exibição na rua, para ela, é a materialização desse potencial: um lugar onde o cinema é vivido em conjunto e experienciado de forma intensa.

Oscar 2026 no Cine Passeio

Para a edição de 2026, a organização promete mais estrutura: mais caixas de som, tela maior, banheiros e ambulâncias. A estimativa é que o público seja parecido ou menor do que o do ano passado, já que o evento desta vez não ocorre na temporada de carnaval, quando há grande fluxo de turistas.

Tensão pré-anúncio de vencedor da categoria de Melhor Filme Internacional Foto: Cecília Comin.

Para Flores, a exibição de domingo tende a trazer a mesma energia alegre da edição anterior — principalmente se “Agente Secreto” vencer em uma das 4 categorias em que foi indicado.

“É um clima de torcida, mas também de descontração, de brincar um pouco, ser feliz. Isso a gente está precisando”, exclama Flores.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.