Por Teresa Cristina Saturnino

Foto: Victor Jucá/Divulgação

Memória é tudo aquilo que nos representa, o que somos, o que recordamos ser, nossas origens, nossa essência. Se não conhecemos nossa própria história, não há memórias de onde viemos, o que vivemos, o que somos hoje e o que almejamos ser no futuro. Falar de memórias já se tornou marca registrada dos filmes do diretor Kleber Mendonça Filho. Seja ela uma memória individual, coletiva, afetiva ou até mesmo dolorosa. Assistir aos seus filmes é ter a certeza de que sairemos da sala de cinema refletindo sobre os significados escondidos, metáforas e como a memória influencia na trama.

Som ao Redor (2013)

Em seu primeiro longa-metragem ‘O Som ao Redor’, temos uma continuação da memória histórica da desigualdade social que está enraizada em nosso país. É interessante observar como o cotidiano dos personagens nos faz lembrar de tantos momentos da história brasileira e relembrar uma memória viva, que parece estar disfarçada de novos costumes. O diretor prova isso ao trazer imagens em preto e branco de trabalhadores nas lavouras e em seguida nos levar à atualidade, onde vemos diversas babás cuidando de crianças em condomínios fechados, uma analogia que sai dos engenhos e vai para os residenciais.

Filme Aquarius (2016) Créditos: Divulgação

Já em ‘Aquarius’, vemos a memória afetiva ligada ao apartamento da personagem Clara (Sônia Braga), local onde ela viveu diversos momentos sozinha e com sua família. Clara é uma personagem idosa que luta contra a juventude de uma construtora que quer destruir o prédio onde mora, revelando o desejo da modernidade em destruir tudo que é considerado “velho”. Um movimento muito comum que acontece com construções e locais históricos, que são apagados para se tornarem construções nos moldes da atualidade, o que faz com que as pessoas das próprias cidades esqueçam ou nem saibam o que havia ali antes, causando uma falta de reconhecimento da própria história. Uma cena que simboliza isso é quando vemos os cupins em um dos armários, que destroem a madeira que não pode voltar à sua forma original, assim como a especulação imobiliária faz com o apartamento de Clara. Além da memória nas paredes, temos a memória humana da própria Clara, que é uma mulher idosa e fruto de toda uma história que muitas vezes é desvalorizada e invalidada pela atualidade, já que é considerada “velha demais”. 

Bacurau (2019). Foto: divulgação

Já em ‘Bacurau’ temos a memória coletiva de uma cidade que nem existe no mapa, marcada pelo esquecimento dos governantes que negligenciam aquela população. Apesar das adversidades, o povo de Bacurau resiste e usa da sua força para enfrentar as ameaças. Uma cena muito interessante é quando os personagens vão ao museu e usam das armas que fazem parte da história da cidade para defendê-la no presente quando tentam apagá-la. O próprio povo usa sua própria história como arma para se salvar.

Retratos Fantasmas (2023). Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

Em ‘Retratos Fantasmas’ a memória deixa de ser uma parte da trama para ser a protagonista. Somos apresentados a memórias do apartamento da mãe de Kleber, que foi cenário de seus filmes e local onde muitos deles foram discutidos, nuances de um Recife que não existe mais. O saudosismo com que tratamos os cinemas de rua – que infelizmente já estão extintos em algumas cidades – é trocado por um mundo em que eles ainda são realidade. Conhecemos diversas personalidades que fizeram parte desses locais e que foram parte de momentos importantes do Recife e que hoje estão apagados pelas igrejas e farmácias que foram construídas no local. É um verdadeiro registro de memórias orais que pareciam ser apenas fantasmas de um passado, mas ganham imagem e registro para se tornarem documentos.

O Agente Secreto (2025). Foto: Divulgação/Vitrine Filmes)

Assim como nas outras obras, ‘O Agente Secreto’ também exalta a importância da memória. Aqui temos memórias de um Recife antigo, cinemas de rua, costumes de um povo que ainda perdura na atualidade. Ao longo do filme, vemos cenas da atualidade onde duas mulheres revisitam a história de Marcelo (Wagner Moura) através de fitas que foram gravadas durante sua ida a Recife e na sua tentativa de sair do Brasil. Essas aparições da atualidade se dividem pela trama e nos informam que de, alguma maneira, essa história chegará nos dias de hoje como uma memória. Ao final do filme vemos Flávia (Laura Lufési) indo até Recife para conhecer Fernando (Wagner Moura), filho de Marcelo/Armando, e lá se depara com a realidade de que o filho não tem memórias do próprio pai, nem de sua luta ou até mesmo de sua tentativa desesperada de deixar o país para poder viver em paz com ele. O que faz um paralelo perfeito com o Brasil dos dias atuais que esquece da sua própria história e não a reconhece. Infelizmente, nossa história é marcada por diversos períodos sombrios, como a própria ditadura e a escravidão, que ainda não recebem o debate necessário e muitas vezes são banalizados apenas como uma pedaço da história. O que é um verdadeiro perigo, já que estamos falando de períodos de repressão e extrema violência que jamais deveriam ser esquecidos para que nunca voltem a acontecer. Como diz o filósofo Edmund Burke: “Um povo que não conhece a sua própria história está fadado a repeti-la”. O filme nos trás mais uma infeliz consequência da ditadura, a perda da memória daquilo que jamais deveria ter sido esquecido.

Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

Seja qual for o tipo de memória, Kleber a conduz com maestria e nos faz refletir sobre si mesmos, sobre a nossa sociedade e sobre o mundo que vivemos. Assistir aos seus filmes é ter a certeza de que sairemos da sala de cinema refletindo sobre os significados escondidos, metáforas e como a memória influencia na trama e na nossa vida.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.