O Brasil multifacetado em ‘O Agente Secreto’
Elenco de ‘O Agente Secreto’ revela a diversidade de rostos que compõe a formação do povo brasileiro.
Por Thays Villar

A diversidade de rostos que aparece em O Agente Secreto não é apenas um detalhe de produção. O filme de Kleber Mendonça Filho reúne atores de diferentes origens e regiões do Brasil para construir um retrato humano amplo do país. O resultado é um elenco que combina nomes consagrados com revelações e que reflete, na tela, a variedade de presenças que compõem a nossa gente.
A seleção desses intérpretes foi conduzida pelo diretor de elenco Gabriel Domingues, indicado ao Oscar pelo trabalho no filme. Em entrevista ao Los Angeles Times, ele explicou que o roteiro oferecia descrições bastante específicas das personagens, o que orientava a busca por atores capazes de traduzir essas características com naturalidade. Essa base detalhada permitia que o processo de audição partisse de referências claras, ao mesmo tempo em que abria espaço para que cada intérprete acrescentasse sua própria identidade ao papel.
À Motion Picture Association, Gabriel contou que o filme reúne dezenas de personagens diferentes, cada um com perfis sociais e emocionais próprios, o que exigiu uma busca extensa por intérpretes capazes de refletir essa variedade. “Em minha função, estou sempre à procura de pessoas interessantes, pessoas bonitas, pessoas interessadas em se expressar, pessoas carismáticas, que são ideias muito abstratas.”
Entre os nomes centrais do projeto está Wagner Moura, protagonista do longa e parceiro antigo de Kleber. Hoje reconhecido internacionalmente por trabalhos em produções globais, o ator relembra que sua trajetória começou sob expectativas bem mais limitadas.
Em entrevista ao The Washington Post, Wagner contou que, no início da carreira, imaginava que dificilmente ultrapassaria o teatro. Parte disso se devia à resistência da indústria audiovisual brasileira a intérpretes do Nordeste. “Eu jamais imaginaria que trabalharia na televisão brasileira, porque esses personagens eram reservados para pessoas que não tinham o meu sotaque”, afirmou.
O contraste entre essa expectativa e o cenário atual ajuda a dimensionar o alcance de filmes como O Agente Secreto. Ao lado de um ator já consagrado internacionalmente, o longa também apresenta artistas pouco conhecidos do grande público, ampliando a presença de trajetórias e origens diversas na tela.
Entre essas revelações está Kaiony Venâncio, escolhido para viver Vilmar, um homem pobre contratado para cometer um assassinato. O personagem exigia uma presença capaz de transmitir dureza e vulnerabilidade ao mesmo tempo. Domingues encontrou essa combinação no ator potiguar, que até então havia trabalhado principalmente em curtas-metragens.
Nessa dinâmica de escalação, um dos principais destaques é Tânia Maria, que interpreta Dona Sebastiana. Também artesã e costureira, a atriz de 79 anos acabou se tornando uma das presenças mais carismáticas do filme e vem recebendo prêmios e indicações por sua performance. “Nunca pensei em ser atriz. Só pensava em costurar. Tudo isso foi uma surpresa”, contou ao Los Angeles Times.

Ao longo de mais de uma década trabalhando com elenco, Gabriel Domingues desenvolveu um método baseado na observação da expressividade, do carisma e da autenticidade dos atores. Esse olhar atento permite reconhecer pessoas cujas presenças carregam histórias próprias e ajudam a dar densidade às narrativas.
A tecnologia também ampliou o alcance desse trabalho. Como explicou Domingues à Motion Picture Association, hoje muitos intérpretes enviam testes gravados em vídeo diretamente de seus celulares, o que facilita encontrar talentos em diferentes regiões do país e permite que pessoas fora dos grandes centros também participem das audições. “Talvez, há dez anos, eu tivesse que viajar até algum lugar para encontrar as pessoas que estavam lá e convidá-las para uma audição. Mas agora as coisas são mais simples, de certa forma, porque todo mundo tem um celular.”
Essa atenção à variedade de rostos já é uma característica recorrente no cinema de Kleber Mendonça Filho. Em entrevista ao Screen Slate, o diretor afirmou que escolher o elenco é uma das etapas mais importantes da realização de um filme. “São sociedades muito diversas, com muitos rostos diferentes. Se você vai fazer um filme sobre a vida no planeta, precisa estar muito aberto aos tipos de rostos que vai colocar na tela.”
Essa sensibilidade também aparece em obras anteriores do cineasta. Em entrevista à revista Trip, ao falar sobre a origem de Bacurau, Kleber recordou que a ideia do filme surgiu a partir de uma reflexão sobre a maneira como pessoas de regiões distantes costumam aparecer no cinema brasileiro. “Vimos uma série de filmes que começaram a nos fazer pensar sobre algumas questões relacionadas à forma como pessoas de lugares distantes são retratadas no cinema brasileiro, inclusive por filmes muito bem intencionados. Havia ainda uma carga forte de urbanidade contra gente do interior, pessoas simples.”
Lançado em 2019, Bacurau conquistou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes no Festival de Cannes e consolidou internacionalmente esse olhar atento às múltiplas realidades do nosso país.

Durante décadas, porém, o Brasil que chegou ao público internacional foi muitas vezes filtrado por um recorte bastante padronizado. As novelas exportadas para dezenas de países ajudaram a popularizar a produção audiovisual brasileira, mas frequentemente apresentavam um conjunto limitado de rostos e ambientes. Nesse contexto, ver na tela uma variedade mais fiel ao nosso multifacetado país já representa, por si só, uma vitória.
Quando essa multiplicidade de rostos alcança visibilidade internacional, também encontramos algo profundamente nosso. Reconhecemos ali a diversidade que nasce da própria formação do povo brasileiro, marcada por encontros de origens, culturas e histórias distintas. Como canta “Paratodos”, de Chico Buarque, “O meu pai era paulista. Meu avô, pernambucano. O meu bisavô, mineiro. Meu tataravô, baiano”. Ao chegar à cena global, esses rostos mostram ao mundo aquilo que sempre esteve na base do país: a beleza e a riqueza da nossa diversidade.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.