Nosso futuro não está à venda
Desmatamento e violações de direitos humanos mostram como a moda segue lucrando com a falta de rastreabilidade e sustentabilidade na cadeia do couro
Por Eloisa Artuso*
É preciso reconhecer que ainda há uma desconexão muito grande entre o que consumimos e o seu real impacto ambiental e humano. Um dos motivos é a opacidade das cadeias produtivas que, muitas vezes, escondem violências e devastação. Isso acontece dentro de um sistema econômico inegavelmente insustentável, baseado na exploração predatória de recursos naturais, que ainda reproduz práticas colonialistas.
Neste contexto, encontram-se em confronto realidades e visões de mundo opostas: as que se entendem como natureza e as que se entendem como donas dela. Se, por um lado, o Acampamento Terra Livre (ATL) de 2026 trouxe o lema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, por outro, a agropecuária brasileira segue passando por cima de direitos de trabalhadores e comunidades indígenas, vendendo nossas florestas para grandes marcas de moda globais. O ATL, que acontece anualmente em Brasília, é a maior assembleia e mobilização nacional dos povos indígenas no Brasil. Organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o evento reuniu milhares de lideranças de todo o país para defender direitos territoriais, combater retrocessos e pautar políticas públicas.
A principal pauta foi a demarcação de terras indígenas, a proteção contra invasões e desmatamentos, além do repúdio à tese do marco temporal. O ATL é uma importante demonstração de força política, cultural e territorial, reafirmando o direito dos povos indígenas ao usufruto exclusivo de suas terras e à preservação de suas culturas.
E por que isso é tão importante — não só para os povos indígenas, mas para mim, para você e para todos nós?
A verdade é que estamos, literalmente, consumindo o nosso planeta, que se esvai por meio de grandes cadeias produtivas globais. Hoje, quase um terço do rebanho bovino brasileiro está concentrado nos estados da região Norte, cobertos pelo bioma Amazônia, e a pecuária é a atividade mais associada ao desmatamento nessa área. Cerca de 20% do território nacional é ocupado por pastagens em diferentes estágios de degradação. Entre 1985 e 2023, mais de 90% do desmatamento na Amazônia foi realizado para a abertura de pastagens.
Além disso, o gado é amplamente utilizado na grilagem de terras: desmatar florestas, plantar pasto, colocar gado na terra e, em seguida, tentar legalizar essas áreas ocupadas ilegalmente é um método recorrente de apropriação de terras públicas no Brasil.
O desmatamento causado pela pecuária implica ataques diretos aos direitos dos povos indígenas em diversas partes do país. Em 2020, por exemplo, invasores tentaram reivindicar mais de 120 mil quilômetros quadrados de terras indígenas — uma área quatro vezes maior que a Suíça. Essas invasões não apenas destroem ecossistemas, mas também enfraquecem a autonomia das comunidades indígenas, expondo-as à violência, a ameaças e à perda de seus meios tradicionais de subsistência. O Território Indígena Krikati, no estado do Maranhão, é um dos que foram alvo dessas invasões, onde se observam grandes extensões de pastagens e áreas recentemente desmatadas dentro dos territórios invadidos.
O estudo “Antes que seja tarde: contendo o desmatamento e as violações de direitos humanos impulsionados pela pecuária no Brasil”, da Climate Rights International, identificou 24 marcas globais ligadas, por meio de suas cadeias de fornecimento, a curtumes operados por uma ou mais destas seis empresas: Durlicouros, JBS, Marfrig, Mastrotto, Minerva e Viposa. As marcas incluem Adidas, Asics, Converse, New Balance, Nike, Puma, Reebok, Rockport, The North Face, Vans, Calvin Klein, Clarks, Coach, ECCO, H&M, Hugo Boss, Kate Spade, Kompanero, Lacoste, M&S, Michael Kors, Ted Baker, Timberland e Tommy Hilfiger.
As conexões documentadas demonstram que as cadeias de fornecimento dessas marcas incluem produtores envolvidos em graves danos ambientais e abusos de direitos humanos. Algumas delas vêm tentando cumprir sua responsabilidade de identificar e mitigar esses impactos, mas a complexidade das cadeias globais e a falta de rastreabilidade total do gado no Brasil tornam esse risco quase impossível de eliminar.
A capacidade do Brasil de reverter essa trajetória é limitada, segundo autoridades consultadas pela Climate Rights International. Em grande parte, porque os órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental não conseguem competir com as forças econômicas que impulsionam o desmatamento.
A realidade mostra que, ao manter custos de mão de obra artificialmente baixos ou usurpar terras indígenas, fazendeiros envolvidos no desmatamento ilegal aumentam a probabilidade de transformar crimes ambientais em ganhos financeiros.
O estudo também revela como esses fazendeiros frequentemente submetem seus trabalhadores a condições degradantes, incluindo trabalho forçado e outras formas graves de exploração, como o trabalho análogo à escravidão. Atraídos para áreas remotas com promessas de emprego digno, esses trabalhadores acabam enfrentando jornadas exaustivas em condições precárias e perigosas. Sobrecarregados e mal remunerados, são impedidos de deixar o trabalho por meio de coerção econômica, ameaças e pelas enormes distâncias que teriam que percorrer para escapar. Desde 1995, auditores-fiscais do trabalho já resgataram mais de 17 mil pessoas dessas condições em fazendas de gado.
Embora em escala menor do que a carne, as vendas de couro geram bilhões em receita e são fundamentais para a lucratividade de alguns frigoríficos. Cerca de 80% do couro brasileiro é exportado e grande parte tem como destino marcas internacionais — o que torna urgente responsabilizá-las para além do discurso. Apesar das evidências, todas essas grandes marcas afirmam, publicamente, compromissos com cadeias de fornecimento sustentáveis e metas de ação climática, amplamente divulgadas em seus relatórios e plataformas institucionais. No entanto, o contraste entre essa comunicação e a realidade no campo é evidente.
Para que uma transformação real aconteça, é necessário implementar mecanismos de rastreabilidade em todo o setor, sustentados por regulamentações rigorosas que garantam práticas de compliance e devida diligência ambiental e de direitos humanos ao longo de toda a cadeia produtiva. Como bem aponta o estudo, quando se trata do desmatamento impulsionado pela pecuária e dos abusos associados, todas as cadeias precisam ser sustentáveis — ou, no limite, nenhuma será.
Voltando à pergunta inicial: o que tudo isso tem a ver comigo ou com você?
Muito além do fato de consumirmos produtos dessas marcas, muitas vezes sem conhecer o caminho que percorreram até chegar às nossas mãos, fica evidente que defender os direitos indígenas é também proteger a natureza — e o futuro de todos nós. Demarcar é garantir o futuro. Mudar a lógica que guia os negócios também. Caso contrário, antes do que imaginamos, não haverá mais planeta capaz de sustentar tudo o que se produz, consome e descarta.
Você pode apoiar a luta dos povos indígenas doando por meio do site da Apib ou via Pix: apoinmebra@gmail.com.
Eloisa Artuso* é designer, pesquisadora e atua em projetos na intersecção entre clima, gênero e moda. É cofundadora do Instituto Febre, uma organização social que pauta a agenda da justiça climática e direitos das mulheres na indústria, onde atua como diretora executiva. Cofundou o Fashion Revolution Brasil, maior movimento de ativismo de moda do mundo. É também palestrante, professora de design sustentável no Istituto Europeo di Design (IED) e colunista do Design Ativista na Mídia Ninja e da Carta Capital.