Mulheres lideram aprovação em medicina na UEPA e reafirmam protagonismo no ensino superior

Com três primeiras colocadas no curso mais concorrido, o resultado reflete avanço feminino nas universidades — ainda marcado por desigualdades raciais e sociais

Por Elizabete de Jesus e Francy Ramos

O acesso ao ensino superior é porta de entrada para aqueles que desejam construir uma carreira no mercado de trabalho. Se antes ocupar uma cadeira na sala de aula — ou sequer vislumbrar uma profissão — era uma realidade distante para muitas mulheres, hoje elas chegam ao topo. O resultado do Processo Seletivo da Universidade Estadual do Pará (PS/UEPA) revela um dado importante: o protagonismo feminino no acesso à educação superior.

O listão contou com três mulheres nas primeiras colocações do curso de Medicina, um dos mais concorridos do país. O primeiro lugar foi ocupado pela estudante Camille Azevedo Vaz; em segundo, ficou Sofia Farias Cerceau, seguida por Ingrid Rebeca de Moraes Soares, em terceiro.

De acordo com o levantamento do Censo da Educação Superior de 2023, realizado pelo Inep, as mulheres correspondem a 59,4% dos ingressantes no nível superior. Ainda segundo a pesquisa, entre 2013 e 2023, o percentual de mulheres matriculadas aumentou cerca de 138,6%. Esses números indicam o protagonismo feminino na educação — mas nem sempre foi assim.

Em um país herdeiro de um colonialismo patriarcal, as mulheres nem sempre puderam estudar, sobretudo aquelas que não pertenciam à elite brasileira. O ensino destinado a elas era voltado ao cuidado do lar, dos filhos e da família — e isso, em grande medida, para mulheres brancas da burguesia. Mulheres pretas e pardas estavam ainda mais distantes do acesso à educação, pois, além do marcador social de gênero, havia o racial, que as colocava em uma posição ainda mais vulnerável dentro da estrutura social brasileira.

Somente em 1827 as mulheres passaram a ter acesso à educação formal, ainda restrita ao nível fundamental. Foi apenas em 1879, com a promulgação da Lei Geral do Ensino, assinada em 15 de outubro, que puderam ingressar no ensino superior.

Sonho coletivo

A conquista de uma vaga na universidade não transforma apenas a vida de quem ingressa, mas se revela como uma jornada coletiva que envolve família e comunidade. Em territórios quilombolas, frequentemente ameaçados, investir na educação também se configura como estratégia de defesa desses espaços. É o que relata a jovem Elaine Cordeiro, aprovada no curso de Engenharia Florestal na UEPA.

“Para mim, a importância do ensino superior é, principalmente, a busca por conhecimentos para que eu possa voltar à minha comunidade e repassar aos meus os aprendizados adquiridos”, afirma, revelando o compromisso assumido por quem alcança a tão sonhada aprovação.

Esse sentimento também é compartilhado por Olivia Natalina, moradora da Comunidade Quilombola de Engenho, no município de Baião (PA), aprovada em primeiro lugar no PSE/IQ da Universidade Federal do Pará, no curso de Direito.

“Entrar na universidade é também um compromisso com a minha família, com a minha comunidade quilombola e com todos que vieram antes de mim — pessoas que abriram caminhos para que eu pudesse chegar até aqui. Levar o quilombo comigo, ocupando esse espaço com dignidade, memória e resistência, é muito importante pra mim.”

Os dados do Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que, em 22 anos, a população preta e parda com ensino superior quintuplicou no Brasil. Apesar do avanço, ainda representa cerca de metade da população branca, evidenciando um cenário em transformação, mas que ainda carrega as marcas da desigualdade e da falta de oportunidades para grupos historicamente marginalizados.

Para Olivia, ocupar esse espaço é fundamental: “É uma conquista que representa orgulho, reparação histórica e a certeza de que, quando existem políticas públicas e oportunidades, o nosso povo chega à universidade. Isso não é favor — é direito”, afirma.