Matou o mundo todo e foi ao cinema
Como uma iminente Terceira Guerra dialoga com os indicados ao Oscar 2026
Por Mauriceia Rocha

É 2026 e qualquer pessoa minimamente consciente está angustiada com as eminências de uma Terceira Guerra Mundial. Mas o que a seleção de filmes indicados ao Oscar tem a ver com isso? Como é sabido, a premiação mais famosa do mundo do cinema é estadunidense, embora a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tenha se aberto mais nos últimos anos a membros, em seu corpo de votação, dos demais países.
Os EUA, sob o comando de Donald Trump, só no último ano, ameaçou tomar à força a Groenlândia, sequestrou o presidente de um país da América do Sul, tem intimidado constantemente seus vizinhos Canadá e México, entre outras tantas medidas bélicas contra o mundo todo.
Não é de hoje que o país se comporta como dono da Geopolítica Global, interferindo no destino de outras nações e gastando rios de dinheiro para reafirmar sua liderança econômica, cultural e militar. A Doutrina Monroe, por exemplo, foi criada em 1823 pelo presidente James Monroe, para legitimar a interferência nas Américas, sob o pretexto de proteção de novas colonizações europeias. Em 1904, o presidente Theodore Roosevelt apresentou sua releitura: o Corolário Roosevelt, que dizia que os EUA tinha o direito de intervir nos assuntos internos de países latinos americanos, caso identificasse desordem ou violação de normas internacionais. Na prática, impor valores de uma nação que se autoproclama especial, através de subjugação.
Sob a justificativa de conter o fantasma do Comunismo, foram lançadas intervenções externas contra a URSS e em países onde sequer havia ligação direta. Até hoje, a “inimizade” com a Rússia reverbera no cinema estadunidense como vilania. Nesta linha, este ano temos, indicado em Melhor Documentário, Mr. Nobody against Putín, onde um professor/cinegrafista passa a gravar de forma clandestina, em uma escola na cidade mineradora de Karabash, na Rússia, propagandas nacionalistas, como forma de denúncia, e Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud, indicado em Melhor Curta Documentário, sobre o documentarista e jornalista americano que dá título ao filme, morto por soldados russos enquanto cobria a guerra na Ucrânia. Os EUA, como aliado da Ucrânia no conflito, optará, obviamente, por narrativas que reforcem o seu ponto de vista.
A CIA (Central Intelligence Agency), foi criada em 1947 e se tornou um dos principais instrumentos da estratégia de interferência em outros países, desestabilizando governos, influenciando eleições, sustentando regimes de aliados e apoiando golpes de Estado por meio de sabotagem, espionagem, financiamento e propaganda. No Brasil, em 1964, a Operação Brother Sam é a mais emblemática, mas há documentos que provam que a agência monitorava a política de nosso país desde 1961. Em O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, indicado a Melhor Filme Internacional, Melhor Ator, Melhor Filme e Melhor Direção de Elenco, temos o tema memória sendo elaborado, tendo como ambientação o período ditatorial brasileiro, deixando como subtexto a atemporalidade do assunto: a Democracia é frágil. Poderia estar acontecendo agora, ou em 2018, ou em 2023.. “ É preciso estar atento e forte”, como já diz a canção de Caetano e Gil.
O recente sequestro do presidente Nicolas Maduro e sua esposa Cilia Flores, marca um ataque alarmante dos EUA aos nossos vizinhos venezuelanos e consequentemente ao nosso continente, assim como a tentativa de Donald Trump de intervir na autonomia brasileira no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, através de sanções e taxações.
Enquanto isso, seu próprio país vive uma grande instabilidade civil perante as operações violentas e ilegais do chamado ICE ( Immigration and Customs Enforcement), que persegue, prende e deporta imigrantes, especialmente latinos. Espera-se que, assim como tem sido feito durante toda a temporada de premiações, artistas como Natalie Portman, uma das produtoras do indicado em Melhor Animação, Arco, compareçam a noite do Oscar usando o broche “ICE Out” (Fora ICE) e se manifestem em seus discursos.
Após os ataques do emblemático 11 de Setembro de 2001, formou-se a chamada Guerra ao Terror, sob o comando do então presidente George W. Bush, que trata o terrorismo como ameaça global e justifica a intervenção estadunidense em tudo que nomeia como tal. O Oriente Médio torna-se o principal alvo e notamos uma predisposição à temática no Oscar — de filmes que retratam somente o lado opressor dessa região, como se não houvesse produções que a exaltem culturalmente, provocando outros imaginários.
Temos indicados os filmes iranianos Contando Rochas, em Melhor Documentário, que acompanha a primeira vereadora eleita em sua aldeia, Sara Khaki, enfrentando estruturas patriarcais, e Foi Apenas um Acidente, em Melhor Roteiro Original e Melhor Filme Internacional. O filme, apesar de ser iraniano, concorre pela França, pois o diretor e roteirista Jafar Panahi é considerado um perseguido político por seu país, e narra a história de um ex-detento que acredita ter reconhecido um de seus torturadores. Não por acaso, os EUA, ao lado de Israel, hoje estão em guerra contra o Irã, com o discurso de libertação das opressões de seu povo — quando, na verdade, trata-se de invasão e carnificina por petróleo e território.
Falando na parceria EUA e Israel, o genocidio palestino segue em curso mesmo após o declarado cessar fogo em 2025, sob o pretexto de combate ao terrorismo do grupo Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), quando trata-se de limpeza étnica e avanço territorial.
Os indicados israelenses Butches Stain, em Melhor Curta Metragem de Ficção e Children no more: were and are gone, indicado em Melhor Curta Metragem Documental, embora abordem a temática de forma morna, sob um discurso de que não há culpados no conflito, apenas vítimas, de acordo com o The Hollywood Reporter, incomodaram Miki Zohar, Ministro da Cultura de Israel, que declarou que as obras “amplificam a narrativa dos inimigos”. Inclusive o palestino Motaz Malhes, um dos atores principais do dilacerante filme indicado pela Tunisia em Melhor Filme Internacional, A Voz de Hind Hajab, não irá participar da cerimônia em Los Angeles por não ter sido autorizado a entrar no país.
A China é a maior compradora de petróleo do Irã e Venezuela e, não à toa, tem ameaçado a hegemonia global dos EUA. O país tem perdido a centralização inclusive em soft power na indústria cultural. Os grandes cases de sucesso e monetização hoje se voltam para artistas latinos como Bad Bunny e sul coreanos, como o caso do indicado em Melhor Animação e Melhor Canção Original, Guerreiras do K-pop, fenômeno da Netflix em audiência, produtos licenciados e nas paradas musicais, especialmente entre o público infantil e adolescente.
As marcas do imperialismo americano também encontram-se sutilmente no filme japonês Kokuho – o preço da perfeição, indicado em Melhor Maquiagem e Penteado. Logo no ínicio do narrativa, o protagonista, que virá a ser um grande ator do tradicional teatro Kabuki, se apresenta como um adolescente que perdeu o pai em um conflito da Máfia Yakuza e a mãe e as tias pela radiação da bomba atômica em Nagasaki.
As narrativas no cenário atual mundial são disparadas e guerreadas também no território digital. Em Bugônia, indicado em Melhor Filme, Melhor Atriz, Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Roteiro Adaptado, temos um olhar sob a paranoia propositalmente construída nas redes, frustração masculina, teorias da conspiração e fake news. Já em Zootopia 2, indicado a Melhor Animação, répteis são os povos originários, os verdadeiros donos da terra, empurrados para a marginalização pelos poderosos linces, sob a narrativa de que representam perigo e violência. E em A hora do mal, indicado em Melhor Atriz Coadjuvante, uma das constatações mais assombrosas e avassaladoras de nosso tempo: seres humanos manipulados como armas de guerras, dispostos a matar e morrer cegamente.
É 2026 e qualquer pessoa minimamente consciente está angustiada.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.