Em um verão da infância, viajei ao sul do Líbano para rever familiares. Entre ruínas, paisagens e o mar, houve um passeio que, embora eu fosse pequena, me atravessou de um jeito que até hoje mistura o trágico e o absurdo: a visita à prisão de Khiam, que, após a retirada israelense da região, se tornou um museu da tortura.

A prisão foi um dos símbolos mais brutais da ocupação no sul do país. Ali funcionavam ao menos três centros de tortura. Libaneses eram mantidos presos por até quinze anos sem acusação formal, sem julgamento, submetidos a práticas sistemáticas posteriormente denunciadas pela Anistia Internacional e pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha. A prisão caiu em 2000. Eu tinha nove anos quando entrei naquele lugar.

Antes de caminharmos pelas celas, nos mostravam um filme sobre a história da região. Lembro especialmente dos relatos de mães que ouviam, dos vilarejos vizinhos, os gritos dos filhos ecoando pelos morros. A ideia de que a tortura atravessava a paisagem cotidiana me marcou de forma física. Não era uma abstração política — era um som que podia ser ouvido na hora do almoço, na hora de dormir.

Depois, visitávamos a prisão. Lembro dos objetos preservados como no dia da libertação: o último prato sobre a mesa, utensílios, marcas, instrumentos, inscrições nas paredes. Havia algo de museu e algo de ferida aberta. Eu caminhava tentando entender aquele espaço. Era verão. Eu era criança. E estava de férias.

Hoje percebo como essa experiência me ensinou a escutar.

Aprendi antes mesmo de ter linguagem para nomear. Caminhando por corredores onde o eco ainda parecia presente. Talvez por isso, até hoje, eu não consiga escutar o sofrimento fora da história que o atravessa.

Assisto, com dor, ao momento em que o regime sionista volta a se infiltrar pelas fronteiras do sul. Tenta, mais uma vez, avançar sobre nossa terra, movido por um projeto de expansão que conhecemos bem — o mesmo que devastou nossa irmã Palestina.

Lançam bombas, multiplicam ataques aéreos, testam novas armas. Matam, destroem, espalham ruínas. Tiram a vida de nossos filhos, homens e mulheres. Devastam aldeias, atingem mesquitas e igrejas, como se nada fosse sagrado.

Nós, filhas e filhos da diáspora, acompanhamos cada ofensiva com o coração apertado, guardando as fotos de nossos jidos e sitos. Em meio às conversas, às vezes a ligação cai — é hora de desligar a eletricidade. Ainda assim, entre interrupções e silêncios, as memórias circulam, mantendo-os vivos em nós.

Drones zunem sobre suas cabeças e, a cada duas horas, o porta-voz em árabe de Israel transmite novas ordens de deslocamento para áreas que serão bombardeadas. É uma cena distópica. Tudo se deteriora tão rápido que mal conseguimos acompanhar a escalada da guerra conduzida pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã.

Autoridades israelenses afirmam ter avançado ainda mais no sul para ampliar a chamada “zona tampão”, que, na prática, é ocupação com outro nome.

Novas ordens de deslocamento atingem dezenas de aldeias, enquanto a ofensiva terrestre se expande. Estima-se que cerca de um milhão de libaneses já tenham sido forçados a deixar suas casas — número que deve crescer.

O calçadão e o centro de Beirute estão tomados por famílias deslocadas, exaustas. Os abrigos lotam rapidamente. Entre malas improvisadas, crianças cansadas e rostos marcados pela incerteza, uma pergunta paira: ninguém sabe quanto tempo isso vai durar.

Os avisos de deslocamento parecem ter um objetivo claro: esvaziar o sul de sua população. Na prática, trata-se de uma expulsão que abre caminho para a apropriação do território. Para muitos analistas, essa dinâmica se insere em um projeto mais amplo de expansão territorial associado à chamada “Grande Israel”.

A frase de Khalil Gibran — “Das profundezas do sofrimento emergem as almas mais fortes; os caracteres mais robustos são marcados por cicatrizes” — dialoga com a história do Líbano. Ao longo de décadas, o país foi atravessado por guerras, invasões e crises que marcaram profundamente seu povo e seu território. Ainda assim, dessas feridas emergiu uma forma particular de resistência.

No Líbano, as cicatrizes não são metáforas. Estão nas cidades reconstruídas, nas aldeias evacuadas, nas histórias interrompidas pelo exílio e nas memórias transmitidas entre gerações. São também o que mantém viva uma identidade enraizada — feita de memória, apego à terra e solidariedade.

Para muitos libaneses, o sofrimento não produziu apenas trauma, mas também uma consciência aguda do que precisa ser preservado: a língua, as histórias, os rituais, os vínculos com a terra e com os ancestrais. Gibran não romantiza a dor — reconhece que povos submetidos a provações desenvolvem uma força difícil de destruir.

Talvez por isso, apesar das guerras, algo essencial persista. As cicatrizes permanecem — visíveis e invisíveis — e se tornam marcas de continuidade.

Hoje entendo que aquela visita a Khiam não era apenas uma lição sobre o passado, mas sobre como a violência se inscreve nos lugares e nas pessoas. Havia algo de profundamente perturbador em perceber que a paisagem — morros, casas, caminhos — podia carregar sons de dor. Como se o território tivesse sido obrigado a testemunhar.

A prisão não era apenas um edifício, mas a condensação de uma história de ocupação, desaparecimentos e silêncios.

Com o tempo, compreendi que essa experiência também dizia respeito à memória coletiva. Os objetos preservados — o prato, os utensílios, as marcas — não apenas mostravam o que aconteceu, mas mantinham uma presença. Como se cada detalhe recusasse o esquecimento.

Talvez por isso Gibran ressoe tanto. No Líbano, as cicatrizes atravessam gerações e moldam formas de escutar, narrar e reconhecer a dor.

Para quem cresce entre guerra, deslocamento e resistência, a escuta nunca é neutra. Carrega responsabilidade. Aprendemos cedo que todo sofrimento tem história, geografia, política — e que precisa ser compreendido para não se repetir.

Aquela prisão me ensinou que a violência não termina quando acaba. Ela permanece nos ecos, nas paredes, nas narrativas.

Talvez por isso tantos de nós, da diáspora, carreguemos uma atenção particular ao sofrimento humano. Porque aprendemos, muito cedo, que os gritos que atravessam os morros podem atravessar também fronteiras, continentes e décadas.

E escutar esses ecos — mesmo quando o mundo prefere esquecê-los — é uma forma de preservar a dignidade de quem passou por ali.