Juan Carlos de La Concepción Raxach: A vida, a luta e o legado de quem seguiu sempre resistindo

Ativista histórico no combate ao HIV, médico cubano dedicou décadas à defesa da vida, do SUS e dos direitos humanos no Brasil.

Por Diego do Subúrbio

Escrevo estas palavras com lágrimas nos olhos diante da perda irreparável de Juan Carlos de La Concepción Raxach, que faleceu nesta quarta-feira, 4 de março de 2026, no Rio de Janeiro.

Embora eu já o conhecesse desde 2013, quando participei de um projeto de formação de jovens na Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), foi nos últimos dois meses que tive a oportunidade de estar mais próximo dele. Voltamos a dividir o mesmo espaço, agora como colegas de trabalho, justamente no lugar que, anos atrás, impulsionou minha caminhada no ativismo.

Juan era médico cubano, formado pelo Instituto Superior de Ciências Médicas de Havana, em Cuba, e terapeuta com formação em Análise Psico-Orgânica. Após receber o diagnóstico de HIV ainda jovem, encontrou na defesa da vida e dos direitos humanos o propósito de sua trajetória. Radicado no Brasil desde a década de 1990, dedicou mais de três décadas ao combate ao HIV e à AIDS, tornando-se uma referência na defesa dos direitos das pessoas que vivem com HIV no Brasil e na América Latina.

Na Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS, atuou como coordenador de projetos, contribuindo para pesquisas, debates e ações fundamentais na resposta brasileira ao HIV e à AIDS. Também teve participação importante junto ao Departamento de HIV, AIDS, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (DATHI) do Ministério da Saúde do Brasil, integrando o Comitê Técnico Assessor de Terapia Antirretroviral e colaborando com a construção de políticas públicas baseadas na solidariedade, na dignidade humana e no acesso universal à saúde. Sempre em defesa do fortalecimento do Sistema Único de Saúde e do diálogo com os movimentos sociais.

Nesse tempo recente de convivência, Juan compartilhou comigo reflexões profundas e um olhar muito amplo sobre o que significa viver com HIV — não apenas do ponto de vista da saúde, mas também das dimensões sociais e humanas dessa experiência. Sendo eu uma pessoa que vive com HIV, encontrei em suas palavras acolhimento e perspectiva. Ele dizia algo que carrego comigo: “manter a carga viral indetectável é viver com saúde, qualidade de vida, autonomia, dignidade e futuro e, consequentemente, contribuir para a não transmissão do HIV”.

Sou profundamente grato por ter aprendido e trocado com alguém tão generoso e potente. Na nossa última conversa, ele compartilhou comigo a música Sigo Vivo, do álbum Aguacero, do artista Ronkalunga — uma canção sobre resistência e sobre seguir vivendo sem medo de ser quem somos. Horas depois, ele partiu.

Juan foi, e seguirá sendo, uma referência fundamental no combate ao HIV e à AIDS, na defesa da vida e dos direitos humanos. Seu legado permanece vivo em cada pessoa que continua essa luta, na construção de um mundo com menos estigma, mais dignidade e mais cuidado com a vida.